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31 de janeiro de 2015

Entrevista da Rô com Augustus Nicodemus Lopes - Refletindo sobre a Igreja Contemporânea, com o Dr. Augustus Nicodemus Lopes.


É com imensa satisfação e alegria que eu, Rô Moreira, tenho  ao entrevistar o Dr Augustus Nicodemus Lopes, com uma serie de perguntas e questionamentos feitos por diversos irmãos internautas, do  meu Facebook e do meu Blog.

As questões permeiam sobre os rumos da Igreja Brasileira, seus atuais problemas e seus caminhos, e também sobre questões da teologia reformada. O entrevistado Dr Augustus Nicodemus Lopes, é um dos mais renomados expoentes da teologia reformada e Calvinista no Brasil, sendo ele um dos grandes incentivadores do estudo teológico, e da erudição teológica reformada no Brasil.

Sobre o Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes, ele é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Fez seu curso de bacharel em teologia no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife. Depois, obteve o mestrado em Novo Testamento na África do Sul, na Universidade Cristã de Potchefstroom, ligada à Igreja Reformada. Posteriormente, depois de servir como professor, e diretor do Seminário Presbiteriano do Norte, bem como pastor da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife, obteve o grau de doutor em Hermenêutica e Estudos Bíblicos pelo Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, Estados Unidos, com estudos adicionais na Universidade Reformada de Kampen, na Holanda. Seu doutorado no Brasil é validado pela PUC do Rio de Janeiro. Recentemente terminou o pós-doutorado no Seminário Teológico de Westminster. Foi pastor da Igreja Evangélica Suíça de São Paulo, professor e diretor do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da Igreja Presbiteriana do Brasil e Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É autor de diversos livros, entre eles “O Que Você Precisa Saber Sobre Batalha Espiritual”, “A Bíblia e Sua Família”, “O Culto Espiritual”, “A Bíblia e Seus Intérpretes”, “O que Estão Fazendo com a Igreja,” “O Ateísmo Cristão e Outras Ameaças à Igreja,” e comentários sobre diversos livros da Bíblia. Atualmente é pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo e professor de Novo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.

1 – Vou fazer uma analogia: a igreja em Corinto parece muito com as igrejas neo-pentecostais contemporâneas. Meio caóticas e cheias de "dons". E o sistema judaico fariseu lembra muito as igrejas tradicionais e até reformadas, pelo sistema litúrgico e certa racionalidade. A pergunta é: as igrejas neo- pentecostais estão cheias devido ao misticismo, e as tradicionais se esvaziam, devido a racionalidade de sua mensagem e as vezes filosóficas etc. Como encontrar o equilíbrio? Se é que existe. O problema esta no pragmatismo das igrejas pentecostais ou na forma de comunicação das igrejas reformadas? 
 

  Rev. Augustus Nicodemus: - O equilíbrio sempre será um retorno ao ensino das Escrituras sobre o Evangelho e a igreja de Cristo. É no Evangelho que encontramos a conjunção de piedade e conhecimento, de experiência com Deus e profundidade teológica. Se as igrejas neopentecostais resolvessem mudar e seguir o que a Bíblia de fato ensina sobre a pessoa e a obra de Cristo, sobre a sua igreja, sobre a necessidade de arrependimento e mudança de vida, de santificação e mortificação do pecado, e se abandonassem a pregação da prosperidade financeira, teriam um número bem menor de membros, mas a possibilidade de que estes sejam realmente convertidos seria bem maior. Da mesma forma, se as igrejas reformadas se voltassem para este mesmo Evangelho, experimentaria de maneira mais profunda o relacionamento com Deus na prática e teriam mais liberdade para falar à nossa geração de maneira mais contextualizada. Não é garantido que fidelidade à Bíblia sempre produza crescimento numérico – as vezes é até o contrário. Mas certamente produz uma igreja mais forte e mais santa.

