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15 de agosto de 2011

E se você rir ao ouvir a minha história triste?


Lembro de ter cursado uma disciplina sobre humor, chistes e piadas há muito tempo na UNB. Discutia-se a partir da leitura textos de um dramaturgo (que não me lembro mais quem era) e de uma obra de Freud sobre esse tema. O ponto do curso era exatamente este: “o que nos faz rir? O que nos faz rir do outro e de nós mesmos?” Porque, embora pareça que o humor seja algo universal (e é!), certamente ele está condicionado às culturas específicas de cada povo mundo à fora. Assim, pode ser que algo que faça alguém chorar aqui no Brasil seja ridículo noutra cultura e vice-versa. E mesmo dentro de uma mesma cultura, há uma série de elementos objetivos e subjetivos, que podem fazer com que as pessoas reajam de maneira diferente umas das outras em relação à alguma piada, provocação ou sátira. Por exemplo, a imagem que abre este post é uma boa maneira de vermos como o humor é algo muito mais complexo do que podemos imaginar. A fonte da piada na imagem acima é uma tragédia para milhares de famílias que foram atingidas naquele 11 de setembro. Para mim, portanto, é uma piada de péssimo gosto (ainda que se queira justificá-la pelo fato dela se encontrar na categoria de "humor negro").

No livro chamado “Totem da Paz”, Don Richardson narra sobre um povo da Papua Nova-Guiné que fora apresentado ao Evangelho na língua materna deles. Um povo que nunca antes ouvira falar das histórias de Jesus. Don Richardson se empenhou para fazer o seu melhor na arte de contação das histórias do Evangelho. O povo ouviu atento e compreendeu todas as palavras na sua própria língua. Contudo, ao fim de tudo, o inesperado aconteceu. Após a morte de Jesus na Cruz o povo revela o grande herói do Evangelho: Judas Iscariotes! Eles se maravilharam com a sagacidade e inteligência daquele que tão bem enganara o seu melhor amigo! Daqui, dessa situação vivida por Don Richardson, surge um humor involuntário.

Mas não foi só na Papua Nova-Guiné que a mensagem do Evangelho se viu distorcida. Quem já viu o filme “A última tentação de Cristo” (Martin Scorcese) sabe bem do que eu estou falando. Ora, quem é o grande herói naquele filme? Quem, no filme, está totalmente consciente da missão de Jesus, enquanto o próprio Jesus se apresenta como um tolo, um fraco, titubeando entre o que deve e o que não deve fazer? O grande herói no filme de Scorcese é Judas Iscariotes, que impulsiona, motiva, impele Jesus à missão que era seu destino. Ao contrário daquele povo de Papua Nova-Guiné, Scorcese está muito bem consciente do que está fazendo. Sua teologia é imoral e confrontadora. O humor de Scorcese nasce do escândalo, do escracho, do deboche caricatural. Scorcese vive numa cultura que, historicamente, já possui referências suficientemente assentadas contra as quais ele pode se insurgir. O humor dele, portanto, é de natureza semelhante ao da imagem que abre este post. Ver o Jesus de Scorcese apanhando na cabeça pelas "mãos proféticas" de Judas Iscariotes é puro acinte.




Don Richardson
Já aquele povo apresentado por Don Richardson não tinha referência alguma sobre cristianismo e, por isso mesmo, não estava contestando, afrontando ou zombando do Evangelho. Eles estavam interpretando a história usando a única referência que dispunham para que aquela narrativa fizesse sentido para eles: a referência de sua própria cultura. E na cultura deles, veja só, o herói era quem melhor soubesse enganar o outro, conquistando a amizade e depois inferindo a traição pacientemente planejada, que levaria o amigo à morte numa armadilha fatal! Quanto mais amigo você fosse do traído mais ovacionado naquela cultura você seria!

Perceba a seriedade da evangelização que cabe à Igreja nesta reta final antes do retorno de Jesus. Podemos falar a mesma língua, contar a história nos utilizando de todos os detalhes linguísticos e gestuais, podemos até mesmo nos valer de recursos áudio-visuais, mas, ainda assim, podemos fazer o outro rir quando a nossa intenção era exatamente o contrário. Imagine a cena: a notícia da morte de Jesus trazendo alegria (não por ter ela significado o perdão dos nossos pecados), mas porque era o triunfo final de Judas Iscariotes, o esperto!

Escrevo tudo isso para mostrar que precisamos estar preparados para ensinar aquilo que pregamos. O IDE de Jesus só é completo se, indo, ensinarmos tudo o que nos foi ensinado! Não podemos simplesmente deixar narrativas, livros, histórias, filmes e músicas (ainda que na própria língua do povo-alvo ou num estilo musical culturalmente agradável ao ouvinte), se não investirmos também o tempo necessário para que todo o conselho de Deus encontre as referências necessárias dentro do coração do outro. Evangelizar é semear, adubar, regar, proteger, cuidar, etc, etc. Evangelizar é, neste sentido, andar uma vida com alguém!

