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Os judeus não são um grupo monolítico. Ou: Quando o inimigo vem de dentro


O confronto em Gaza reacendeu o antissemitismo no mundo e muito já foi dito, inclusive aqui. Mas há uma obviedade que precisa ser lembrada: os judeus não representam um grupo monolítico. O próprio fato de Israel ser uma democracia plena, ao contrário do que ocorre em quase todas as nações islâmicas, mostra que há grandes divergências entre judeus também, com alternância de poder entre a esquerda e a direita.
Nem todos os críticos do atual governo de Israel, portanto, são anti-sionistas ou antissemitas. Aliás, é legítimo criticar o governo atual, e muitos o fazem com honestidade e boa intenção. O que não devemos é confundir críticas legítimas com ataques deliberados a tudo que Israel representa. Infelizmente, é o que ocorre com frequência, e a esquerda radical usa isso para condenar a própria sobrevivência do estado judaico – muitas vezes citando intelectuais judeus mesmo, para reforçar a imagem de que não se trata de antissemitismo.
Mas é completamente factível um judeu desprezar tudo aquilo que Israel representa. Afinal, boa parte do antiamericanismo terceiro-mundista é alimentado pelos próprios americanos, como Michael Moore. O fato de Noam Chomsky ser judeu e cuspir tanto em Israel, portanto, não diz nada sobre uma suposta legitimidade de seus ataques. Apenas mostra como o inimigo do povo judeu pode ser um dos seus, da mesma forma que há vários defensores de Israel, como esse que vos escreve, que não tem nem uma gota de sangue judaico nas veias.
Pensei nisso ao ler a coluna de Oded Grajew na Folha hoje. Um judeu, e um ícone da esquerda romântica (e perigosa), aquela do Fórum Social Mundial que ele ajudou a criar. Grajew é um saudosista dos kibutzim isralenses, cuja utopia não conseguiu parir um modelo bem-sucedido nem sustentável, conforme já comentei aqui com base em livro de Amós Oz. Uma visão romântica de mundo igualitário que, na prática, preserva os mesmos defeitos da natureza humana, sem estimular suas virtudes.
Mas para Grajew, que foi fundador de uma empresa conhecida (e lucrativa) de brinquedos no Brasil, o problema de Israel é o capitalismo, a economia de mercado, o sucesso material, tudo isso que teria desvirtuado seu povo da solidariedade, aquela que, como “sabemos”, só existe em comunidades coletivistas e, de preferência, sem propriedade privada. Se ao menos Israel fosse mais solidário com seus vizinhos…
E eis a receita que o autor judeu parece propor: que Israel ofereça a outra face aos terroristas que desejam sua destruição. Israel é o mais forte, e deve dar o exemplo: não deve revidar. Não deve agredir, nem quando agredido. Deve enaltecer a solidariedade. O que isso significa, na prática, não sei dizer. Talvez Bibi devesse chamar os líderes do Hamas para um gostoso chá das cinco, e em seguida os convidar para um refrescante mergulho no mar, tudo ao som de músicas românticas. A paz seria inevitável…
Claro, estamos diante de um discurso sensacionalista, demagógico, romântico, feito sob medida para a plateia. Ninguém em sã consciência acha que “mostrar solidariedade” representa efetivamente o caminho para a paz ou a sobrevivência de Israel, não enquanto do outro lado estiver um grupo terrorista como o Hamas, ansioso por nada menos que sua completa destruição.
Quem apela para uma receita dessas, ou não quer de verdade que ela seja seguida, e demonstra apenas hipocrisia, ou quer algo muito pior, que é a desgraça de Israel. Mesmo que seja um judeu. Há gente que odeia a própria “raça”, ora bolas! Muitas vezes os inimigos vêm de dentro do portão…
Rodrigo Constantino

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