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10 de fevereiro de 2015

Ofertas voluntárias e o Livre-arbítrio - Vincent Cheung

Em contraposição à declaração do tipo: 
"Nenhum lugar da Bíblia afirma
 que o homem possui livre-arbítrio",
 algumas pessoas respondem dizendo
 que a Bíblia menciona 
"ofertas voluntárias"
1 em diversos lugares, e a partir
 dessa observação (freewill offerings) 
alegam que a Bíblia, portanto, ensina
 o livre-arbítrio ou que o homem tem 
livre-arbítrio. (Na NIV [New 
International Version], veja: Êxodo 
35:29, 36:3; Levítico 7:16, 22:18, 21,
 23, 23:38;  Números 15:3, 29:39; 
Deuteronômio 12:6, 17, 16:10; 
2 Crônicas 31:14; Esdras 1:4, 6, 2:68, 3:5, 7:16, 8:28; Salmos 54:6; 
Ezequiel 46:12;  Amos 4:5).2

Essa é uma das objeções mais estranhas contra a negação do
 livre-arbítrio,  e embora já a conhecesse havia alguns anos, 
jamais lhe  dei uma resposta por escrito.
 O motivo é seu descabimento: sinto-me embaraçado até mesmo para
 mencioná-la ou levá-la a sério e escrever a seu respeito. Todavia, tenho 
sido perguntado de vez em quando sobre este assunto por cristãos que 
desconhecem a melhor forma de replicar a objeção, aos quais respondi em
 particular. E também pelo fato de o assunto ter sido levantado, por pelo 
menos duas vezes, em meses recentes, suponho que mais pessoas do 
que eu imaginava tenham dificuldades com essa questão; decidi, então,
 apresentar minha resposta aqui.


A objeção está atrelada a uma expressão comum da língua inglesa 
{freewill]; entretanto, termina aqui a semelhança entre o tópico
 (da soberania divina e  a responsabilidade humana) e os versículos 
citados com mais freqüência.
 O termo nem sempre é traduzido por "ofertas de livre vontade" 
segundo as versões NIV [New International Version] e a NASB
 [New American Standard Bible], mas em passagens onde elas 
apresentam essa tradução, a KJV [King James Version]
 verte algumas delas por "ofertas livres", "ofertas 
voluntárias" e "ofertas espontâneas".

A liberdade é relativa — você é livre de algo. Dizemos que 
o homem não possui livre-arbítrio porque ao discutir a soberania 
divina e a responsabilidade  humana, lidamos com a relação 
metafísica entre Deus e o homem. 
De forma mais específica, a questão é de que modo e qual 
a extensão  do controle divino exercido sobre os pensamentos
 e as ações dos  homens. Dessa forma, nesse contexto, quando
 perguntamos se o  homem dispõe de livre-arbítrio, perguntamos
 se o homem é livre de Deus ou do controle de Deus em qualquer 
sentido. Pelo fato de o ensino bíblico ser que Deus exerce controle
 constante e absoluto sobre todos os  pensamentos e as ações dos 
homens, a conclusão necessária é que o ser humano não possui 
livre-arbítrio. Sua liberdade é zero em relação a Deus.

Deus é o ponto de referência absoluto; portanto, dizer que o 
homem não está  livre de Deus eqüivale a dizer também que 
o ser humano não dispõe de  liberdade no sentido absoluto da palavra.
 O homem é livre num sentido relativo, ou livre em relação a outros seres 
e coisas que não Deus (pessoas, objetos, forças etc), e isso é um outro 
assunto, que não diz respeito, necessariamente, à discussão sobre a 
soberania divina e a  responsabilidade humana. Contudo, em nome
 da inteireza, podemos afirmar que o homem é livre, em certo sentido, 
em relação a outras criaturas. 
Nenhum ser humano pode me controlar do modo ou com 
o intensidade  sequer aproximada do controle divino absoluto 
sobre meus pensamentos  e minhas ações. Mas isso não significa
 que eu disponha de "livre-arbítrio".
 Repetindo: no contexto atual falamos sobre nossa relação com
 Deus, e não  com outras criaturas.

Este é o ponto onde o calvinismo popular confunde a questão.
 Ao afirmar a liberdade em relação a outras criaturas e forças externas e,
 então, ligá-la à  nossa responsabilidade absoluta para com Deus. 
A verdade é: se responsabilidade pressupõe liberdade, então nossa
 responsabilidade  absoluta para com Deus pressupõe a liberdade 
absoluta de Deus. 
Mas então, se nossa liberdade de Deus é absoluta, por que ainda somos 
considerados responsáveis por ele? Todavia, de fato, a responsabilidade 
não pressupõe liberdade, e mais do que isso, a responsabilidade pressupõe
 o seu oposto. Somos considerados responsáveis por Deus precisamente
porque não estamos livres dele. Essa confusão, suponho, é uma das 
razões pelas quais alguns calvinistas falham em discernir o sofísma
 inerente à objeção tratada aqui. Eles falham em perceber que a liberdade 
é um termo relativo, que não somos livres em relação a Deus, e que os 
versículos citados por nossos oponentes referem-se a uma liberdade que
 não é relativa a Deus, mas a alguma outra coisa.

