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31 de janeiro de 2015

Assembleiano e calvinista convicto: uma entrevista com Geremias do Couto

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Ontem publicamos uma entrevista com o teólogo Silas Daniel, 
como um arminiano convicto, sobre a ascensão do Calvinismo 
nas Assembleias de Deus e outros assuntos correlatos [leia aqui
e hoje leremos outro ponto de vista sobre a mesma questão.

O objetivo dessas entrevistas é fomentar um debate sério, com nível 
elevado e sem o calor irracional característico em muitas redes pela internet
É certamente um momento novo nas Assembleias de Deus, um tempo
de discussão entre posições antagônicas, mas sempre com uma postura 
de cortesia.  O Blog Teologia Pentecostal espera que o mesmo tom 
de civilidade  dos entrevistados se mantenham entre os leitores dessas matérias, 
independente da posição assumida. O meu desejo, como membro desta 
denominação, é que os debates dentro dela não sejam sobre mesquinhez 
disputas de poder, mas sim sobre assuntos importantes da teologia, 
tradição e ética. Há inúmeros debates que necessitam entrar em nossa pauta,
inclusive  a “mecânica da soteriologia”. 
Não é uma conversa trivial, desnecessária, como muitos numa 
pseudoespiritualidade tentam passar, mas é essencial para o
amadurecimento teológico da denominação.

Hoje o teólogo Geremias do Couto nos concede uma entrevista sobre o impacto 
do crescente calvinismo nas Assembleias de Deus e entre pentecostais de
maneira geral, normalmente identificados com o Arminianismo. 
Ele conta a própria experiência como um pentecostal, pastor assembleiano e 
calvinista convicto. Como será essa relação?

Geremias do Couto em palestra.
 Um dos poucos pastores assembleianos de expressão nacional assumidamente calvinista.
Geremias do Couto é pastor na Assembleia de Deus em Teresópolis (RJ),
mestre em teologia pelo conceituado Gordon–Conwell Theological Seminary 
(GCTS) onde foi aluno do conhecido exegeta assembleiano Gordon Donald Fee,
autor do livro “A Transparência da Vida Cristã” e coautor do obra “Teologia
Sistemática Pentecostal”, ambos publicados pela CPAD 
(Casa Publicadora das Assembleias de Deus).
Foi um dos editores da famosa Bíblia de Estudo Pentecostal (BEP) 
do norte-americano  Donald Stamps. Couto também presidiu o
Projeto Minha Esperança Brasil da Associação Evangelística Billy Graham.

Blog Teologia Pentecostal: Como pastor das Assembleias de Deus,
conhecido escritor entre os assembleianos e de uma família de
tradição pentecostal, como foi aderir ao Calvinismo? 
Qual a causa e a circunstância dessa guinada teológica?

Geremias do Couto: Creio que a expressão “aderir” é muito simplificadora, 
sobretudo para quem constrói a sua história de vida à luz da coerência.
Isso foi mais resultado de um processo iniciado ainda na minha adolescência 
do que uma mudança propriamente dita. Sempre fui questionador e ledor
voraz desde quando ainda era criança.
Fui da época em que se marcavam os versículos a lápis de cor durante a leitura. 
Mantenho ainda o mesmo hábito.

Embora se diga que a AD seja tradicionalmente arminiana, pelos muitos 
de seus escritos em nossos órgãos oficiais, na prática, na rotina dos nossos
púlpitos, regra geral, a verdade é que sobrepujava uma tendência para o 
semipelagianismo, sem que os pastores soubessem até o que isso
significa. É só nos lembrarmos dos antigos “cultos de doutrina”, onde o
que menos tínhamos era doutrina, mas a insistência na pregação dos usos
e costumes, de forma opressora, com o risco de “perder” a salvação, 
se incorrêssemos na quebra de uma daquelas regras, mesmo que fosse 
jogar bola de gude ou soltar pipa. Cresci nesse ambiente emque 
durante o dia me via “perdendo” a salvação várias vezes, com drama de 
consciência, pois não conseguia cumprir à risca o que era necessário para
manter-me salvo. A noite, tentando dormir, sofria com medo de ir para 
o inferno, 
se morresse, por causa das falhas cometidas.

