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23 de outubro de 2013

Por que o Barthianismo foi chamado de Neo-Ortodoxia

Karl Barth (1886-1968) certamente repudiaria a idéia de um movimento que levasse seu nome. O genial teólogo e pastor suíço, apesar de estar entre os maiores teólogos do seu século, jamais aceitaria isso. Apesar de tudo, com o estrondoso sucesso de seu ministério como pregador, professor e escritor, foi inevitável que as suas idéias dessem origem a um movimento ligado ao seu nome.
Esse movimento teológico nascido com Barth ficou mais conhecido como neo-ortodoxia. Há outros nomes ligados à neo-ortodoxia, como Emil Brunner e Richard Niebhur, mas nenhum deles supera o nome do professor de Basel.
Para que entendamos a razão pela qual o barthianismo veio a se chamar neo-ortodoxia é preciso que lembremos o momento histórico em que ele surgiu.
Após a Reforma, durante os séculos dezessete e dezoito, a Igreja protestante foi largamente influenciada por idéias originadas do Iluminismo. O racionalismo desejava submeter todas as coisas ao crivo da análise racional. Lentamente a razão humana começou a triunfar sobre a fé. O filósofo L. Feuerbach tentou transformar a teologia em antropologia, dizendo que tudo que se diz sobre Deus, na verdade, é dito sobre o homem. Ele influenciou grandemente K. MarxS. Freud, R. Bultmann e F. Schleiermacher. Esse último desvinculou a fé cristã da história e da teologia, reduzindo a experiência religiosa ao sentimento de dependência de Deus. Somente depois ficaria evidente que era impossível construir uma teologia em cima de um terreno tão subjetivo, mas na época, e por mais de um século, Schleiermacher foi seguido por muitos e sua influência continua até hoje.
Na mesma época, surgiu o método histórico-crítico de interpretação da Bíblia, que negava a inspiração divina de seus livros e tratava-a como meros registros humanos falíveis e contraditórios da fé de Israel e dos primeiros cristãos. A confiança na Bíblia foi tremendamente abalada.
Esses desenvolvimentos dentro da Igreja e o movimento que surgiu associado a eles foi chamado de liberalismo. O liberalismo tinha uma perspectiva elevada do homem e acalentava a esperança de que o Reino de Deus poderia ser implantado nesse mundo mediante os novos conhecimentos científicos e tecnológicos trazidos pelo Iluminismo. Com isso, o Evangelho perdeu a sua exclusividade e força. A Igreja começou a secularizar-se, particularmente na Europa.
Então veio a I Guerra Mundial. As esperanças do liberalismo teológico e do humanismo em geral foram esmagadas. Perplexidade e confusão dominaram os cristãos da Europa. Surge a teologia da crise.
Foi nesse vácuo de referencial e autoridade que soou a voz de Karl Barth. Ele atacou o subjetivismo da religiosidade liberal, originada em Schleiermacher, porque se apoiava nas experiências e emoções humanas e não na verdade de Deus. Barth criticou a rendição da Igreja à psicologia e exigiu que ela se curvasse somente diante da absoluta autoridade da Bíblia. Não poupou críticas virulentas contra os críticos da Bíblia, especialmente por terem destruído a autoridade da Bíblia, deixando-a sem relevância para as pessoas de sua época e deixando a Igreja sem uma mensagem autoritativa.
Barth proclamou a necessidade de se ouvir outra vez a voz de Deus na Escritura, Deus esse que nos fala hoje, de maneira soberana. Seu apelo foi para que deixassem Deus ser Deus e que a Igreja retornasse às coisas divinas.
Barth se levantou contra tudo que era humano e que havia prevalecido dentro da Igreja desde a Reforma, começando com a religiosidade subjetiva de Schleiermacher, passando pelas idéias dos críticos, dos humanistas, até os conceitos dos liberais de seus dias. Ele queria que teólogos se ocupassem com as coisas divinas em vez de serem exclusivamente historiadores, arqueólogos, filósofos e cientistas da religião. Seus textos e mensagens vieram recheados de referências e exegese de textos bíblicos, que ele citava como autoridade.
Barth pregava fervorosamente sobre justificação, pecado, graça, eleição, temas fundamentais do pensamento reformado. Não demorou para que sua reação contra o liberalismo e seu apelo de retorno à Bíblia fosse entendido por muitos, liberais e conservadores, como o ressurgimento da antiga ortodoxia cristã, reinterpretada e adaptada à nova realidade, uma nova ortodoxia.
O impacto da neo-ortodoxia de Barth se fez sentir em todos os lugares. Muitos liberais foram obrigados a rever suas idéias e modificá-las. Muitos conservadores abraçaram a neo-ortodoxia, pois ela por um lado os tornava respeitáveis intelectualmente (por acreditarem na evolução e em alguns aspectos da crítica bíblica), e por outro, permitia que continuassem a usar a mesma linguagem dos evangélicos ortodoxos.
A neo-ortodoxia, na verdade, era uma tentativa de síntese entre a ortodoxia da Igreja e o liberalismo teológico, e sem dúvida alguma, nessa síntese, o liberalismo perdeu sua força. Mas, não só ele – a ortodoxia também já não seria a mesma.
Em que pese a dívida histórica que a Igreja tem para com a neo-ortodoxia, por haver enfrentado e detido o avanço do liberalismo em seus dias, essa dívida não pode ser teológica. Pois na verdade, em termos de conteúdo, o barthianismo tem pouca coisa em comum com a ortodoxia histórica da Igreja.
Mas, sobre isso escreverei num próximo post.
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Veja abaixo uma bibliografia resumida em português sobre K. Barth.
K. Barth em português e espanhol:
La Proclamacion del Evangelio. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969.
Dádiva e Louvor: Artigos Selecionados. São Leopoldo: Sinodal, 1986.
Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 1996.
Romanos. São Paulo: Novo Século, 1999.
Fé em busca de compreensão. São Paulo, Novo Século, 2000.
Algumas poucas obras e artigos sobre Barth em português:
POLMAN, A. D. R. Barth. Recife, 1969.
SCHNUCKER, R.V. “Neo-ortodoxia”. In: ELLWEL, Walter (ed.), Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. vol. 3. São Paulo: Vida Nova, 1990, pp. 12-15.
FERREIRA, Franklin. "Karl Barth: uma introdução à sua carreira e aos principais temas de sua teologia”. In: Fides Reformata 8/1 (2003), pp. 29-62.
Obras gerais que mencionam Barth:
GUNDRY, Stanley (ed.). Teologia Contemporânea. São Paulo: Mundo Cristão, 1987.
HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 1995, pp. 343-345.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001, pp. 585-605.

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