A "oferta voluntária" é livre porque a Lei não a exigia, como acontecia com
 outras ofertas regulares e ocasionais, de forma que a liberdade é com 
relação à Lei. O caráter voluntário, espontâneo,3 dessa oferta é somente 
nesse sentido. As pessoas eram "livres" para dar ou não dar a oferta sob a
 perspectiva legal ou cerimonial. Esses versículos não tratam da 
perspectiva metafísica, portanto, não podem nem estabelecer nem refutar
 a liberdade humana. Mas quando nos referimos ao "livre-arbítrio" 
no contexto da soberania divina e liberdade humana, tratamos sobre a
 questão se somos livres de Deus — e isso é metafísica. 
Indagamos se Deus  tem controle completo sobre pensamentos, 
ações e circunstâncias dos homens. 
E Deus realmente o possui; portanto, o homem não dispõe 
de livre-arbítrio e de nenhuma liberdade com relação a Deus. 
Num caso, falamos sobre a relação  do homem (de obrigação) 
para com a lei, e no outro, sobre a relação (de causa e efeito)
 do homem  com Deus. Apenas o vocábulo inglês parece ser o 
mesmo nos dois casos, mas isso não acontece em todas as
  ocorrências dela nas versões inglesas. Tratam-se, de fato, de dois
 objetos de avaliação diferentes.

Há passagens que ensinam a mesma liberdade relativa sem usar esse
 termo. Aqui está um exemplo: "Ela [a propriedade] não lhe pertencia? 
E, depois de  vendida, o dinheiro não estava em seu poder? 
O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens,
 mas sim a Deus" (Atos 5:4).
Quando Pedro diz que a propriedade "lhe pertencia", e que o
 dinheiro estava  "em seu poder", ele se refere à posse da propriedade 
em relação ao próprio 
Pedro e aos outros cristãos — isto é, Ananias não tinha que vender a
 propriedade ou dar o dinheiro para eles. Mas essa propriedade ou 
liberdade relativa não dizia respeito ao determinismo divino — são
 duas questões diferentes. Pedro não afirma que Ananias tinha a 
posse da  propriedade ou do dinheiro em detrimento de a Deus,
 apenas seu direito, ou liberdade, de reter a propriedade ou o
 dinheiro de outras pessoas, e isso a  partir de uma perspectiva legal
 ou moral, não metafísica. 
Pedro certamente não diz que Ananias poderia reter a propriedade ou
 o dinheiro de Deus, em sentido metafísico! Mas é sobre metafísica 
que lidamos ao discutir sobre o determinismo divino.



Outro versículo algumas vezes citado é Filemom 1:14: "Porém não vou fazer
 nada sem a aprovação de você, para que o favor que eu lhe estou pedindo
 não seja feito por obrigação, mas por sua livre vontade" 
{Nova Tradução na Linguagem de Hoje).4 Aha! Paulo diz que 
Filemom tinha livre vontade (livre-arbítrio)! Mas esse versículo é ainda
 mais irrelevante do que os outros: nele os envolvidos são mencionados 
explicitamente. Paulo diz "não vou fazer" (Paulo) nada sem a aprovação 
"de você" (de Filemom). Ele não queria que Filemom agisse por "obrigação", 
mas essa obrigação é com relação a Paulo, e também o chamado
 "livre-arbítrio". A liberdade é em relação a Paulo. O versículo se refere
 ao relacionamento social entre duas criaturas, Paulo e Filemom, mas não
 diz nada sobre a relação metafísica entre Deus e Filemom.

O calvinismo popular falha em responder cabalmente ao pensamento
 antibíblico de nossos oponentes no que diz respeito à questão da
 liberdade humana. Por essa razão, é incapaz de demonstrar de forma clara
 a diferença e evitar a confusão. Ele ensina que a soberania divina e a 
liberdade humana são "compatíveis" porque o homem sempre age de 
acordo com seu desejo mais forte, jamais compelido por Deus ou qualquer 
outro, a pensar ou agir contra sua vontade. Mas se, como a Escritura 
ensina, o controle de Deus sobre o homem é tão imediato e exaustivo, 
controlando diretamente a vontade e o desejo humanos, então o homem
 não é livre de Deus, embora sua vontade nunca seja forçada contra 
seu desejo. 
O ser humano nunca é forçado não por ser livre, mas por não ser livre de
 modo que é tão completamente controlado por Deus, que até mesmo sua
 vontade e desejo são controlados por ele, não restando nada para Deus forçar.

Mas eu já dissera tudo isso antes; terminarei, portanto, com minha
 doxologia  usual: Deus é soberano e o homem não é livre. 
Bendito seja o nome do Senhor!

Josemar Bessa.

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