2 - Segundo pesquisas as igrejas históricas atuam mais tempo no Brasil. E são referencias em missões, educação e teologia tendo maior penetração na classe média e alta, já o pentecostalismo cresce nas camadas mais pobres. P: a condição sócia econômica do brasileiro seria uma das causas do baixo crescimento das igrejas  históricas? Se há outra causa, qual seria? -

 Rev. Augustus Nicodemus: - Essa associação das igrejas históricas com as classes mais altas da sociedade nem sempre é verdadeira. Uma das maiores igrejas presbiterianas do mundo é a do México, com mais de 2 milhões de membros. Contudo, não é uma igreja da classe alta, mas sim das camadas mais pobres da população. E também é importante notar que o pentecostalismo vem avançando, no Brasil e no mundo, entre pessoas das classes mais altas da sociedade (lembrando que no exterior o pentecostalismo é diferente quanto aos usos e costumes do pentecostalismo brasileiro). Até a década de 50 no Brasil, as maiores igrejas evangélicas eram as presbiterianas e batistas. Perderam espaço para os pentecostais e depois os neopentecostais porque foram infiltradas pelo liberalismo teológico, através dos seminários, e tiveram que enfrentar o inimigo dentro de casa. Durante as décadas de 60 e 70 os presbiterianos no Brasil estavam empenhados em sobreviver ao vírus mortal do liberalismo, que fechou muitas igrejas na Europa. O foco deixou de ser o crescimento e passou a ser a sobrevivência. Não podemos dizer que as igrejas históricas ficaram totalmente livres deste mal, mas o fato é que elas perderam muito do fervor inicial de ganhar os perdidos para Cristo.


3- “Nossa geração (e aqui incluímos a igreja) enfrenta uma crise que tem afetado todas as áreas, seja da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou teologia, questões que no passado eram definidas, retornam nesta era como grandes desafios para sociedade. As questões que envolvem a homossexualidade, aborto, eutanásia, racismo, pobreza, religiosidade entre outras, voltaram para um estado de indefinição.” P: Neste aspecto a igreja parece tão desorientada quanto a sociedade. É culpa do politicamente correto ou é mais uma das , digamos, portas do inferno que a igreja enfrenta nas eras de sua edificação? 



 
Rev. Augustus Nicodemus:: Na verdade, estas questões nunca foram totalmente definidas. Já na época dos pais da igreja (sécs. II em diante) encontramos alguns destes temas sendo discutidos ou sendo objeto de orientações por parte dos líderes cristãos. É verdade, todavia, que antigamente as respostas para estas questões eram mais claras e definidas. O que mudou é que a sociedade ocidental que se ergueu sobre valores cristãos se secularizou e o cristianismo cada vez mais deixa de ter sua voz ouvida na arena pública. Estas questões passaram a ser questões de estado, que na sociedade secularizada é, por definição, laico. A igreja no Brasil, além de não ter tradição de influenciar a sociedade nestas questões (como tem nos Estados Unidos e antigamente na Europa), está fragilidade em seu testemunho, pulverizada em sua unidade e é teologicamente fraca, embora seja numericamente grande. A falta de exposição bíblica, formação bíblica séria, a falta do cultivo de mentes e corações enraizados na Palavra de Deus produziu um cristianismo no Brasil que é tão extenso quanto o Amazonas ao RS mas de uma rasura de poucos centímetros…


4 - Li em um artigo do Renato Vargens que o senhor afirmou certa vez que  " as Escrituras não deixam dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente; ao mesmo tempo, porém, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. " P: Como entender o fenômeno dos desigrejados? 


 
Rev. Augustus Nicodemus:O termo “desigrejado” pode ser usado para pessoas que se identificam como cristãos mas que rejeitam as igreja cristãs organizadas ou institucionalizadas, particularmente as denominações, e que se reúnem em grupos informais nas casas ou em outros lugares, para leitura e estudo da Bíblia, oração e louvor e comunhão. Eu entendo a razão por que estas pessoas têm esta atitude, embora eu a considere radical e extremada – há crentes verdadeiros nas denominações e elas foram responsáveis pela tradução da Bíblia, formação de agências missionárias mundiais, criação de hospitais, escolas e orfanatos, etc. Mas “desigrejado” significa também aqueles que se dizem cristãos mas que não procuram comunhão alguma com outros cristãos, mesmo em grupos informais. É a estes que me referi. Não se pode ser cristão sem igreja. E por “igreja” eu não quero dizer igreja institucional ou denominacional, mas um ajuntamento de irmãos em Cristo para adorar a Deus, estudar sua Palavra, cantar seus louvores, celebrar o batismo e a Ceia, exercer a disciplina mútua e evangelizar. Não precisa ser uma denominação para isto. E nem precisa de templo ou CNPJ para isto.


