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25 de novembro de 2011

Por que, eventualmente, acredito no Papa Bento XVI?


Penúltimo artigo desta nossa série em que estamos comemorando o aniversário de 1 ano do nosso blog pró-família, publicando artigos escritos por nós e que foram muito importantes na nossa formação, porque foram textos escritos na ebulição de ideias que nos apaixonam. 

Abraços sempre afetuosos. Casal 20.
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Quantas vezes entrávamos na capela dos orionitas para nos curvar diante da presença do sagrado naquele lugar? Mas não naquela manhã de outubro. Estávamos ali há quase 10 horas e, à medida que se arrastavam os minutos, estes iam diluindo o sagrado que eu julgava haver ali. Por fim, alguém trouxe o rádio que usávamos em nossas devocionais e o colocou ali para tocar "a mais bonita das noites" de Chitãozinho e Xororó, sucesso nacional daquela época.

Chegou a minha vez de subir com os padres. Todas as portas dos armários dos meus colegas de quarto estavam abertas e todas as roupas e pertences deles jogados bem no meio do quarto. Pegaram meus livros, cadernos e roupas e os jogaram junto às outras coisas que já estavam no chão. Eles estavam procurando alguma coisa, eu sei. A secretaria do seminário havia sido roubada e certamente um de nós seria o ladrão. Estavam procurando pelo dinheiro… Não! Soubemos depois que eles já sabiam qual seminarista havia roubado o dinheiro, mas eles aproveitaram a oportunidade para nos devassar, descobrir sujeiras, fotos, revistas, outras possíveis perversidades juvenis que poderíamos esconder deles. Voltei à capela. Abaixei a cabeça. Fechei os olhos… o sagrado morria para mim naquele dia.

Depois daquela experiência da morte do sagrado, muitos foram embora do Seminário. Eu ainda tentei insistir num outro ano, mas o rasgo havia sido feito: a experiência do sagrado já era morta. E se pudesse tentar explicar o que considero a mais importante diferença entre Barth e Tillich diria que este avançou sobre essa ideia da experiência do Sagrado Universal como revelação salvífica, enquanto Barth permaneceu compreendendo que o Cristianismo é o único detentor da revelação especial. Para Tillich, o caminho natural das religiões mostrava nelas a revelação salvífica de Deus, enquanto para Barth existia a cisão entre a verdadeira religião e as falsas religiões, ou melhor, entre revelação e religião. Todas as religiões possuem a experiência do sagrado (Tillich, Rahner, etc), mas somente no Cristianismo é possível a experiência da fé (Barth). Assim, naquele dia na capela, o que morria em mim era a experiência do sagrado, já que ainda não conhecia a experiência da fé.

Ao ler a reportagem da Revista Ultimato, cujo título é “A coragem de dizer aos que querem mudanças na igreja que eles, eventualmente, têm razão”, percebi por que Bento XVI (colega de Karl Barth na juventude) continua a achar que homens como Pedro Casaldáglia, Hans Küng e Frei Betto não têm razão. Estes compactuam tão somente do pluralismo da experiência do sagrado e não da experiência da fé revelacional e salvífica em Cristo Jesus. Eles fazem do Cristianismo apenas um espaço para a manifestação dos deuses de seus ventres. É claro que Bento XVI nunca achará que eles têm razão. É evidente também que acusarão Bento XVI de retrógrado. A discussão sobre o casamento dos padres é fachada para esses homens. O assunto do fim do celibato é apenas uma desculpa de apelo populista, porque o que eles querem mesmo é o nivelamento do cristianismo com todas as demais religiões. O que resultará numa grande apoteose de um panenteísmo universal (Tillich, Boff).

Pedro Casaldáliga é a favor das invasões de terra e da luta armada, compôs poema para elogiar Che Guevara, um terrorista e comunista. Bento XVI não vai ser contraditório com Pio XI. Este condenou o comunismo (Divini Redemptoris) dizendo que o sistema marxista era "intrinsecamente mau". Este mesmo Papa declarou ainda que ninguém poderia ser verdadeiro católico e verdadeiro socialista.

Frei Betto participa do mesmo ambiente de Pedro Casaldáliga e se coloca como amigo de Fidel Castro, o ditador cubano. Em seu texto “Raízes éticas da minha esperança”, Frei Betto confessa a quem ainda tenha dúvidas de suas aspirações: “Experimentei muitas derrotas: a morte de Che na Bolívia, o fracasso dos grupos armados contra a ditadura militar brasileira, o terror da Revolução Cultural chinesa, a falência da Revolução Sandinista, acrescida de casos escabrosos de corrupção, a queda do Muro de Berlim, o fim do eurocomunismo”.

