Subscribe:

29 de janeiro de 2012

Antropologia da amizade



Casal 20

Shrek: Pra sua informação, há mais do se imagina nos ogros.
Burro: Exemplo?
Shrek: Exemplo? Ok… Ah… Nós somos como cebolas.
Burro: Fedem?
Shrek: Sim. Não!
Burro: Oh. Fazem você chorar.
Shrek: Não.
Burro: Oh, deixa eles no sol e eles ficam marrons e soltam aqueles cabelinhos…
Shrek: Não! Camadas! As cebolas têm camadas, os ogros têm camadas. A cebola tem camadas, entendeu? Nós dois temos camadas.
Burro: Oh, vocês dois têm camadas. Oh. Sabe, nem todo mundo gosta de cebolas. Bolo! Todo mundo adora bolo! E tem camadas.
Shrek: Eu não ligo pro que todo mundo gosta! Ogros não são como bolos.
Burro: Sabe do que todo mundo gosta? Pavê! já conheceu alguém que você falasse: “Ei, vamos comer pavê?” e ele dissesse: “Céus, não gosto de pavê”? Pavê é delicioso!
Shrek: Não! Sua besta ambulante de irritação constante! Os ogros são como cebola! Fim da história, bye bye, tchauzinho.”

Do filme Shrek 1



Inevitavelmente, avaliamos o outro pela mesma régua de nossa cultura. Entretanto, nesta trajetória a que chamamos “vida”, as minhas descobertas mais fascinantes nunca se deram propriamente por essa régua (que, indubitavelmente, também carrego na mochila de minhas experiências), mas, antes, minhas mais maravilhosas descobertas se deram pelo que descobri a partir do olhar do outro.


Explico-me. Por exemplo, frequento uma igreja pequenininha de uma cidadezinha do interior do Brasil. Nesta igrejinha, embora de poucos membros, há nela estrangeiros, brasileiros e indígenas. Há pobres e ricos. Há bêbados e sóbrios também. Entre os brasileiros, há os mato-grossenses, goianos e sulistas (pelo menos). Entre os indígenas, há pelo menos três culturas de línguas diferentes. Na cidade, esbarramos sempre com pessoas do mundo todo: franceses, alemães, japoneses (pelo menos). Há indígenas de mais de dez povos de línguas e culturas diferentes passeando pela cidade. Assim, estar com pessoas e comunidades tão diversas da sua própria cultura nativa é uma aventura que se desenvolve em algumas etapas (ou “camadas” nas palavras do Shrek). Vejamos.


A primeira camada dessa cebola, como já disse, é quando descobrimos o outro medindo-o por nós mesmos. Você avalia, enquadra, supõe, inquire o outro pela régua que você trouxe dentro da sua própria bagagem. E é tola presunção iluminista quem não assume isto: que, primeiramente, sempre olhamos o outro com os nossos próprios olhos.



Corta-se um pouco mais a cebola e há a troca, camada mais profunda na construção de qualquer conhecimento sobre o outro. O outro, então, passa a perceber a si mesmo e à própria cultura como algo interessantíssimo, uma vez que ele percebe que há alguém tão interessado nas opiniões e crenças dele acerca de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nesta altura do encontro, revelamos ao outro os detalhes maravilhosos que ele mesmo nunca antes se dera conta sobre si mesmo. Ao nos encontrarmos com alguém, levamos esse alguém a encontrar-se consigo mesmo, esta é a grande e maravilhosa verdade. O mais intrigante nessa segunda etapa é que ela nos coloca diante da próxima camada e é aqui, neste ponto de decisão, que a maioria de nós volta atrás, desiste, fecha-se novamente. É que aquilo que vemos acontecer com o outro acontece conosco também, pois revelar ao outro os detalhes da cultura dele nos chama a atenção para a nossa própria cultura. Assim, encontramo-nos conosco. É uma auto-descoberta. Uma auto-avaliação.



