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1 de setembro de 2011

Fora da gaiola mental – uma conversa com o sociólogo Demétrio Magnoli sobre sua nova obra, Liberdade versus Igualdade...

Por que apresentar no "Mulheres Sábias" o livro “O mundo em desordem”?Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueista Esquerda versusDireita.

E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nemparticipamos das discussões, porque “política e igreja não semisturam”. E assim desperdiçamos a grande oportunidade de nãosermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até porque nãopercebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas suas estruturasmais profundas.

O maniqueismo esquerda-direita, gaiola de dentro da qual muitosdiscutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questõesfilosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdadeversus Igualdade - eixo central do livro que apresento hoje aqui.

E é impossível – sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) –o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, vejabem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus. Por isso mesmo,não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados comocarga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora econciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana em Cristo Jesus!

A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o estado ou um sistema teológico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra aliberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!

Falo, portanto, da solidariedade em Cristo e por Cristo! - pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!

Talvez eu nem precisasse estar escrevendo esta longa introdução àentrevista do autor dada na Revista Veja ao Reinaldo Azevedo,contudo, aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria deindicar o livro e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a simesmo e principalmente ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de EscolaDominical da sua Igreja e - por que não? - ao professor de história doseu filho na escola ou na faculdade.

É com carinho e com expectativa de bençãos sobre nossas vidaspessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine SiseBarbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História - e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã - fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.

Segue abaixo a entrevista dada na edição do dia 24 de agosto de2011, páginas 136-137. Abraços sempre afetuosos do Casal 20.

Acaba de chegar às livrarias o volume 1 de Liberdade versusIgualdade, com o subtítulo Omundo em desordem, 1914-1945(Record; 458 páginas; 46, 90 reais), escrito pelo sociólogoDemétrio Magnoli e pela historiadora Elaine Senise Barbosa. O volume2 – O Leviatãdesafiado, 1945-2001 –sai ano que vem. Trata-se de um compêndio de história como qualqueroutro, mas diferente de todos os outros. Os autores leram osepisódios e conflitos importantes da primeira metade do século XXatravés da lente do confronto entre o discurso da igualdade, quemarcou o socialismo e o fascismo, e o da liberdade individual, basedo liberalismo. É um trabalho rigoroso, que liberta os fatos dagaiola mental dos manuais submarxistas que costumam orientar ahistoriografia, sem se perder, enfatize-se, no proselitismo. Entresuas muitas qualidades, está a preocupação com o leitor. O livroserá útil a estudantes, professores e a quantos queiram saber maissobre o mundo. Com liberdade. Segue uma conversa com Magnoli.

Dá-se por certo que a luta por igualdade tem raiz na esquerda. Aluta por liberdade, então, tem uma matiz liberal, de direita? Sim.O termo “direita” foi envenenado pelos fascismos e pelo nazismo,que eram anticomunistas, mas, também, visceralmente,antiliberais. O “partido dos liberais” conduziu as revoluçõesantimonárquicas de 1848 na Europa. Os “pais” da economianeoclássica – os austríacos Mises, Hayek e Schumpter –experimentaram a tragédia que se abateu sobre o seu país no períodoentre guerras: um governo socialista em Viena, o golpe reacionáriode 1934, a invasão nazista subsequente, que os forçou ao exílio.Extraíram a convicção de que as liberdades só poderiam ser salvasse a economia ficasse fora do alcance do estado. Eis o pilardoutrinário da direita liberal.

O livro mostra a aversão que os socialistas tinham à democracia,repulsa compartilhada pelos vários fascismos. O que explica asobrevivência ideológica do socialismo, ainda que como promessa deum passado derrotado? NaRevolução Russa, o socialismo se dividiu em correntes conflitantes.A social-democracia rompeu com os comunistas precisamente em torno dotema da liberdade. Dessa ruptura nasceram os atuais partidossocial-democratas, que tentam conciliar o programa da igualdade com oda liberdade. O socialismo soviético sofreu uma derrota fragorosa,definitiva, em 1989. Mas uma entranhada rejeição à liberdadesobrevive em franjas da esquerda, assim como na extrema-direitaultranacionalista. O traço que os une é a aversão aoindividualismo e ao cosmopolitismo.