Hans Küng, outro personagem controverso citado na reportagem da Ultimato, é um teólogo liberal que não crê na ressurreição literal de Jesus. Bem, como o comunismo também não crê, é louvável pensar que nem Frei Betto e nem Casaldáliga creiam também, se juntando ao também já declarado descrente Leonardo Boff.

Por tudo isso, digo mais uma vez que homens como esses não estão interessados que padres casem ou não. Não estão interessados em questões como paz, amor, fraternidade, embora estas palavras abundem em seus textos. Eles tão somente erguem essas bandeiras por crerem que elas terão um apelo mais popular. O que está por trás deles é o fim do cristianismo bíblico e da salvação somente em Jesus. Karl Barth percebe este desenvolvimento da Teologia Natural nas teologias modernas e pós-modernas e reage teologicamente: “a possibilidade do conhecimento de Deus encontra-se na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar” e “o Deus eterno deve ser conhecido em Jesus Cristo e não em outro lugar.” Tillich cria que haveria revelação salvífica em outras religiões. Barth não. Frei Betto já expressou sua fé no socialismo. Bento XVI não. 

Assim, quando se juntam pessoas de interesses tão diversos (e excludentes) debaixo de um único guarda-chuva: descrentes comunistas, descrentes liberais, padres que querem casar, Reformadores do século 16, Concílio Vaticano II e até Simonton, o missionário presbiteriano que trouxe sua Denominação ao Brasil, acaba-se por nivelar por baixo causas nobres juntamente com aquelas causas escusas. Sem falar que colocar Frei Betto, Casaldáliga e Hans Küng ao lado dos Reformadores do Século 16 e de Simonton é dar aqueles uma envergadura teológica e moral que jamais tiveram. Finalmente, desenha-se uma caricatura de Bento XVI e o coloca isolado de um lado, enquanto do outro estariam “os heróis da resistência”. Mas isto não é cristianismo, é maniqueísmo. E apresentar ao leitor estas controvérsias de modo tão parcial é ruinoso para a Cristandade. É isto o que faz a reportagem da Revista evangélica Ultimato, uma revista fundada por um pastor presbiteriano. É neste contexto, portanto, que afirmo que, certamente, Bento XVI tem discernimento e coragem de dizer NÃO às verdadeiras intenções dos seus inquisidores que o acusam de reacionário.

Título original deste post:  
"A coragem de Bento XVI em dizer...                                                                                           ... eventualmente, não!"

Leia, também, os outros posts desta série:

Teologia Negra?! (ou "Onde nascem os discursos equivocados")
Deus é pobre?!
A mui piedosa esquerda cristã?!                                                                                              E o que é que eu tenho com isso?!


13 comentários:

Aiman disse...

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Celina Silva Pereira disse...

Prezada Rô,
parabenizo-a pelo primeiro aniversário de seu blog e pela afirmação fundamental que você associa ao seu trabalho:
"A minha consciência está algemada à Palavra de Deus"
(Lutero)
Um abraço da
Celina

disse...

Obrigada Celina. Mas o Niver é do Blog do (Casal 20), mas obrigada pela gentileza referindo-se ao meu blog. Bjs querida!

disse...

Triste é saber que tem crente que admira o panenteísmo universal de (Tillich, Boff)..

Por isso Edu adora Tillich ele diz que Deus esta em toda as religiões, sabe e tenho visto muitos crentes gente boa de Deus se deixando levar por esta visão de Tillich que Edu anda pregando na Blogosfera rsss. O Edu fez um Blog que lá se reúne o Ecumenismo. rss Só a graxa! Muito bom o artigo Fabio como sempre!

Juber Donizete Gonçalves disse...

Rô,

Parabéns pelo aniversário do blog casal 20! O Bento XVI é considerado o maior teólogo católico vivo hoje. Apesar de não ser tão midiático quanto seu antecessor tem conseguido alguns feitos como o retorno de alguns anglicanos à Igreja Católica. Quanto ao Leonardo Boff, apesar de ter minhas reservas contra a Teologia da Libertação, gosto de dois livros que ele escreveu: Jesus Cristo Libertador e Igreja, Carisma e Poder. Nos últimos anos, o Boff, no entanto tem partido mais para uma linha estilo Nova Era, incorporando em seu discurso conceitos budistas e hinduístas, o que é um perigo.

Abraço.

disse...

Oi Juber, bom te ver aqui. Bom, não gosto da Teologia da libertação e muito menos de Boff que não crê na na ressurreição de Cristo, Frei Beto e também não gosto de Tillich, sua teologia sistemática é triste.

Paz!

Otoniel M. de Oliveira disse...