Paciente leitor, um último exemplo. Eu conheço um povo indígena do Brasil que se reúne tradicionalmente para ouvir dois tipos de histórias bem diferentes. O primeiro tipo são histórias sobre as origens, aquelas que contam sobre o início de todas as coisas, sobre os “patriarcas” do povo e, por isso mesmo, são de natureza séria, respeitosa, reverente: são as narrativas dos chefes, dos velhos, dos antepassados, enfim, são narrativas verdadeiras. Agora, o outro grupo de narrativas é aquele que conta histórias irreverentes, histórias de não-verdade, em que o humor, a graça e o riso surgem de situações em que se quebram as regras, se quebram os tabus do povo, acontecem as traições, os casos de infidelidade, os castigos e punições... Percebeu o problema cultural em contarmos sobre a narrativa bíblica da Queda numa cultura assim? O ouvinte vai achar bom, vai achar graça na punição, vai dizer “bem feito” e ainda rir, contudo a percepção da gravidade do que está acontecendo na história pode não ocorrer, porque é uma história que, dentro da cultura deles, apresenta características típicas de “narrativas de não-verdade”. Serão, portanto, apenas histórias para divertir, narrativas de entretenimento. Estas histórias de não-verdade são aquelas em que um engana o outro, mente, passa para trás, deita com a mulher do melhor amigo, etc. Agora, para povos assim, como serão recebidas as histórias de Abraão e Davi? Certamente, à semelhança do povo de Papua Nova-Guiné, essas narrativas serão também compreendidas à luz da própria cultura. Serão ouvidas como histórias de não-verdade e serão assimiladas culturalmente como entretenimento, mas não como ensinamento, aviso, profecia. Enfim, o aspecto moral das narrativas é escoado na vala da própria cultura. Então, o que fazer quando a minha história triste faz o outro rir (ou vice-versa)?

Bem, Don Richardson abandonou tudo o que vinha fazendo até então e procurou um outro caminho, uma chave, um “abridor de olhos” dentro da cultura daquele povo em Papua Nova-Guiné. Um ponto de referência dentro da cultura deles que pudesse fazer algum contato que possibilitasse a compreensão do Evangelho. E, pela Graça de Deus, ele encontrou um ponto de contato e, finalmente, o Evangelho fez sentido para aquele povo (não vou contar, leia o livro, é muitíssimo interessante). Contudo, esta “referência” pode não existir em todas as culturas ou já estar tão contaminada pelo pecado que seja simplesmente impossível usá-la. Ainda assim, seja qual for o ponto de contato encontrado, nada melhor do que o velho e bíblico método de andar junto com o povo, andar ao lado do outro e torná-lo meu próximo. Observá-lo, conhecê-lo, sentar, ensinar e aprender com ele também. Enfim, é preciso orar e aguardar que a nossa responsabilidade em querer fazer a coisa certa, mais cedo ou mais tarde, seja recompensada com o derramar do Espírito Santo que fará germinar a semente que com todo amor, zelo e carinho saímos a semear.


Casal 20

16 comentários:

Cláudio Nunes Horácio disse...

Fábio: Esta abordagem que você fez no post são fundamentais e essenciais. Todos nós precisamos saber disto. Obrigado pela edificação. Graça e paz.

disse...

Fabio, creio que temos que fazer como Paulo que chegava em uma cidade e primeiro estudava o costume daquele povo para depois pregar o que aquele povo precisava ouvir no momento, ele estudava a área, os costumes, qual deuses eles serviam para depois lançar o Evangelho. Não é de qualquer maneira. Assim eu creio, pois o que é importante para mim, pode ser motivo de riso ou fantasia para o outros!
E Deus sempre abre o entendimento de quem leva a semente. Assim foi com Don Richardson que encontrou uma chave, um caminho dentro da cultura daquele povo. Muito bom seu artigo. Paz!

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

GRANDIOSA PALAVRA...

"Abridor de Olhos”
SENHOR! nos faça ver além dos olhos...que a nossa alma aflore a SALVAÇÃO.

Como é triste vermos o EVANGELHO sendo anunciado não conforme os ensinamentos,à PALAVRA de DEUS mas...conforme o querer do HOMEM.
Interpretação humana.Vaso sem óleo,alabastro sem perfume, rio sem água,maná falso,jóio,construção sem base,cisternas rotas,sepulcros caiados,cheio.Prisão sem libertação,umbrais das portas sem o SANGUE,véu que não se rasgou,cruz que ainda contém o MESTRE....triste.
Não vamos deixar as pedras clamarem...saiamos ao campo levando o verdadeiro CAMINHO, a verdadeira PALAVRA...JESUS.
Fábio...As tuas palavras nos alertam amigo...meu coração dói por tão grande verdade.ONDE ESTAMOS QUE NÃO ESTAMOS FAZENDO A DIFERENÇA??!!
NÃO VAMOS DEIXAR O POVO SER ENGANADO.
DEUS EM NÓS....ESPERANÇA DA GLÓRIA.