A primeira vez em que se ensinou sobre a diferença entre doutrina
e costumes em nossa igreja foi através do pastor Antonio Gilberto.
Eu tinha por volta de 13 anos. Nos dias seguintes foi só confusão. 
O ministério foi até reunido, de forma protocolar, para discutir a
questão. Para mim, no entanto, tratou-se de um divisor de águas 
até porque, em conversa particular com o conhecido mestre, enquanto 
almoçava com ele no restaurante, pude lhe expor um problema que 
então me atormentava: a masturbação. Ali, com a sua sabedoria, 
começou a
descortinar-se para mim, como numa penumbra, o sentido da verdadeira
salvação. Mas se contasse o problema para um dos presbíteros da igreja, 
seria sumariamente excluído da igreja. Pelo menos era o que eu pensava
pela forma como éramos ensinados a viver a vida cristã. 
Ora, isso nunca foi arminianismo, mas  com bastante complacência
identifico como semipelagianismo: a salvação obtida pelo esforço humano.

Com o tempo passei a ter contato com as doutrinas da graça, a ler os
mesmos livros citados pelo pastor Silas Daniel em sua entrevista, além 
de alguns outros, a fazer perguntas e mais perguntas, em diálogos
imaginários com os autores das respectivas obras, com lógica e
método na exposição do raciocínio, sem nunca abandonar a Bíblia,
até que abraçar a fé reformada tornou-se algo natural,
sem que houvesse necessidade da qualquer ruptura “explosiva”.

TP: Na sua opinião, quais são os motivos que levam
inúmeros jovens assembleianos a abraçarem o 
Calvinismo e a cosmovisão presbiteriana aqui no Brasil?

GC: Algumas razões já apresentei de forma implícita na resposta anterior, 
como a predominância do semipelagianismo em nossos púlpitos.
Esse era o “arminianismo”que nos ensinavam. Mas convém sinalizar
que a liderança assembleiana, com as honrosas exceções de praxe, 
sempre teve uma atitude refratária à educação teológica formal. 
Temos de ser realistas e encarar o fato sem maquiagem. 
Não éramos estimulados ao estudo acadêmico.
João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos pagaram elevado 
preço para implantar o IBAD – Instituto Bíblico das Assembleias 
de Deus, a primeira instituição do gênero nas Assembleias de Deus,
localizado em Pindamonhangaba, SP. É só folhear as páginas do
Mensageiro da Paz do período, que serão encontrados
artigos contrários e favoráveis ao ensino formal. Aliás, essa era
uma qualidade que precisa ser exaltada. O Órgão Oficial assembleiano
abrigava esse debate. Hoje, infelizmente, isso não mais acontece.

Outra questão a ser considerada é que a literatura pentecostal 
assembleiana, no Brasil, também era parca. 
Tínhamos poucos livros, a maioria de natureza devocional,
mas praticamente nenhum de caráter acadêmico.
Na verdade, uma de nossas maiores igrejas não adotava sequer a 
revista da Escola Dominical. A primeira obra sistemática de que
me lembro, traduzida do inglês, foi “As Grandes Doutrinas da Bíblia
”, de Myer Pearlman, que se tornou o livro de cabeceira dos pastores 
assembleianos. Já aqueles que conheciam o idioma de Shakespeare 
eram privilegiados e se tornavam a nossa fonte de conhecimento,
visto que não tínhamos acesso a essas fontes primárias.
Mas como os tempos mudam, houve também mudanças positivas, 
com a chegada dos seminários, faculdades teológicas, a publicação
abundante de livros, as redes virtuais etc. Até mesmo a CPAD 
tornou-se a maior editora da América Latina, publicando também 
diversas obras de autores reformados, sem que eu tivesse qualquer 
influência nisso durante a minha gestão como Diretor de Publicações.
Elas começaram a ser publicadas em fase posterior.