Parabéns pelo texto e pelo aniversário do blog pró família. Bom saber que o Papa foi colega de Karl Barth na juventude, isso me faz compreender algumas posições teológicas do Papa Bento. Quero frisar aqui, o fato das afirmações contidas no texto que são reveladoras: "Depois daquela experiência da morte do sagrado, muitos foram embora do Seminário. Eu ainda tentei insistir num outro ano, mas o rasgo havia sido feito: a experiência do sagrado já era morta. E se pudesse tentar explicar o que considero a mais importante diferença entre Barth e Tillich diria que este avançou sobre essa ideia da experiência do Sagrado Universal como revelação salvífica, enquanto Barth permaneceu compreendendo que o Cristianismo é o único detentor da revelação especial. Para Tillich, o caminho natural das religiões mostrava nelas a revelação salvífica de Deus, enquanto para Barth existia a cisão entre a verdadeira religião e as falsas religiões, ou melhor, entre revelação e religião. Todas as religiões possuem a experiência do sagrado (Tillich, Rahner, etc), mas somente no Cristianismo é possível a experiência da fé (Barth). Assim, naquele dia na capela, o que morria em mim era a experiência do sagrado, já que ainda não conhecia a experiência da fé." Esse comentário mostra a efervescência teológica motivada por recentes aberturas filosóficas no mundo católico-cristão, e nos faz ver a postura conservadora dos homens de batina daquele tempo.

Casal 20 disse...

Poxa! Que legal os comentários hoje! É sempre muito gratificante receber "feedbacks" do que a gente escreve.

O Bento XVI no tempo em que ele era tão somente um padre fundou junto com Barth e outro teólogo importantíssimo do catolicismo, o Hans Von Balthasar, um grupo de estudos dos escritos de João (o Evangelho, as cartas e o Apocalipse): era "o grupo joanino".

Mas esse Balthasar, cardeal já falecido, tem um livro ótimo (embora não o endosse 100%), que é o "Quem é cristão?". Neste livro, o cardeal faz a surpreendente confissão de que a Igreja não sabe o que fazer com o ensino mariano, uma vez que a Igreja o defendeu com unhas e dentes por milênios. Ele diz: "Trata-se de empalidecer imperceptivelmente, ou esconder, os dogmas marianos ascendendo as outras luzes mais intensas, assim como as estrelas empalidecem e se apagam ao sair do sol?".

A Igreja Romana construiu um castelo de cartas e ela sabe que ao se retirar uma, apenas uma, todo o castelo vem abaixo: por isso o discurso do ecumênismo é, nas palavras do próprio Balthasar, "um jogo pouco sério e diplomático próprio de um Vaticano metido em política". Acho demais um cardeal escrevendo essas coisas!

Abraços sempre muito afetuosos, Rô e também a todos os demais queridos.

Fábio.

Jorge Fernandes Isah disse...

Fábio e Rô,

que ótimo texto. Realmente, o Fábio tem uma lucidez e uma fluência para escrever que vejo em poucas pessoas. E isso deveria ser mais bem aproveitado [olha o puxão de orelhas], escrevendo mais... [rsrs].

De antemão, aviso que republicarei este texto no "Guerra pela Verdade", com link e devidos créditos para o "Casal 20" e o "Blog da Rô".

É interessante como o Papa tem mais coisas a ver conosco do que muitos pretensos evangélicos... Apesar das citações que você fez serem, em sua maioria, de católicos mesmo [exceção a Tillich e Barth... Kung, ao que sei é católico... ao menos, penso que é...].

Quanto à teologia da prosperidade, até mesmo entre os católicos, ela é vista como subteologia, uma ramificação esquerdóide de um pretenso evangelho que não remonta à verdade nem a Cristo. O prof. Olavo de Carvalho, católico, diz que a T.L. é algo tão estapafúrdio que é impressionante como existam pessoas que lhe dê credibilidade... é o caso de haver pessoas mais estúpidas do que a própria estupidez e loucura da proposição.

O interessante é que ela faz mais sucesso entre os evangélicos do que entre os romanistas, e originou até o movimento da missão integral.

Parabéns, mais uma vez!

Grande abraço!

Cristo os abençoe!

Jorge

disse...

A T.L faz sim mais sucesso entre evangélicos mesmo. Realmente existe evangélicos mais estúpido que a própria T.L rss
Paz!

manuel marques disse...

Parabéns pelo excelente texto e aniversário do blog

Abraço e bom fim de semana

João Dórea disse...

A paz de Cristo Rô,

Não entendi muito bem de quem é o aniver mais tudo bem. Li todo o post, e cheguei a conclusão de que vemos este interresse ecumênico no nosso meio, com uma ressalva, ainda tem muita gente que é apaixonado pelo pura Palavra de Deus.

Lembrando que não sumi do seu blog não, apesar de não comentar sempre leio os seus textos, pois o seu blog é de cabeceira!!!

Fica na paz de Cristo e um forte abraço.

disse...

Niver é do (blog do Casal 20). João, que bom que meu blog é de cabeceira! rsss. Paz!

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