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10 de setembro de 2010

A Fome de Marina






Por José Ribamar Bessa Freire


Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: "Lula é analfabeto". Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva , que tem diploma universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, "porque ela tem cara de quem está com fome".

Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.

Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da existência humana.

Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.

Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados.

De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.

A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio."Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel.../ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!".

Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.

A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?

O mapa da fome

A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.

Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.

Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.

A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.

Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.

Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT.

Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.

Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal.

Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.

Tudo vira bosta

Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos, "o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta".

Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - 'Se Manca' - dizendo a ela: "Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca".

Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - 'Você vem' - ela faz autocrítica antecipada, confessando: "Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem... e faz piada". Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: "Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você".

A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, "ela tem cara de professora de matemática e mete medo". Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.

Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem?

Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, "il péte de santé".

O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil...

Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de liderança em nosso país.

Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

[Texto recebido via email, achei pertinente publicá-lo].

Fonte Recorte compartilhado com Mulheres Sábias!


Obs da Rô: Infelizmente muitos destes tem arrastado multidões para o curral eleitoral de alguns maus candidatos.
Estes artista tem contribuído muito para que muitos façam péssimas escolhas, pois muitos são levados por estes desatualizados que nem conhecem os candidatos para que fazem campanhas.

Artistas levados pelo cachê, por preconceitos de classes e Região.
Sinto me triste quando vejo estas diferenças, com tanta desigualdade dentro da mesma nação, como se não fôssemos filhos da mesma terra. lamentável!
Já tinha minha opção de voto, agora tenho certeza.
E vamos que vamos Marina!


11 comentários:

Pr. Carlos Roberto disse...

Prezada Rô,
A paz do Senhor!

Parabéns pela postagem!
Quanto as considerações de Caetano Veloso e Rita Lee, nem quero comentar.
Assino sua postura!

Um grande abraço!
Seu conservo,

Pr. Carlos Roberto
Um grande abraço!

disse...

Obrigada Pr Carlos!

Cláudio Nunes Horácio disse...

Ah, Rô, seguindo a linha de raciocínio desses dois personagens aí, poderíamos eleger alguma candidata com um sobrenome famoso que fosse quem sabe, miss universo? Tem coisas que fica difícil comentar sem esculhambar.

Adriana disse...

Marineiras com certeza!!

beijos maninha

Eder Barbosa de Melo disse...

Também sou marineiro! Rô valeu a divulgação. Abraços.

Nina disse...

Sem comentário para a postura de Caetano e Rita... Seu texto já dis tudo, parabéns!
Aqui em cada o voto é da Marina! Mulher guerreira, humilde e sobre tudo, humana!

Regina Farias disse...

Pois é, minha amiga!

Taí um texto lúcido que bota no chinelo esses artistas que se acham acima do bem e do mal.

Aliás, fazia tempo que não lia um texto longo sem me cansar ou desistindo antes da metade, justamente porque prende, tem conteúdo, é sério, é corajoso e acima de tudo, pela VERDADE destituída de qualquer apelo emocional.

Ah, e vou aproveitar pra divulgar na minha lista de e-mail e nos meus blogs. É o mínimo que posso fazer e até sugiro a todos que o façam, não silenciemos diante dessa agressividade gratuita travestida de irreverência.

Parabéns ao autor- que já ganhou uma admiradora - a você e a cada um que repudia toda forma de preconceito!!!

bj

R.

João Dórea disse...

Imã Rô,

Tomo as tuas palavra como as minhas!!!

!!!! vamos que vamos Marina!!!!

Alberto Couto Filho disse...

Rô, amada
A paz

Já leu aquele livro?
Gostei da postagem. E quem não gostou?
O Caetano continua a caminhar contra o vento, sem lenço nem documento, berrando pelo berro, pelo aterro, pelo erro, pelo desterro - ele já está pra lá de Marrakech.
A Rita Lee, bem, a Rita Lee - bem que ela podia se apresentar na praça "Djemaa el Fna", lá em Marraquesh e ficar lá pra sempre.
Brincadeiras à parte, tô com a Marina e não abro.
Beleza de postagem!
Deus contigo, comigo, conosco
Alberto

Claudio Silva disse...

Olá Rô! Obrigado por seus comentários no blog que me deixaram muito feliz!
Recebi por e-mail este texto do Ribamar também, mas não o compartilhei mas vejo que você corrigiu minha falha.
Temos uma classe "artística" que já fez história neste pais, embora alguns tenham perdido o rumo estes não refletem a maioria da vanguarda que não se deixou atrelar pelos ditames da estética e do mercado.
Talvez a Sen. Marina encare como um elogio ter cara de fome, pois a identifica com um povo que embora cante que esta deitado em "berço explêndido" na verdade se deita em redes, camas no chão em favelas e casas de capim e barro sem falar dos que não tem nem um teto, asim como nosso Mestre não teve.
Mas nossa cultura é a da imagem, cultuamos a exemplo dos gregos o belo. Tornar vendável e palatável aos olhos é a função dos marqueteiros, principalmente os eleitorais. Basta olhar na nossa recente história eleitoral a eleição do "belo, jovem, inteligente e esportista" de alcunha "Caçador de Marajás" Fernando Collor e deu no que deu.
Talvez por isso Jesus tenha dado tanta importância a essência ao invés da aparência "sepulcros caiados, hipócritas" são as mais famosas expressões de Jesus a denunciar o fascínio das pessoas pela aparência.
Por isso uno minha voz a sua e "vanos que vamos Marina"
Abraço fraterno!!

Paz, graça, entendimento e discernimento te sejam multiplicados, fica na Paz!!
Claudio - Charqueadas - RS

Anselmo Melo disse...

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores...
Esse retrato retrata mesmo na verdade o que pensa nosso povo em relação nao somente aos "Silvas", mais a todos aqueles que pela desgraça de terem nascido aqui ou ali nao tiveram a oportunidade de estudar.
Brilhante o texto,melhor ainda a reflexão que o mesmo nos impõe.
Paz!

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