No vácuo que acabei de mencionar, de um lado, e a explosão das
fronteiras da educação teológica formal, de outro, além da inexistência 
de obras em português tratando do arminianismo de forma 
consistente, nossos jovens começaram a ter contato com a literatura e a
teologia reformadas, até mesmo através de professores de origem
reformada em cátedras de nossos seminários e faculdades, criando 
assim todas as condições para o surgimento desse interesse. 
Não acredito que tenha sido algo orquestrado e desconheço 
que haja pessoas fazendo proselitismo, querendo “calvinizar” 
as Assembleias de Deus. Isso é forçar a barra. Mas aonde chego, 
encontro jovens e pessoas já maduras na idade, com boa formação, que 
acreditam na doutrina reformada, sem qualquer vestígio de proselitismo, 
e não criam nenhum problema nas igrejas onde professam a fé.
Não acho que isso tenha sido um mal. Ao contrário, isso trouxe o
nosso meio de forma mais efetiva o “espírito”bereano” de cotejar a
Escritura em busca de seu respaldo (ou não) para o que está sendo ensinado.
Vejo também de modo muito positivo a aproximação entre a fé reformada 
e a fé pentecostal, partilhando a mesma trincheira em defesa das 
verdades do Evangelho.

TP: É visível uma reação arminiana entre os pentecostais. 
Ainda pequena, é bem verdade, mas com um potencial fantástico. 
Todavia, seria uma
reação tardia?

GC: A rigor, a reação arminiana entre os pentecostais é tímida,
na defensiva, a não em discussões de grupos no Facebook, onde mais
predomina a carnalidade do que um debate sério e consistente entre 
as duas correntes. O próprio pastor Silas Daniel, na entrevista concedida
ao blog, afirmou que sua manifestação era particular, embora contasse
com a aprovação da direção superior da CPAD por tratar-se de uma
revista institucional destinada aos obreiros da igreja. 
Mas é bom que essa reação aconteça e posso analisá-la sob duas perspectivas:

  1. Se o arminianismo for ensinado tal como Armínio o formulou
  2. ou com as características wesleyanas, isso permitirá que muitos 
  3. pentecostais percebam o quão diferente é do semipelagianismo 
  4. que ainda predomina em muitos púlpitos assembleianos. Quem fez 
  5. essa excelente observação foi o irmão Clóvis Gonçalves, a quem considero 
  6. o melhor expoente da fé reformada no meio pentecostal. 
  7. Ao descobrir isso, verão também que o calvinismo 
  8. não é o tal “monstro” que alguns tentam criar em suas cabeças.
  9. A outra perspectiva é que se o intuito for cercear a liberdade
  10. cristã ou promover uma “caça às bruxas”, a reação já nasce com 
  11. espírito carnal e de forma tardia, pois as Assembleias de Deus, 
  12. atualmente, enfrentam sérios problemas institucionais, de gravíssima 
  13. monta, diga-se de passagem, além de estarem extremamente 
  14. fragmentadas, que lançar um debate com esse propósito acabará 
  15. por dilacerar o pouco de unidade que resta. Goste-se ou não, 
  16. o número de reformados, hoje, é muito grande no meio assembleiano. 
  17. Isto sem qualquer proselitismo.

TP: Alguns pastores assembleianos reagem 
ao Calvinismo tratando-o  como "vento de doutrina",
"novidade perniciosa", "heresia" e  outros adjetivos não
amigáveis. Como você responde aos seus colegas de ministério?

GC: Radicais há de ambos os lados. Sob o guarda-chuva do calvinismo abrigam-se 
diferentes tendências. O mesmo pode-se dizer do arminianismo. Até o Teísmo Aberto
encontra guarida sob o sistema, como deixa explícito Roger Olson em seu livro: 
Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, e teve como um de seus principais expoentes 
Clark Pinnock, um dos autores da obra: “Predestinação e Livre-Arbítrio”, ao lado de
Norman Geisler. Mas neste ponto, prefiro ficar com a posição que o pastor Silas
Daniel expressou em sua entrevista, ao afirmar que o calvinismo honra a Deus tanto
quanto o arminanismo – ele enumera as razões – e que em suas leituras de obras
reformadas sempre apreciou a “paixão por Deus, pela pureza, pela santidade de Deus,
pelo viver para a glória de Deus” de seus autores.

Só me soa contraditório, depois dessa afirmação extremamente conciliadora, propor 
que os calvinistas pentecostais deixem a Assembleia de Deus e busquem outra 
denominação, onde a fé reformada seja o cerne da doutrina. Aí acabou por jogar fora
a água da bacia com o bebê e tudo. De minha parte, sempre cri que reformados e 
arminianos podem dar-se as mãos como cristãos, sem contradição alguma, sem
ataques e agressões mútuas, que nada engrandecem a Deus e edificam o Reino. 
A título de ilustração, ontem mesmo vi no Facebook um arminiano chamando a
fé reformada de demoníaca, enquanto um calvinista usava o mesmo epíteto para o
calvinismo. Há necessidade disso? É cristão agir dessa forma? Se ambas honram 
a Deus – repito – por que se digladiar tanto ao invés de lutarmos em defesa 
do evangelho.
Fico com um pé atrás se essa reação “particular” não estaria sendo movida por 
segundas intenções, uma espécie de cortina de fumaça para encobrir graves 
problemas que a instituição assembleiana enfrenta.

