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16 de setembro de 2013

Autoridade das Escrituras sobre a autoridade da Igreja.

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Rô moreira        

A Igreja testemunha a Palavra de Deus; não a cria, não a determina, não a supera. No tempo da Reforma e de sua consolidação, necessário se fazia firmar bem solidamente os primados confessionais na autoridade ímpar e exclusiva das Sagradas Escrituras contra a pregação romana, que impunha às mentes desinformadas a tese de que Deus falava não somente pela Bíblia, mas igualmente pela tradição e pelo magistério eclesiástico; este último sumariado na pessoa do sumo pontífice, a partir de 1870, com a implantação do decreto da infalibilidade papal. A centralização no Papa da autoridade suprema em todas as questões de fé e de moral bem como o poder de receber, produzir e comunicar novas revelações sagradas está magisterialmente colocado pelo lúcido e combativo Eduardo Carlos Pereira em sua obra: O Problema Religioso da América Latina: Com o decreto, porém, da infalibilidade papal, pelo concílio Vaticano, em 1870, a “voz da Igreja” fundiu-se na voz do papa, e Pio IX, o primeiro infalível, assim interpretando esse decreto, declarou: La tradizione son io, a tradição sou eu! Operou-se uma franca evolução da autoridade infalível no seio do catolicismo romano14: das Santas Escrituras passou ela virtualmente para a Igreja; a Igreja restringiu-se ao claro; o clero absorveu-se no papa. Assim, de 1870 para cá, o Papa tornou-se oficialmente o órgão da infalibilidade divina na terra.

A Igreja romana afirma peremptoriamente que as almas são salvas pelo conjunto de três agentes salvadores em ação unificada: A Tradição (alinhada em primeiro lugar), as Escrituras e o Magistério eclesiástico (clero). Contra tais absurdos de ontem e de hoje é que a Reforma continua sustentando o primado do Sola Scriptura, a Palavra de Deus, à qual nada se acrescentará. Contra a doutrina e a prática da “insuficiência” da revelação escriturística os reformados sustentam e testemunham a sua absoluta e plena suficiência. O autorizado Catecismo, citado acima, mantém a posição tridentina da insuficiência das Escrituras: Tradição, Sagrada Escritura e Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem os outros. A Bíblia, verbera o romanismo, é inconsistente sem o concurso da tradição e do Magistério clerical romano. A Igreja, entendia a Reforma, gerada pelo Verbo divino revelado nas Escrituras e encarnado entre os homens, tem por objetivos essenciais: viver a Palavra de Deus, ensiná-la aos seus fiéis, testemunhá-la diante do mundo, pregá-la aos pecadores. Resumindo: A Igreja é filha da Palavra de Deus revelada e encarnada, não mãe. E ninguém melhor que a filha para entendê-la, submeter-se a ela e proclamá-la pela pregação, pelo ensino e pelo testemunho. A Bíblia, para o reformado, é suficiente e eficiente instrumento divino na salvação, na habilitação e na santificação dos fiéis: Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra ( II Tm 3. 16,17).

Para os reformados, a Igreja de Cristo é filha das Escrituras e, na qualidade e condição de filha, é por ela educada. E assim gerada, formada e mantida pela mãe, torna-se apaixonada encarnadora, continuadora e divulgadora de seus princípios, ensinos e ordenanças. A Igreja nasce das Escrituras para viver delas e pregá-las. Eis porque um dos mais consagrados postulados da Reforma é o do Sola Scriptura, isto é, nossa única regra de fé e norma de conduta. Além dela, fora dela, ao lado dela e acima dela nada mais: nem tradição, nem magistério clerical, nem sumo pontífice. Para os reformados, a autoridade final em matéria de revelação de Deus e de sua vontade, tanto em assuntos de fé como de comportamento ético, é a Escritura Sagrada, escoimada dos apócrifos; não a Igreja com sua tradição e seu ministério episcopal. A palavra da Igreja deve ser crida, quando emana das Escrituras. Ela merece a confiança dos fiéis na medida em que expressa irrestrita fidelidade na missão, na pregação, no ensino e no testemunho à Palavra de Deus. Para o romanismo, sempre submisso ao papa e aos concílios por ele convocados, nas Escrituras e na Tradição estão contidas as verdades salvadoras inspiradas pelo Espírito Santo, inspiração igualmente concedida a ambas as fontes. Poder-se-ia dizer que tal posição não mais se observa no novo catolicismo. Para os que dessa maneira pensam, ouçamos o que diz a respeito o Catecismo da Igreja Católica, redigido depois do Concílio Vaticano II, sendo intérprete de suas resoluções dogmáticas: A relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura- Uma fonte comum... Elas estão entre si estreitamente unidas e comunicantes. Pois promanando ambas da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim ( CIC - Catecismo da Igreja Católica- cap. II, § 80). Daí resulta que a Igreja, à qual estão confiadas a transmissão e a interpretação da Revelação, “não deriva a sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura” ( CIC, cap. II, § 82). “O patrimônio sagrado” da fé (depósitum fidei) contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos apóstolos à totalidade da Igreja ( CIC, cap. III, § 84). Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas
 ( CIC, cap. III, § 95 )


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