5 . Igrejas em busca de relevância se tornaram uma preocupação na mente de tanta gente que dá vontade de perguntar: como elas sobreviveram até hoje, num mundo tão competitivo, sendo irrelevantes? Numa sociedade secularizada e massificada por valores contrários aos das igrejas, como elas ainda existem, crescem e ainda preocupam tanta gente que se sentem incomodadas com elas? Por isso levanto a questão: o que é relevância e por que a igreja deve ter o que chamam de relevância?


 Rev. Augustus Nicodemus: Quando eu digo que a igreja tem que ser relevante, me refiro à sua forma e método de pregar a verdade do Evangelho, a qual é sempre atual e inegociável, bem como a maneira pela qual ela, a igreja, aplica estas verdades eternas à sua situação ou ambiente vivencial. Acho que Paulo estava querendo ser relevante quando ele disse que se fazia como judeu entre os judeus e se fazia de gentio entre os gentios (1Coríntios 9). Quando estava entre os judeus, Paulo falava como judeu e se comportava como judeu (o que era fácil, pois ele era um judeu) para ser ouvido. De que adianta você ter a verdade mas não ter quem queira ouvi-la? De que adianta você ter a verdade mas não saiba como mostrar de que maneira ela impacta as questões sobre as quais todo mundo está falando? Relevância é anunciar o Evangelho eterno e imutável de maneira que as pessoas ouçam e percebam como de fato este Evangelho é o poder de Deus para salvar pecadores no século XXI. Todavia, a busca pela relevância nunca deve nos levar a diminuir as exigências radicais do Evangelho.


Segue abaixo alguns questionamentos de internautas.


6- As condições para o serviço cristão eficaz "Tem sido frequentemente demonstrado que é apenas na medida em que as pessoas forem completamente instruídas na Palavra de Deus que elas se tornarão cristãos firmes e trabalhadores eficazes por Cristo. Há, assim, uma relação definitiva entre a pregação doutrinária e o serviço cristão eficaz”, no entanto, cada vez mais o que temos presenciado são cristãos superficiais, desinteressados da mensagem da bíblia, e quase sempre e facilmente levados por ventos de doutrinas falsas, portanto, o que pode-se fazer para resgatar valores cristãos, ou incuti-los na atual geração? 


Rev. Augustus Nicodemus: Boa parte deste problema é resultado de líderes fracos. Mas, tem muita gente procurando orientação e referencial nas mídias sociais, que é uma importante ferramenta para a divulgação da verdade da Palavra de Deus. Há várias maneiras de incutir valores cristãos na atual geração, como bom conteúdo nas mídias sociais, boas indicações de livros - o bom mesmo seria o surgimento de muitas novas igrejas comprometidas com a verdade bíblica e o discipulado de seus membros. Mas, acima de tudo, fazer estas coisas com atitude de amor e paciência.

 
7– A Igreja presbiteriana está tomando um rumo contrario de uma forma geral. Enquanto vemos uma crescente onda de pessoas se reformando, vemos um monte de igreja presbiteriana se afastando da reforma, e se “pentecostalisando”?

 
 
Rev. Augustus Nicodemus: A pentecostalização das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas, tem origem no movimento carismático da década de 60. Acontece porque estas igrejas históricas - ou pelo menos, uma boa parte delas - não conseguiram se adaptar e acompanhar as mudanças rápidas na sociedade em geral, na maneira como as pessoas se comunicam e nos temas que ocupam a mente do público, e continuaram dando respostas para perguntas que ninguém estava fazendo. Os movimentos pentecostais e neopentecostais são modernos, voltados para as necessidades das pessoas, como cura, trabalho, solução de problemas pessoais e por este motivo atraem seguidores de dentro das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas. O que estamos vendo é o que tem sido chamado de pós-denominacionalismo, período em que as denominações tradicionais vão perdendo mais e mais o poder de segurar seus membros, os quais se organizam em tribos com caciques virtuais que se comunicam pelas mídias sociais. Por exemplo, a tribo dos reformados que seguem Piper, Washer, Sproul, etc. é muito grande dentro da denominação Assembléia de Deus. Da mesma forma, a tribo pentecostal dentro dos batistas, presbiterianos, etc., que seguem Malafaia e outros, também é grande.


8- Uma outra dúvida que eu tenho é: O assunto sobre batismo é essencial ou periférico ? Por exemplo, as diferenças entre batistas e presbiterianos em relação ao batismo, é algo fundamental ou periférico? Até onde isso pode atrapalhar a comunhão de irmãos dessas denominações?



