Pular para o conteúdo principal

A Reforma protestante teve como base 5 princípios, conhecidos como os 5 solas. Vamos estudar o significado de cada um deles? Começaremos hoje com o “Sola Scriptura”, ou “Somente a Escritura”

  • Autor
    Michael Kruger
    Dr. Michael J. Kruger é professor de Novo Testamento e Reitor no Reformed Theological Seminary em Charlotte, N.C. Ele é autor do livro Canon...
    Sola Scriptura
  • Vivemos em um mundo cheio de reivindicações de verdades concorrentes. Todos os dias, nos somos bombardeados com declarações de que uma coisa é verdadeira e a outra, falsa. Dizem-no que acreditar e no que não acreditar. Pedem-nos que nos comportemos de um jeito ao invés de outro. Em sua coluna mensal "O que eu sei com certeza", Oprah Winfrey nos diz sobre como lidar com as nossas vidas e relacionamentos. A página editorial do New York Times nos diz regularmente qual abordagem devemos usar nas grandes questões morais, jurídicas ou de políticas públicas de nossos dias.  Richard Dawkins, o ateu e evolucionista britânico, nos diz como pensar a respeito de nossas origens históricas e nosso lugar no universoverso. Como filtraremos todas essas alegações? Como as pessoas sabem o que pensar sobre relacionamentos, moralidade, Deus, origem do universo e muitas outras questões importantes? Para responder a essas perguntas, as pessoas precisam de algum tipo de norma, padrão ou critério ao qual possam recorrer. Em outras palavras, precisamos de uma autoridade máxima. É claro que todo mundo tem algum tipo de norma suprema à qual recorrer, quer estejam cientes ou não do que essa norma venha a ser. Algumas pessoas recorrem à razão e à lógica para julgar essas alegações de verdades concorrentes. 
    Outras recorrem ao senso de experiência. Outros recorrem a si mesmos e ao seu próprio senso subjetivo das coisas. Embora haja alguma verdade em cada uma dessas abordagens, os cristãos têm historicamente rejeitado todas elas como o padrão definitivo para o conhecimento. Em vez disso, o povo de Deus tem afirmado universalmente que há apenas uma coisa que pode legitimamente funcionar como o padrão supremo: a Palavra de Deus. Não pode haver nenhuma autoridade maior que o próprio Deus.
    É claro que não somos a primeira geração de pessoas a enfrentar o desafio das reivindicações de verdades concorrentes. Na verdade, Adão e Eva enfrentaram um dilema no início. Deus havia dito claramente a eles: “Certamente morrerás”, se comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17). Por outro lado, a Serpente disse o oposto a eles: “É certo que não morrereis!” (3:4). Como Adão e Eva deveriam ter julgado essas alegações discordantes? Pelo empirismo? Pelo racionalismo? Através daquilo que parecia certo para eles? Não, havia apenas um padrão ao qual eles deveriam ter recorrido para tomar essa decisão: a palavra que Deus havia falado a eles. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Em vez de olhar para a revelação de Deus, Eva decidiu investigar ainda mais as coisas por si mesma: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos... tomou-lhe do fruto e comeu” (3:6). Não se engane, a queda não foi apenas uma questão de Adão e Eva terem comido o fruto. Na sua essência, a queda tratou-se de o povo de Deus ter rejeitado a Palavra de Deus como o padrão máximo para toda a vida.