Analistas de diversas tendências afirmam que o democrata FranklinRoosevelt, o presidente que conduziu os Estados Unidos durante adepressão dos anos 30 e que está numa espécie de panteão dosheróis, era autoritário e tinha um viés fascista. Seu livrodesqualifica essa crítica como coisa do “fanatismo ideológico”.Roosevelt faz parte de um tempomarcado pela Grande Depressão, de profunda desconfiança no livremercado. A crença nas virtudes do estado tecia conexões entregovernos democráticos e fascistas, mas sem eliminar as diferençasde fundo entre eles. Roosevelt nunca abandonou o campo dasdemocracias. As raízes do seu pensamento devem ser buscadas natradição populista americana, da “democracia jacksoniana”, nãonos ultranacionalismos europeus. As coisas são complexas: osrepublicanos americanos, liberais no sentido europeu do termo, tendemao isolacionismo; Roosevelt enfrentou-os para conduzir os EUA àguerra contra o nazifascismo.

Em seu livro, fica evidentea farsa comunista segundo a qual Stalin fez o pacto comHitler porque, sendo hostilizado pelas potências liberais, precisavaganhar tempo para a guerra. Esse pacto não revela como a esquerda éa matriz comum do socialismo e do fascismo? Mussolini, antes de serlíder fascista, era socialista e editava um jornal La lotta diClasse. Mussolini, de fato,começou sua carreira na esquerda socialista. Ele formulou o fascismoitaliano sobre a base doutrinária do corporativismo, cujas origensderivavam da aversão da esquerda ao individualismo. O fascismocompartilha com o socialismo a opção pela igualdade em detrimentoda liberdade. Mas há uma diferença crucial: para os socialistas,trata-se da igualdade de classes sociais; para os fascistas, daigualdade dos nacionais, contra os “estrangeiros”. O pacto de1939 entre Stalin e Hitler evidencia, antes de tudo, o alinhamento deinteresses geopolíticos entre a União Soviética e a Alemanha.Stalin e Hitler temiam um ao outro, mas também nutriam mútuaadmiração, pois reconheciam que tinham uma vértebra ideológicacomum.

A tensão entre liberdade e igualdade criou “o mundo emdesordem”, entre 1914 - 1945. Que mundo veio depois, a ser tratadono segundo volume? Qual é o saldo desse confronto? Opós-guerra é o tempo da reconstrução dos estados, da ascensão dasocial-democracia, da derrota do comunismo e da contestação liberalao Leviatã, ou o estado absoluto. O confronto entre os princípiosda liberdade e da igualdade abrange múltiplas hipóteses deconciliação. O jogo, eu diria, está empatado. A moeda gira no ar.


11 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Legal...vou dar uma olhadinha nessa obra.

Abraço

disse...

Muito Bom Fabio. Adorei!

Maria Alice Cerqueira disse...

Querida Amiga
Abraço amigo de muito boa tarde!
Hoje vim falar desta palavrinha magica que é a amizade;
Amizade é um laço fraterno que vai se conquistando pouco a pouco.
Amizade é um elo de Amor que vai se fortalecendo dia apôs dia.
Amizade requer uma sabedoria toda própria, para que ela cresça e amadureça.
Amizade é um sentimento de Amor que é perseverante nela mesma.
O que seria de nós sem este elo de Amor!
A amizade
Abraço amigo
Maria Alice

Mulher de Deus disse...

Oi mana! que texto bom pra ser explorado, gostei d++, mas ao falar de liberdade e igualdade, nunca devemos esquecer de um terceiro elemento chamado fraternidade que é a peça que equibra essa balança! Muito legal esse post, abraços aos amigos Casal 20,que sempre nos trazem bons assuntos para ler-mos.

Casal 20 disse...

Rô e Helena, sigamos salgando!

Abraços sempre MUITO afetuosos.

manuel marques disse...

Grato pela partilha.

Beijo e bom fim de semana.

Samuel disse...

Parabéns pela indicação, Rô. O Demétrio Magnoli sempre surpreende pela sua clareza na exposição de suas ideias.

Donizete disse...

Ok! Vou conhecer o tanto o escritor como sua obra!

Bom fim de semana!

Adriano César Curado disse...

Fiquei tentado a conhecer essa obra, parece muito interessante. Bom fim de semana, amiga.

Pr. Jonas Silva disse...

Muito boa a dica Rô, estarei adquirindo a obra. Valeu!!!!!

Suely Rezende disse...

Olá Rô,

Sempre compartilhando e indicando boas literaturas.

beijos
Su

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