Rev. Augustus Nicodemus: o batismo, como selo e símbolo da nossa aliança com Deus, como rito iniciatório no Cristianismo, é essencial. Ele foi ordenado pelo próprio Senhor Jesus Cristo na Grande Comissão (Mat 28:18-20). As diferenças relacionadas com a forma de batismo (aspersão, imersão, afusão) são periféricas e não deveriam nos separar.


9 - Rev.Nicodemus, é muito evidente a lepra da “Praticidade religiosa” em nossos dias na maioria ou generalizadamente em todas as igrejas, o imediatismo, a busca de um evangelho resolvedor de Problemas, o Evangelho “miojo”, e a impaciência pela lei da semeadura que nos é ensinado na Palavra de Deus, tem gerado crentes extremamente superficiais e inaptos a refletirem a vida cristã, como mudar isso Reverendo? 



Rev. Augustus Nicodemus: O caminho bíblico para a educação, edificação, instrução dos crentes é o ministério dos pastores e mestres, conforme Paulo nos ensina em Efésios 4. Mestres que sejam fiéis à Palavra de Deus ensinarão e corrigirão os erros e desvios do rebanho, como a praticidade religiosa mencionada na pergunta. Mas o que temos hoje são muitos mestres segundo os seus próprios interesses, que promovem o erro motivados pela ganância. Se Deus não levantar pastores segundo o Seu coração, esta situação vai continuar e piorar.



10- Quanto às expressões, ou, manifestações pentecostais e neo-pentecostais em algumas IPBs? São ensinadas/aceitas nos seminários (no sentido de: há como filtrar isso nos seminários)? Como corrigir, uma vez que alguns conselhos (presbíteros e pastores) são adeptos de tal movimento? E tendo em vista que os Ministros Presbiterianos são sempre entrevistados anteriormente (pelo Conselho da Igreja) ao serem convidados para tal igreja, serem Pastores, isso para que suas convicções sejam conhecidas anteriormente! 

 Rev. Augustus Nicodemus: A IPB tem tomado posição sobre temas relacionados com o neopentecostalismo. Estas posições podem ser encontradas, por exemplo, na "Carta Pastoral sobre o Espírito Santo” de 1998, onde a IPB se posiciona sobre o batismo com o Espírito Santo, sobre línguas e profecia e a contemporaneidade destes dons (veja aqui:http://ipbcambeba.wordpress.com/category/posicionamentos-da-ipb/page/4/). Há ainda outro posicionamento sobre a IURD de 2007, onde analisa suas práticas e as considera como de uma seita (veja aqui:http://www.ipbmetropolitana.com.br/sites/bancoimg/130406044857CartaPastoralsobreaIURD_LudgeroBonilhaMoraes.pdf). O que acontece é que pastores, conselhos de igrejas, presbitérios e sínodos simplesmente ignoram estes posicionamentos quando analisam candidatos ou julgam denúncias de práticas estranhas à IPB. Pessoalmente, não acredito que haja solução para isto. As denominações estão gradualmente perdendo a capacidade de manter a coerência doutrinária de seus pastores, instituições teológicas e igrejas.

11- É possível uma igreja pentecostal se denominar reformada? 

 Rev. Augustus Nicodemus: Vai depender da definição de “pentecostal” e “reformada”. Uma situação possível é de igrejas que acreditam na contemporaneidade de dons como línguas, profecia e curas (sem que estas manifestações se configurem em novas revelações) e ao mesmo tempo são reformadas na soteriologia, isto é, aceitam os cinco pontos do calvinismo e os cinco “solas” da Reforma. Todavia, um ponto central da Reforma protestante é “Sola Scriptura”. Uma igreja que se considera reformada mas que está aberta para novas revelações ou experiências, as quais acabam se tornando referencial de doutrina e prática, não pode ser considerada reformada.

12– A ordem dos Pastores Batistas, acaba de aprovar a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. O que o Senhor acha/pensa desta decisão? 

 Rev. Augustus Nicodemus: Considero uma decisão biblicamente equivocada, que é muito mais fruto do espírito da época do que de exegese e interpretação bíblicas saudáveis. É mais uma organização eclesiástica tradicional e histórica que cede às pressões da nossa cultura.

13 - Eu queria saber a opinião do senhor sobre a junção (ou aceitação) que muitos fazem entre cristianismo e maçonaria. À luz das Escrituras é permitido ser cristão e maçom ao mesmo tempo? Tô fazendo essa pergunta por que há vários pastores e presbíteros maçons comandando igrejas por aí, inclusive e principalmente igrejas Presbiterianas? 