    Mas se a Palavra de Deus é o padrão máximo para toda a vida, a próxima pergunta é crucial: aonde iremos para conseguir a Palavra de Deus? Onde ela pode ser encontrada? Esta questão, é claro, nos leva a um dos debates centrais da Reforma Protestante. Ao mesmo tempo que as autoridades da Igreja Católica Romana concordavam que a Palavra de Deus era o padrão máximo para toda a vida e doutrina, eles acreditavam que essa palavra podia ser encontrada em locais fora das Escrituras.
     Roma reivindicou uma estrutura de autoridade de três partes, que incluía a Escritura, a tradição e o Magistério. O componente principal desta estrutura de autoridade era o próprio Magistério, que é o magistério oficial da Igreja Católica Romana, manifestado principalmente no papa. Porque o papa era considerado o sucessor do apóstolo Pedro, seus pronunciamentos oficiais
     (ex cathedra) eram considerados como as palavras do próprio Deus. Foi neste ponto que os Reformadores mantiveram-se firmes. Apesar de reconhecerem que Deus havia entregado sua Palavra ao seu povo de várias maneiras antes da vinda de Cristo (Hebreus 1:1), eles argumentaram que não devíamos mais aguardar a revelação contínua, agora que Deus havia falado finalmente através do seu Filho (v. 2). A Escritura é clara quanto ao dom apostólico ter sido projetado para executar uma tarefa única e histórico-redentiva: estabelecer as bases da igreja (Efésios 2:20). A atividade de estabelecimento da fundação realizada pelos Apóstolos consistia principalmente em dar à igreja um depósito de ensino autorizado que testemunhasse a grande obra redentora de Cristo. 
    Assim, os escritos do Novo Testamento, que são a personificação permanente do ensino apostólico, devem ser vistos como a última parcela da revelação de Deus para o seu povo. Esses escritos, juntamente com o Antigo Testamento, são os únicos que são corretamente considerados a Palavra de Deus. Esta convicção de sola Scriptura - somente as Escrituras são a Palavra de Deus e, portanto, a única regra infalível para a vida e doutrina - fornecia o combustível necessário para inflamar a Reforma. Na verdade, foi considerada como a “causa formal” da Reforma (considerando que sola fide, ou "somente a fé", foi considerada como a “causa material”). Os pontos de vista desta doutrina são personificados no famoso discurso de Martinho Lutero na Dieta de Worms (1521), depois que ele foi convidado a retratar os seus ensinamentos: A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência...Que Deus me ajude. Amém! Para Lutero, as Escrituras, e somente as Escrituras, eram o árbitro máximo do que devemos acreditar. 
    Claro que, como muitas convicções cristãs fundamentais, a doutrina da Sola Scriptura tem sido mal-entendida e mal-aplicada. Infelizmente, alguns têm usado sola Scriptura como justificativa para um tipo de individualismo "eu, Deus e a Bíblia", onde a igreja não tem nenhuma autoridade real, e a história da igreja não é considerada ao interpretar e aplicar a Escritura. Assim sendo, muitas igrejas hoje são quase "ahistóricas" - separadas inteiramente das ricas tradições, credos e confissões da igreja. Eles entendem erroneamente que sola Scriptura significa que a Bíblia é a única autoridade em vez de compreender que isso significa que a Bíblia é a única autoridade infalível. Ironicamente, tal abordagem individualista na verdade enfraquece a própria doutrina que a sola Scriptura pretende proteger. Ao enfatizar a autonomia do crente, fica-se apenas com conclusões particulares, subjetivas sobre o que a Bíblia quer dizer. Não é tanto a autoridade das Escrituras que é valorizada, mas a autoridade do indivíduo.
    Os Reformadores não teriam reconhecido tal distorção como a doutrina da sola Scriptura em que criam. Pelo contrário, eles estavam bastante dispostos ??a confiar nos pais da igreja, nos conselhos da igreja e nos credos e confissões da igreja. Tal embasamento histórico foi encarado não apenas como um meio para manter a ortodoxia, mas também como um meio para manter a humildade. Ao contrário da percepção popular, os Reformadores não se viam como se estivessem trazendo algo novo. Em vez disso, eles entendiam que estavam recuperando algo muito antigo - algo que a igreja tinha acreditado inicialmente, mas que depois havia se torcido e distorcido. Os Reformadores não eram inovadores, mas escavadores. Existem outros extremos contra os quais a doutrina da sola Scriptura nos protege. Embora queiramos evitar a postura individualista e "a histórica" de muitas igrejas hoje, a sola Scriptura também nos protege de elevarmos credos e confissões ou outros documentos humanos (ou ideias) ao nível das Escrituras. Devemos estar sempre atentos para não cometermos o mesmo erro de Roma, que abraçou o que poderíamos chamar de "tradicionalismo", que tenta vincular as consciências dos cristãos a áreas que a Bíblia não vincula. Nesse sentido, a sola Scriptura é uma guardiã da liberdade cristã. Mas o maior perigo que enfrentamos quando tratamos da sola Scriptura é entendê-la de forma errada.
    O maior perigo é esquecê-la. Somos propensos a pensar nessa doutrina puramente em termos de debates do século XVI - apenas um vestígio das antigas batalhas entre católicos e protestantes, e irrelevantes para os dias de hoje. Mas, nos dias de hoje, a igreja protestante precisa dessa doutrina mais do que nunca. As lições da Reforma têm sido esquecidas em sua maioria e a igreja, mais uma vez, começou a confiar em autoridades supremas fora das Escrituras. A fim de levar a igreja de volta à sola Scriptura, temos de perceber que não podemos fazer isso apenas através do ensino da doutrina em si (embora devamos fazer isso). Antes, a principal maneira para levar a igreja de volta é, de fato, pregando as Escrituras. Somente a Palavra de Deus tem o poder de transformar e reformar nossas igrejas. Portanto, não devemos apenas falar sobre a sola Scriptura, mas devemos demonstrá-la. E quando assim o fizermos, devemos pregar toda a Palavra de Deus, sem escolher as partes que preferimos ou pensar no que nossas congregações querem ouvir. Devemos pregar apenas a Palavra (sola Scriptura), e devemos pregar toda a Palavra (tota Scriptura). As duas doutrinas andam lado a lado. Quando elas são unidas, no poder do Espírito Santo, podemos ter a esperança de uma nova reforma. Paz!!