Mas há ainda uma camada mais profunda. É quando o outro passa a avaliar a minha cultura! Então, nos vemos como objetos da pesquisa do outro, do olhar do outro. Poucos se deram a oportunidade de alcançar e saborear este momento de encontro, porque é exatamente neste estágio que ferimos a nossa egocentricidade e nos colocamos à deriva, à mercê do outro. É aqui que, finalmente, entrega-mo-nos e nos deixamos inverter os papéis: o pesquisador-pesquisado, o "olheiro-olhado". A despeito das ferramentas técnicas que o outro não possua, desde a nossa chegada, ele já estava ali nos observando e aprendendo como nos observar também. Todavia, agora, ele somará o que aprendeu do nosso jeito de ver com a sua própria maneira de observar o outro (veja, agora já me apresento como o outro de alguém!). Aqui, e somente aqui, neste encontro entre outros, é que finalmente se dá o ambiente propício para trocarmos nossos corações: a amizade. A amizade é e será sempre só aos que se permitem um ao outro. A amizade é um contrato, um rito, uma promessa, uma aliança, mas, antes de tudo, é a decisão de se expôr ao outro, de ser cortado desde a camada mais superficial até o centro dessa nossa cebola.



Ouso chamar tudo isso que estou escrevendo de antropologia da amizade. É a trajetória persistente do amor e da paixão, sentimentos inevitáveis aos que se permitem “coletar, elicitar, organizar e se analisar” pelo olhar do outro. Evidentemente, sei que tudo isso é uma experiência que poucos, muito poucos, viverão plenamente. A verdadeira amizade é um exercício diário, uma decisão constante, uma perseverança insistida entre um burro e um ogro. Sim, no fim da última camada, a conclusão é que o outro, o amigo, será aquele que me amará sabendo quem verdadeiramente eu sou: burro ou ogro (ou um pouquinho dos dois!). E eu a ele o amarei também, seja ele um burro ou um ogro. Não esquecendo que burros podem ser "uma besta ambulante de irritação constante" e ogros podem ser mesmo, em todos os sentidos, como cebolas. E, sim, cebolas fedem! E, cedo ou tarde, por algum descuido nosso ou simplesmente pelo fato de serem cebolas, é inevitável que nossos amigos nos façam chorar (e nós a eles).



Assim, nesta antropologia da amizade, preciso compreender que descascar cebolas é uma arte e ter amigos burros também. O problema é que somos todos muito impacientes uns com os outros. Vivemos tempos em que o amor de muitos já se esfria. Mas, como eu disse acima, fugimos do outro, porque não queremos nos encontrar com nós mesmos. Contudo, ainda há uns poucos que ficam e que insistem em nos ver umas duas ou três camadas a mais por dentro. Acho que é a estes que o tempo, enfim, nos leva a chamar de amigos.


Casal 20

18 comentários:

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

"Um ao outro AJUDOU..e ao seu companheiro(amigo) disse:ESFORÇA-TE."

Lindo!

Quando compreendemos aos amigos...compreendemos a nós mesmos.
FICA COM DEUS amigo!

disse...

Que texto lindo Fabio. Eu quero me encontrar no outro. Quero chegar na mais profunda camada. E amá-lo do jeIto que ele é. E descobrir que posso ser como cebola as vezes. Que posso fazer o outro chorar como ele também me faz chorar, mas quero me encontrar no outro. Amizade é isso. Meu Deus, estou emocionada aqui lendo seu texto!
Paz!

Cláudio Nunes Horácio disse...

Fábio, que texto maravilhoso. Obrigado por compartilhar. Paz e bem.

Geovani Figueiredo dos Santos disse...

Graça e paz.