 Rev. Augustus Nicodemus: A IPB, depois de muitos anos de discussão, posicionou-se contra a maçonaria, declarando a incompatibilidade entre a maçonaria e a fé cristã. O histórico destes posicionamentos pode ser visto aqui: http://www.mackenzie.com.br/10245.html. Eu pessoalmente concordo com esta posição da IPB.


14 - Quanto ao chamado “mal do século”, a depressão. Pastores afirmam que as Escrituras são suficientes, de fato são, para resolver o problema. Há pastores preparados para lidar com esses casos? A psicologia é relevante ou não como auxilio para o pastor, ou seja, o pastor deveria fazer um curso de psicologia? 


Rev. Augustus Nicodemus: Pastores não precisam de um curso de psicologia para orientar e ajudar a grande maioria das pessoas que chegam em busca de ajuda para seus sofrimentos. Os casos que estão além de suas possibilidades e conhecimentos podem ser encaminhados a cristãos psicólogos, pois há situações em que a depressão tem origem em distúrbios e doenças que requerem tratamento médico.
A psicologia funciona como uma ferramenta útil de diagnóstico dos males da alma humana, mas ela está bastante limitada pelos pressupostos racionalistas e materialistas que hoje orientam as suas diversas linhas. Por não reconhecer o homem como um ser que foi criado à imagem de Deus e que se encontra afastado dele, num estado de rebelião e desobediência e inclinado para o mal, a psicologia não pode detectar a origem espiritual de muitos males, desvios, comportamentos e estados que afligem as pessoas. E consequentemente, se ela não pode dar um diagnóstico completo, que integre o elemento espiritual, também não poderá oferecer soluções adequadas e eficazes na cura destes males. Quanto à depressão, ela tem diversas causas, uma delas de natureza espiritual, que é a falta de confiança em Deus ou desobediência aos seus caminhos. Este tipo de depressão pode ser tratada mediante orientação bíblica. Mas existem casos em que outros tratamentos podem e devem ser empregados. É preciso discernimento em cada caso, para não darmos remédio para quem precisa de Bíblia e não darmos só Bíblia para quem também precisa de remédio.


15
 - Sobre a banalização da fé; As igrejas históricas deveriam intervir de forma mais ostensiva, mais participativa e presente? Por exemplo: confrontar diretamente lideres e/ou denominações que têm contribuído largamente para o abandono da sã doutrina? E implantação de heresias? 



Rev. Augustus Nicodemus: Paulo orientou Tito sobre o confronto de falsos mestres desta forma: "Evita o homem faccioso, depois de admoestá- lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tt 3:10). A estratégia então é esta: advertir e exortar uma e duas vezes, e depois disto, entregar a Deus e passar a evitar a pessoa, pois não há mais nada a fazer.



16 -
 Sobre o lema: “ecclesia reformata et semper reformanda”? Acha que é preciso uma nova reforma na igreja contemporânea? Se sim, por onde começaria (visto que se ouve falar muito em revitalização da igreja)? 



 
Rev. Augustus Nicodemus: Sim, precisa. Por onde começar, não sei. Antes de Lutero afixar as 95 teses e dar início à Reforma protestante, sem ter planejado nada daquilo que veio a acontecer, vários concílios da Igreja Católica já haviam se reunido anos antes para discutir e analisar o estado espiritual e moral do cristianismo medieval. Imagino que eles deram muitas opiniões sobre o que precisava ser mudado. O que ninguém esperava era que Deus iria fazer esta reforma necessária mediante um monge agostiniano chamado Lutero que havia se convertido através da leitura e estudo da carta aos Romanos. Duvido que aqueles concílios tenham imaginado que a reforma deveria começar pela soteriologia, a doutrina da salvação. Da mesma forma, eu espero que Deus levante no tempo dele os meios eficazes para reformar a Sua Igreja no mundo.
17 - O Rev. reconhece que a IPB, hoje, apresenta uma expressiva falta de identidade confessional, devido a pluralidade de seguimentos doutrinários que tem brotado em seu seio, os quais, a tem afastado dos ideais dos apóstolos, pais da igreja, pré reformadores, reformadores, covenanters e puritanos, mostrando assim, uma infidelidade confessional, bem como, a rejeição da história da igreja? 