Comentários

Pb Fernando disse…
Excelente comentário minha amiga. Eu estou plenamente convencido de que, somente as Escrituras Sagradas tem a Palavra final no que concerne a revelação Divina para o homem.

Postagens mais visitadas deste blog

Pré-candidato, Collor diz que não se arrepende de confisco da poupança

Ex-presidente falou sobre a prisão de Lula: "uma injustiça"

O ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTC), em entrevista à Folha de S.Paulo publicada nesta sexta-feira (13), afirmou que o confisco das cadernetas de poupança implementado por seu governo "era uma necessidade absoluta" e que "faria do mesmo jeito" se tivesse que voltar àquele momento.


"Era uma necessidade absoluta. Se voltando àquele momento, faria do mesmo jeito. Tem a questão do próprio impeachment, que é uma coisa interessante", disse, ao ser questionado se o gesto foi um equívoco.


"O que houve foi um bloqueio do dinheiro que circulava na economia. A inflação estava em 82% ao mês. Havia instrumentos de especulação financeiros danosos, tínhamos que criar um ambiente em que pudéssemos fazer um congelamento de preços, que é algo terrível, uma medida que a gente deve evitar o quanto possível", disse ele na entrevista.


O senador disse ainda que continuará com a pré-can…

Dilma e Gleisi vão a Cuba 'denunciar' situação de Lula no Foro de São Paulo

A ex-presidente Dilma Rousseff e a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, viajam na semana que vem para Cuba para participar do encontro anual do Foro de São Paulo, que congrega partidos políticos e organizações de esquerda da América Latina. Ali, as duas pretendem "fazer uma denúncia" sobre a situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os petistas classificam como "prisão política".


"Eu vou agora para o Foro de São Paulo fazer uma denúncia também. Dilma vai, resolvemos ir para fazer a denúncia do que está acontecendo", disse Gleisi ao Valor PRO. "Nós vamos ter todos os partidos de esquerda e centro-esquerda da América Latina reunidos lá, autoridades. E nós vamos para denúncia internacional." O encontro ocorre em Havana entre o domingo, 15 de julho, e a terça, 17. No site da entidade, já há destaques para a prisão do ex-presidente, como um "Mapa de Mobilização Mundial Lula Livre" e manifestações de políticos e entidades…

Briga entre advogados de Lula se torna explícita e agora envolve familiares

12911
A humilhação a que o abobalhado Cristiano Zanin submeteu o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Sepúlveda Pertence, extrapolou os limites do bom senso e da discrição e já envolve parentes dos envolvidos. A indignação do filho de Sepúlveda, Evandro Pertence, segundo conta o jornal Estadão, foi estampada no seguinte torpedo disparado contra Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Martins, num grupo de WhatsApp: “Não precisamos de vocês para ter qualquer tipo de protagonismo! Meu pai é e sempre será maior que vocês”. Lamentável que, certamente por dinheiro – não há outra explicação - Sepúlveda se nivele por tão baixo.
Perdemos um grande jurista para o PT. É mais um estrago provocado por esta infame organização criminosa. É também a demonstração da notória inteligência da seguinte expressão popular: "Quem com porcos anda, farelo come."
Informação do Jornal da Cidade