GC: Como calvinista convicto você sempre mantém uma postura 
conciliatória.  Sendo assim, qual ponto positivo você poderia
apontar no Arminianismo?

GC: Se estamos falando de arminianismo clássico ou wesleyano, encontro os mesmos
pontos positivos que o pastor Silas Daniel encontrou na fé reformada. Mas em se 
tratando da “mecânica da salvação, prefiro ficar com a essência do aforismo 
peculiar ao veterano pastor José Isaías Neto, vinculado ao Ministério do
Belenzinho, em Sorocaba, SP, que do alto dos seus 80 anos, grande parte deles
vivido ao lado de Cícero Canuto de Lima, assim afirma: “Não sou calvinista , 
nem preciso de Calvino para ir ao céu, mas em questão da salvação Calvino estava
100 % certo”.

TP: E a Assembleia de Deus é tradicionalmente arminiana, embora 
lhe falte a formalização de uma confessionalidade. É possível ser
calvinista e assembleiano? Não seria uma distorção de identidade?

GC: Já expressei o meu ponto de vista sobre a questão logo na primeira pergunta.
Embora tradicionalmente arminiana, o que sempre predominou nos púlpitos da AD,
regra geral, foi o semipelagianismo. Dito isto, vamos a algumas indagações:
todos os arminianos são pentecostais? São todos cessacionistas? Ora, assim
como há arminianos cessacionistas e arminianos pentecostais, não vejo dificuldade
alguma em que haja calvinistas pentecostais, assim como há calvinistas cessacionistas. 
Em relação à identidade assembleiana, cabe refletir: qual? A do reteté, com suas 
expressões cultuais estranhas ao genuíno pentecostalismo, como descrito
em 1ª Coríntios 12, 13 e 14? A do neopentecostalismo, que grassa em nosso meio
a olhos vistos, com a introdução de ritos judaicos na liturgia? A do liberalismo, 
que já encontra eco em diversas cátedras de alguns dos nossos seminários? 
A do engessamento institucional e político-religioso, que tem devastado a unidade 
da igreja em nosso país? Ora, se o calvinismo honra a Deus, como bem expressou 
o pastor Silas Daniel, não vejo porque a presença de reformados na Assembleia
de Deus, que não vivem por aí a fazer proselitismo, possa ferir a identidade 
da denominação.

7 comentários:

georgino disse...

Execelente post rô,ainda mais que minha ex denominaçao éra a bléia rsr,vou salvar aqui e mostrar pra alguns manos bleianos,eles vao se moreder rsrs... alex martins

evandro Cavalcante disse...

Esse pastor tem e-mail,Tem face, poderia me passar Rô? por favor

evandro Cavalcante disse...

Ele tem face e-mail ? Mande por favor Rô.

JAMIERSON OLIVEIRA disse...

Vc pediu autorização para reproduzir a entrevista exclusiva do blog Teologia Pentecostal do Gutierres Fernandes?

disse...

Tem sim Evandro Cavalcante. Eis o face do pastor e amigo meu.

https://www.facebook.com/geremias.santoscouto?fref=ts

disse...

Jamierson quem te deu autoridade sobre algum texto de algum blog na blogosfera? Pelo que sei esta aberta a entrevista de um amigo meu, muito amigo diga-se de passagem e toda citação de materia, que seja pública, é livre, desde que citada a fonte e os créditos da matéria.

Marcelo Medeiros disse...

Infelizmente percebo que as AD não possuem indentidade doutrinária. Primeiro pelo público hetrogêneo oriundo de outras igrejas e confissões. Segundo pela forte influência do evangelicalismo movimento este que excluí a reflexão teológica de seu seio. Minha conclusão é a de que mesmos os líderes pentecostais tendo se declarado "arminianos", na verdade nunca refletiram a respeito de tal posiciinamento teológico.

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