 Rev. Augustus Nicodemus: A pergunta tem um pressuposto equivocado. A identidade da IPB é definida por sua fidelidade às Escrituras e os símbolos de fé de Westminster (Confissão e catecismos Maior e Breve), e não pelos escritos dos pais da igreja, dos pré-reformadores, covenanters e puritanos. Os pastores presbiterianos fazem voto de fidelidade aos símbolos de Westminster e não aos escritos destes outros grupos. Devemos lembrar que dentro da Reforma protestante haviam diferentes linhas, mesmo entre os puritanos. Ainda assim, encontraremos dentro da IPB pastores que se afastaram de seus votos e seguem teologias estranhas àquela de Westminster. Eu não sei dizer se este desvio é expressivo. A julgar pelas decisões do Supremo Concílio da IPB, eu diria que ela continua, na sua maioria, fiel aos seus votos.

18 - Podemos dizer que um dos frutos da falta de identidade confessional, se deve a desonestidade confessional, apresentada pelos oficiais da IBP e também, porque não é exigida dos demais membros, uma subscrição aos documentos confessionais e históricos que foram dados por Deus, para nortear o conhecimento de Deus, que a igreja deve ter? 

 Rev. Augustus Nicodemus: Há oficiais da IPB que conscientemente seguem teologias estranhas ao presbiterianismo que um dia votaram seguir fielmente. Estes podem ser acusados de desonestidade. Mas, em outros casos, há oficiais que foram colocados em seus postos sem ter conhecimento algum da teologia presbiteriana, como resultado de igrejas sem teologia e concílios que não se preocupam com isto. Não me sinto à vontade para acusá-los de desonestidade confessional. Acho também que os pastores neopuritanos dentro da IPB são desonestos, pois a IPB não adota os Princípios de Liturgia de Westminster e eles, mesmo assim, querem forçar a IPB a adotar o sistema de culto expresso ali e práticas como salmodia exclusiva. Sobre exigir dos membros subscrição a documentos históricos, considero um exagero. Eles vão aprender estes documentos e a teologia reformada depois de serem membros da igreja, nas classes de Escola Dominical e mediante dissimulado e as pregações. Querer que eles já sejam reformados na teologia como condição para serem membros das igreja é legalismo puro.


19. Como você vê essa aproximação entre pentecostais e reformados? 

 Rev. Augustus Nicodemus: Na década de 60, o movimento carismático, que era pentecostal em sua essência, entrou nas denominações reformadas e históricas, dando frutos bons e ruins. Entre os bons menciono o despertamento entre reformados e históricos para a obra do Espírito em nossos dias. Entre os ruins, o divisionismo, a amargura e a cisão. Agora, vemos o movimento contrário, a teologia reformada entrando no campo pentecostal. Aguardo bons frutos, como um maior interesse dos pentecostais pelo estudo sério da Palavra, pelas doutrinas da graça, pela pregação expositiva. Espero que os frutos ruins não brotem, como novos reformados fanáticos e zelotes ou pentecostais que abraçam da Reforma apenas aquilo que lhes agrada, esquecendo que a teologia reformada é muito mais ampla do que os cinco pontos do calvinismo ou os cinco solas (slogans) da Reforma.

20- Obrigado minha amiga pela gentileza do convite. Pergunte ao Reverendo, se ele faz diferença entre pentecostais e neo pentecostais.  

 Rev. Augustus Nicodemus: Faço, sim. O pentecostalismo histórico clássico nasceu da convicção de que Deus estava restaurando todos os ministérios, dons e prodígios encontrados no Novo Testamento, à exceção do oficio de apóstolo. Enfatizava o batismo com o Espírito Santo evidenciado pelas línguas e aceitava revelações e profecias. O neopentecostalismo surge de dentro do pentecostalismo com estas mesmas convicções, mas acrescentando a restauração do oficio de apóstolo, adotando a estratégia do G-12 e do Modelo de Discipulado Apostólico, modelos de igrejas independentes e lideradas por uma pessoa apenas e pregando a teologia da prosperidade. A Igreja Presbiteriana do Brasil reconhece denominações como a Assembléia de Deus como irmã, mas considera como seitas igrejas neopentecostais que pregam a teologia da prosperidade.

