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Mulheres de sucesso abandonam carreira para cuidar da casa




Elas são estudadas e foram criadas para serem bem-sucedidas em suas profissões. Ocuparam cargos renomados nas empresas e mostraram que são competentes. Mas perceberam que a verdadeira felicidade estava em cuidar da casa e dos filhos

A engenheira Paola Cristina Cola, de 40 anos, foi educada para ser uma típica mulher do século XXI. Estudou inglês, cursou engenharia, casou e fez mestrado. Como profissional, construiu uma carreira sólida, chegando ao cargo de gerente sênior de uma empresa de satélites com sede no Rio de Janeiro. Há nove anos, no entanto, parou tudo para ser... dona de casa. Descobriu que sua felicidade estava em cuidar dos filhos.

“Meu marido tinha vontade de voltar a morar em Vitória e eu não aceitava devido à minha carreira. Foi quando, durante a licença-maternidade da minha segunda filha, em 2004, resolvi pedir demissão. Aqui começamos uma nova vida. Eu cuidando das crianças, e ele focado no trabalho”, lembra.

Paola faz parte de uma corrente de mulheres estudadas que foram criadas para serem bem-sucedidas em suas profissões. Ocuparam cargos renomados em empresas e provaram que são competentes. Mas abriram mão da carreira de sucesso para cuidar da casa e dos filhos. “Ouvi de tudo. Desde: ‘Você não vai se adaptar’ ao ‘Louca, estudou tanto e agora vai emburrecer’”, lembra.

Paola não está só. Mais da metade das brasileiras (55%) que têm filhos e trabalham fora gostariam de largar o emprego e passar todo o tempo com as crianças, segundo a pesquisa Mães Contemporâneas/2013, do Ibope. O número é menor entre as mulheres da classe A (45%). Para 68% das entrevistadas, é difícil conciliar maternidade, trabalho e casamento.

Conseguir dar um tempo no emprego e se dedicar à família é algo que está ligado à classe social e ao tipo de trabalho de cada uma. Para Angelita Scardua, psicóloga especializada em felicidade e desenvolvimento adulto, existe, sim, em algumas camadas da sociedade, um movimento de mulheres que decidiram retomar uma vida doméstica. “Quando as feministas queimaram sutiãs, em nome da libertação, era outro cenário. Naquele tempo as mulheres tinham apenas duas opções que era casar e ter filhos, ou ficar solteira e cuidar dos pais. Então parecia que as possibilidades que os homens tinham eram melhores, que o mundo deles era um paraíso. Por isso elas quiseram tanto conquistar o espaço masculino, que não é tão glamouroso. Existe competição, desrespeito e sofrimento. O preço a se pagar é caro”, explica.

Vale a pena?

As mulheres também passaram a perceber que existe uma pressão psicológica pelas decisões tomadas. “Algumas se perguntaram se realmente vale a pena abrir mão de presenciar o crescimento do filho em nome da competição no mundo exterior. E algumas, principalmente na faixa dos 35 e 40 anos, perceberam que não vale. Com isso, surge o movimento das mulheres que preferem fazer atividades em casa”, explica Angelita.

Foi o que aconteceu com a nutricionista Luan Silva Teixeira Carvalho de Fonseca, 35 anos. Depois de dez anos de carreira, a coordenadora de Nutrição de um grande hospital, e chefe de 50 funcionários, deixou o emprego para cuidar do filho. “Achei que havia chegado ao máximo da minha carreira, não queria mais. Larguei tudo”, conta. Algumas pessoas também foram contra a decisão de Luan, inclusive gente da família. “Minha mãe disse que não havia criado uma filha para ser sustentada pelo marido”.

Para a psicóloga e escritora Cecilia Russo Troiano, autora do livro Vida de equilibrista – Dores e delícias da mãe que trabalha (Cultrix), esse é um movimento que ocorre geralmente nas famílias com poder aquisitivo mais alto, que podem fazer essa escolha. “As mulheres chegaram lá, provaram que têm todas as condições de assumir responsabilidades e executar um bom trabalho. E, agora, começam a olhar para o ‘outro lado’ e sentem que há ganhos também em estar mais próximo da família, dos filhos e da casa. Elas não precisam mais provar sua capacidade e fazem um movimento voluntário de mudança, em busca de maior contato com a família”.

Cecília explica ainda que algumas mulheres voltam pra casa porque não encontraram condições ou apoio suficiente pra conseguir equilibrar carreira e vida familiar. “As demandas do lado do trabalho estão comprometendo aquilo que elas consideram razoável, seja pelo número alto de horas, muitas viagens ou pressão. Também é o caso das mulheres que contam com pouca ajuda de outras pessoas, como, por exemplo, do marido. Essas são praticamente expulsas do mercado e voltam pra casa com a certeza de que a compatibilidade carreira/família não é possível”, ressalta.

Largar o emprego e voltar para o lar não tem nada a ver com submissão ao homem. Até porque as mulheres que estão tomando essa decisão não são como as antigas donas de casa, conhecidas como Amélia, personagem central da música de Ataulfo Alves e Mário Lago. “Ela não aceita receber ordens porque sabe do valor de sua contribuição para o sucesso da família”, avalia Cecilia Russo.

Mas a ideia de abrir mão de trabalhar fora para se dedicar à casa e à criação dos filhos, deixando para o parceiro a missão de ir buscar o dinheiro, ainda gera incômodos em muitas pessoas. “O pensamento ainda é masculino. Resistimos muito à ideia de que é possível ter sucesso e realização se dedicando à vida doméstica. Para muitos, o mundo lá fora é mais relevante e importante”, ressalta Angelita Scardua. Se elas lutaram tanto para ocupar cargos de chefia, porque, agora, o bom é voltar para casa? Conheça a história da nutricionista Luan. 

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Informação do Jornal da Cidade