É nas interrelação dos indivíduos que se dá a compreensão da importância da alteridade. Se somos isolacionistas ou se temos a mania de filtrar nossas relações por puro preconceito ou por acharmos o próximo inferior a nós,estamos na contramão da Palavra. Precisamos valorizar as interrelações sociais como instrumento de autoconhecimento e de comunhão com irmãos de vários matizes sociais e culturais. "Ninguém busque o seu proveito próprio, mas cada um o que é de outrem" (I Co 10.24). Não somos uma ilha,precisamos uns dos outros. Celebremos, portanto, as diferenças como oportunidades de revelarmos nosso verdadeiro amor cristão. Parabéns pelo artigo!

Casal 20 disse...

Olá, queridos! Muito bom estar de volta e poder compartilhar com todos.

Abraços sempre muito afetuosos.

helena disse...

Mas que texto interessante. Olha, eu nem sei o que dizer, fiquei pensando nas camadas, é imprecionante como as vezes só queremos nos aproximar de pessoas que tem gosto ou senso de humor comum ao nosso( afinidade), mas não exercitamos outros sentimentos como carinho, afeição, compreensão, estima ... e assim não conhecemos as camadas mais profundas.
Gostei muito desse texto! abraços afetuosos aos meus amigos casal 20.

helena disse...

desculpem o impressionante com C kkk ...

Irismar Oliveira disse...

Belo texto também acredito que A verdadeira amizade é um exercício diário que exige perseverança dos dois e isso é pagar preço. Quando há a disposição entre pessoas, elas desfrutam da verdadeira amizade não por serem perfeito mais porque aprendeu o segredo da amizade!

UM bom FDS

disse...

Helena tu é uma benção. rss

Cacá - José Cláudio disse...

Partilhar cotidianamente esta experiência com o outro é que enobrece as nossas camadas interiores. É na troca amistosa, respeitosa e afável (principalmente) que eu acho que nos realizamos mais humanamente. Lindo, lindo o texto. Meu abraço. Paz e bem.

disse...

Olá Cacá, que bom ter ter aqui conosco. Paz!

mulherices disse...

Infelizmente, me falta tempo suficiente para poder acompanhar esse blog com a frequência que ele merece.

Já me deparei com muita coisa boa neste mundão online de meu Deus... mas textos tão bons e inteligentes quanto esse aqui em cima são raros.

Forte abraço
De sua fã, Lilian Buzzetto, do Mulherices.

[Dê um pulo lá, se tiver um tempinho!]

Casal 20 disse...

Cacá, grande escritor! Alegria ver-te por aqui, meu amigo!

Mais uma vez, sábias palavras as tuas.

Abraços sempre afetuosos.

Casal 20 disse...

Lilian! Há quanto tempo (estávamos fora por mais de um mês). Também sou grande fã da tua escrita ácida e direta.

Muito obrigado pelas palavras carinhosas.

Mais tarde passo lá na tua casa!

Abraços sempre muito afetuosos.

Irismar Oliveira disse...

OI casal 20 que bom receber sua visita, seja sempre bem-vindo, pois é quando li teu artigo lembrei do pensamento que tinha postado só que terminei não colocando, gostei muito do seu texto.

Muito obrigada e um bom FDS.

Casal 20 disse...

Rô, minha amiga, tua leitura e feed-back são sempre muito especiais para mim. Cresço muito com a nossa amizade. Gostamos muito do teu blog e, como diz a Lu, aqui é o espaço que temos para nos manter bem informados!

Obrigado pelas tuas palavras carinhosas e, mais uma vez: é bom demais estar de volta aqui na tua casa. Casa que, com tanta confiança, abriste para nós.

Abraços sempre muito afetuosos, minha amiga.

disse...

E amo você e sua família em Cristo Jesus meu irmão. Vocês são especiais demais pra mim. Obrigada mais uma vez por sua fidelidade e amizade. Paz queridos!

Aclim disse...

Bom querida amiga, em primeiro lugar não existe ninguem burro existem pessoas desinformadas. Segundo o amor é a base de qualquer relacionamento. E terceiro como disse o grande Apóstolo Paulo "Se possível for tendes paz com todos", existem alguns que não dá.

Abraço e paz

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...