Samuel disse...

Amém!! "É preciso orar e aguardar que a nossa responsabilidade em querer fazer a coisa certa (...) seja recompensada com o derramar do Espírito Santo que fará germinar a semente". Que seja assim no ministério de cada um de nós. Obrigado pela mensagem, Fábio. Um grande abraço!

Adriano César Curado disse...

Nem sempre as pessoas riem porque acham graça. Às vezes o riso é usado como arma do sarcasmo. E isso é ótimo, pois nos permite aperfeiçoar o mecanismo do perdão e assim evoluir espiritualmente. Afinal, estamos cá neste mundo para isso. Parabéns pelas postagem.

Casal 20 disse...

Eh, Rô, mas este teu blog está virando um encontro de amigos muito queridos: você, Cláudio, Clélia, Samuel... e tantos outros que acabo sempre encontrando por aqui.

Teu Blog é uma Benção!

Abraços sempre muito afetuosos em todos!

disse...

Verdade Adriano e vamos em frente levando a semente. Paz!

Reflexões Bíblicas - Duarte Rego disse...

Paz Rô!
Belíssimo texto. Na verdade é necessário contextualizar a mensagem do Evangelho sem o deturpar. Este equilíbrio é deveras fundamental para a salvação, contudo torna-se por vezes difícil de o manter.
Lembro-me de uma história de alguém que foi fazer missão para ul lugar onde havia esquimós e ao apresentar Jesus como o pão da vida eles não compreenderam a importância pois não sabiam o que pão era. Então o missionário trocou pão por salmão. E aí sim, como Jesus se tornou maravilhoso, delicioso e necessário para aquele povo(rsrs)

Desculpe o espaço. Um forte abraço.

P.S.: Se alguém conhecer mais informações sobre esta história deixe aqui. Gostava de saber sua origem.

helena disse...

Legal isso! muito interessante!
tem pessoas que riem do que é diferente mesmo! esse assunto é muito importante.
Abraços afetosos a todos.

jlcolli disse...

Gostei do post do C20, e dos seu motivo e "não-motivo" para estar na blogosfera.

Joab Barros

。♥ Smareis ♥。 disse...

Belíssimo texto mana.Concordo plenamente com o texto.É preciso orar e aguardar que a nossa responsabilidade em querer fazer a coisa certa, mais cedo ou mais tarde, seja recompensada com o derramar do Espírito Santo que fará germinar a semente que com todo amor, zelo e carinho saímos a semear.Desejo um ótimo final de semana cheio de muitas coisas abençoadas e muito feliz.
Beijos !
Smareis

Pr. Carlos Roberto disse...

Prezada Rô,
Grato pela visita lá no Point Rhema, bem como as felicitações do Dia dos Pais. Você tem sido uma amiga. Deus te abençoe!

Paz!

Cacá - José Cláudio disse...

Esta "caminhada" simbólica junto com o outro para só depois plantar semente me remeteu ao que o Tzvetan Todorov desenvolveu sobre o conceito de alteridade no livro A Conquista da América, quando os europeus (especialmente espanhóis) aqui chegaram, introduziram à força uma evangelização, destruíram cultural e fisicamente os indígenas. É um paralelo muitíssimo interessante a se fazer com esse texto. Abraços e parabéns pela bela abordagem.

Amana disse...

isso me lembrou que eu nunca entendo pq as pessoas gostam tanto de videocassetadas! nunca achei graça em ver gente caindo, nem metendo a cara em torta! vot! é o cúmulo da sem gracice!

Aclim disse...

Judas não enganou Jesus, todo o tempo Jesus sabia que iria ser traído ele se entregou por nós.

Quem faz a obra é o espírito Santo, nós apenas divulgamos o evangelho; "Quem quiser, ouça o que o Espírito, diz as igrejas"

Tenho certeza que vc não vai publicar meu comentário se publicar seus amigos vão falar um monte exatamente como fazem os que vcs criticam.

Paz irmão

disse...

Seu comentário esta aí. Porque não publicaria? Todos tem direito de se expressar, apesar de se esconder atrás de uma fake e muita gente não dá crédito a fake. Mas ainda sim, tu sabe defender os lobos muito bem como já defendeu em outros artigos. Mas é um direito seu como de todos de se expressar. Mas dou-lhe um conselho, coloque sua foto verdadeira no teu perfil é melhor, terás mais credibilidade. Os cristão verdadeiros não precisam se esconder atrás de um fake. Aclim você é uma como tantos que passam por aqui e deixam sua opinião, portanto esta aí seu comentário. Fica a vontade!! Paz!!

Aliás, todo comentário seu publicarei ok.

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