 21 . Igrejas em busca de relevância se tornaram uma preocupação na mente de tanta gente que dá vontade de perguntar: como elas sobreviveram até hoje, num mundo tão competitivo, sendo irrelevantes? Numa sociedade secularizada e massificada por valores contrários aos das igrejas, como elas ainda existem, crescem e ainda preocupam tanta gente que se sentem incomodadas com elas? Por isso levanto a questão: o que é relevância e por que a igreja deve ter o que chamam de relevância?

 Rev. Augustus Nicodemus: Quando eu digo que a igreja tem que ser relevante, me refiro à sua forma e método de pregar a verdade do Evangelho, a qual é sempre atual e inegociável, bem como a maneira pela qual ela, a igreja, aplica estas verdades eternas à sua situação ou ambiente vivencial. Acho que Paulo estava querendo ser relevante quando ele disse que se fazia como judeu entre os judeus e se fazia de gentio entre os gentios (1Coríntios 9). Quando estava entre os judeus, Paulo falava como judeu e se comportava como judeu (o que era fácil, pois ele era um judeu) para ser ouvido. De que adianta você ter a verdade mas não ter quem queira ouvi-la? De que adianta você ter a verdade mas não saiba como mostrar de que maneira ela impacta as questões sobre as quais todo mundo está falando? Relevância é anunciar o Evangelho eterno e imutável de maneira que as pessoas ouçam e percebam como de fato este Evangelho é o poder de Deus para salvar pecadores no século XXI. Todavia, a busca pela relevância nunca deve nos levar a diminuir as exigências radicais do Evangelho.


22.  Rev. Nicodemus o senhor foi a favor da saída da IPB da associação mundial de igrejas reformadas. 

 Rev. Augustus Nicodemus: Creio que se refere a World Association of Reformed Churches (WARC). Sim, fui a favor. Na ocasião da decisão, ficou claro pelo exame dos documentos apresentados no Supremo Concílio da IPB que a WARC estava no caminho do liberalismo teológico e apoiando a agenda associada com este liberalismo. “Como andarão dois juntos se não estiverem de acordo”? A IPB preferiu associar-se à World Reformed Fellowship (WRF), que é bem reformada e teologicamente firme, e que reúne igrejas, denominações e instituições reformadas do mundo inteiro.

23. boa noite Rô, a minha pergunta é se existe esperança, ou possibilidade de acontecer uma nova reforma entre as igrejas? 

 Rev. Augustus Nicodemus: Creio que Deus é soberano e todo poderoso. Ele pode abençoar seu povo mais uma vez. Historicamente, contudo, não há mais aquela convergência de fatores históricos que permitiram a Reforma do sec. XVI, quando havia apenas uma igreja a ser reformada, que era a Católica. Hoje há centenas de denominações protestantes, além da igreja católica. Portanto, se vai haver uma reforma, ma parece que terá de ser diferente, quanto ao modo, daquela do séc. XVI. Mas, é melhor deixar Deus cuidar disto. Cabe-nos orar e ensinar a Palavra, o quanto pudermos.

24.  Como o Reverendo vê a tentativa de reavivar o anglicanismo reformado no Brasil,e como ele vê o movimento neo-puritano?

 Rev. Augustus Nicodemus: Não estou a par deste movimento entre os anglicanos no Brasil, mas saber disto me alegra. Anglicanos reformados como John Stott, J. I. Packer, J. C. Riley e outros publicaram muito material bom. Seria bom ver outros como eles em nossos dias. Sobre o movimento neopuritano, a IPB já tomou uma posição em que considera as práticas neopuritanas como estranhas em seu meio.



Considerações finais:

Agradeço imensamente pela solicitude dispensada a nós, desta nobre intenção de propormos uma reflexão sobre a Igreja moderna e seus rumos, e sendo assim, de forma, muito Cristã e carinhosa o Reverendo Augustus Nicodemus Lopes, nos atendeu da melhor e mais solicita possível, agradeço a amada irmã Ivete Paixão, que de forma empenhada me auxiliou na busca pelas questões e participantes, e também, não posso deixar de agradecer imensamente a cada participante com suas duvidas, questões e diálogos propostos em forma de pergunta! desejo muito que todos possam ser
edificados e que juntos possamos refletir estes apontamentos teológicos para a igreja atual moderna!Boa leitura a todos! Graça e paz da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Cabeça da Igreja! 


18 comentários:

Juber Donizete Gonçalves disse...

Parabéns pela entrevista RÔ! Rev. Nicodemus é um dos pensadores evangélicos de referência em nosso
país. Os temas foram bem trabalhados.

Abraço.

disse...

Obrigada pastor Juber Donizete Gonçalves. Paz!!!

Revendo Ricardo Rodrigues disse...

Muito edificante. O reverendo sempre firme e coerente.

Revendo Ricardo Rodrigues disse...

Parabens Rô! Blog com conteudo é outra coisa.

David Revoredo disse...

Sensacional os comentários precisos do Rev. Augustus Nicodemus, ele sempre bem objetivo e claro em seus posicionamentos. Parabéns a Rô por essa entrevista Maravilhosa.

Deemetriounstad paiva filho disse...

Ótima entrevista! Considero mais edificante e erudita essa forma de expor ideias, ou seja, perguntas e respostas. Sobre o entrevistado, Professor Augustus Nicodemus, sobram elogios e , com certeza, fomos edificados com sua clareza nas respostas. Sobre o Anglicanismo Reformado no Brasil eu também vejo com bons olhos e acho que seria um eficiente meio de combater, se é que devo dizer assim, o movimento neo pentecostalista (teologia da prosperidade) em evidente crescimento no nosso país. Precisamos de mais líderes comprometidos com as Escrituras.

RENDA EXTRAORDINÁRIA disse...

EXCELENTE ENTREVISTA,
PARABÉNS!!!

wallace disse...

Novamente o Rev. Augusto Nicodemos reforça que as Igrejas Assembleias de Deus e as Igrejas Presbiterianas são irmãs e que se reconhecem como Igrejas Cristãs ! É uma pena que respostas tão sábias não sirvam como orientação para esses pseudo-cristãos que se dizem reformados e que dedicam dia e noite em atacar as Assembleias de Deus com a justificação de serem "Reformados", eis um mestre da IPB dizendo que este pretexto não faz parte do pensamento da IPB !

Robson Aguiar disse...

Gostei das perguntas minha amiga Rô, e também gostei das respostas do reverendo Nicodemus. Parabéns! Acho que tens vocação para repórter. rsrsrs

disse...

Com ele tudo fica mais fácil pastor Robson. Até no aeroporto ele respondia as perguntas e enviava. Que Deus o abençoe sempre!

Obrigada pastor Robson!

Pb Fernando disse...

Muito boa mesmo essa entrevista. Parabéns!!

..:::W. Judson :::... disse...

Li toda a entrevista e ficou ótima. De fato, Rev. Dr. Augustus Nicodemus é referência na América do Sul em teologia reformada e calvinismo. O Blog está ótimo e bem suprido de informações relevantes.

Parabéns RÔ!

W. Judson
IPB - Belo Horizonte

disse...

Obrigada W.Judson! Paz querido!

Oswaldo Paião disse...

Muito agradecido querida irmã e amiga Rô Moreira pelo convite para ler e opinar sobre essa histórica entrevista com nosso querido mestre Dr. Augusto Nicodemus. Quero elogiar a sinceridade e importância das questões formuladas, a coragem, o conhecimento e a piedade cristã do querido pastor Nicodemus, e sua sensibilidade, esforço, disposição, e dedicação incansável à esse tremendo ministério da informação. Um país sem informação livre e de boa qualidade não tem como pensar, refletir e buscar novos e melhores caminhos. E, a Palavra de Deus, é a fonte eterna da mais plena, pura e única capaz de saciar a nossa sede desértica de significância, sentido e realização, aqui e agora, e por toda a eternidade. Parabéns Rô por esse trabalho hercúleo e maravilhoso que você, o Dr. Augusto e todos os participantes nos proporcionam como Igreja de Cristo. Deus os abençoe ricamente, são os votos mais sinceros do meu coração. Oswaldo Paião

disse...

Obrigada pelo comentário Paião. Assino todas as suas folhas!!

Gladstonier disse...

Entrevista excelente.. O rev. Augustus Nicodemus é um dos maiores teólogos dos nossos dias e tem muita sabedoria, um conhecimento vindo de Deus, claramente. Parabéns a Rô, fez perguntas excelentes, respondidas brilhantemente pelo rev Nicodemus..

Eli Soares disse...

Belo trabalho.Fui ovelha de Augustus por longos anos.Tenho-o como referencial nas minhas bases teológicas,apesar de algumas divergências periféricas. Aprendi muito com ele e Minka.Saudades

Everton Da Silva Oliveira disse...

Parabens Ro! Otima entrevista,espero que a proxima seja com o Rev.Ageu.Abrcs fraternos.

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