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18 de junho de 2015

O desmoronar de um ministério

Pastor Marinésio da Silva Soares liderava uma igreja promissora. Inaugurou em 1978, 

o templo sede da AD em Campinas considerado "um dos mais belos e funcionais do Brasil". 

Politicamente mostrou força ao conseguir eleger seu genro, Manoel Moreira para deputado

 federal constituinte, e como consequência, sua família ascendia na sociedade.


Mas, a separação tumultuada da filha de Marinésio do então deputado Moreira se revelou
 um desastre para todos. As denúncias da "Musa" da CPI do Orçamento atingiram em
 cheio Manoel Moreira. Sua cassação seria inevitável, mas renunciou antes para evitar 
a perda dos direitos políticos. Contudo o interesse midiático em sua inusitada
 carreira política promoveu uma devassa em sua vida particular, onde se viu que, 
o humilde cabo da aeronáutica em pouco tempo se tornou um rico proprietário
 de mansões cinematográficas. Sua separação litigiosa igualmente recebeu destaque, 
pois afinal a sua "ex" agora revelava suas falcatruas nada evangélicas.

Como resultado desse revés familiar, acusações mútuas de infidelidade foram a tônica
 nos jornais e revistas. Em consequência dessa "lavação de roupa suja" em público,
 o próprio pai a disciplinou da igreja. Na matéria da Folha de SP (18/12/1993), 
Marinalva teria declarado que "seu pai decidiu pela suspensão para poupá-la das
 pressões que vinha sofrendo dentro da igreja". E não só isso. Segundo ela, a decisão 
envolveria também "uma disputa pela coordenação das igrejas na região de 
Campinas", na qual o pastor José Wellington Bezerra da Costa estava tentando
 assumir a igreja.

É fato que, entrando em desgaste com seu eleitorado em Campinas (provavelmente
 por causa da separação com Marinalva), Moreira aproximou-se de José Wellington, 
e conseguiu apoio para sua reeleição fazendo dobradinha com Joel Freire, filho do 
líder da AD em São Paulo. Tal aliança se tornou problemática para Marinésio,
 pois começou a ser pressionado pela cúpula do Belenzinho. Segundo fontes, 
Manoel Moreira viabilizava recursos para trabalhos sociais do ministério paulista, 
e era um dos únicos obreiros a ser recebido pelo pastor Wellington sem necessidade
 de agendamento.


Marinalva: de Musa da CPI a pecadora

Com Moreira do outro lado da trincheira, Marinésio resolveu bancar a candidatura
 da filha. Confiante na fidelidade eleitoral de mais dos 20 mil membros da AD 
campineira, o veterano obreiro se lançou abertamente e sem nenhum pudor 
a caça de votos para Marinalva. Tanto que a Folha (04/10/1994) o descreveu
 como o seu "principal cabo eleitoral". Declarava abertamente que havia visitado
 "dezenas de igrejas fazendo campanha" para a filha. Acreditava que ainda desfrutava
 "de um grande conceito na sociedade".

Ledo engano. A "resposta" das urnas destruiu esse autoconceito de Marinésio. A filha, 
a quem apoiou de forma irrestrita, não conseguiu se eleger. Marinalva, mesmo com 
os holofotes da mídia em torno de si não conseguiu um lugar no legislativo federal.
 Conseguiu menos de 4 mil votos, restando a Marinésio somente apoiar o candidato
 Francisco Rossi ao governo do estado de São Paulo no 2º turno. Rossi chegou a
 visitar a AD em Campinas, mas foi derrotado pelo candidato do PSDB, Mario Covas.

Mas o que era ruim, infelizmente piorou, e muito. Meses depois, uma matéria de cunho 
sensacionalista de Veja (15/02/1995), revelava ao Brasil um enorme escândalo 
eclesiástico e político. Na matéria intitulada Marinalva a pecadora, a revista narrava
 para espanto de muitos, um golpe tramado contra a igreja para sanar dívidas da 
campanha eleitoral feitas pela candidata "evangélica". Segundo informações
 levantadas, ex senhora Moreira teria vendido até sua mansão com o intuito de pagar débitos milionários.

Em meio a crise, na tentativa de ajudar a filha, o veterano obreiro comunicou a igreja uma doação milionária de uma entidade evangélica americana no valor de 6,8 milhões de dólares. A doação seria através de um banco com sede na Costa Rica, e para receber o cheque (e a provável doação), era necessário remunerar primeiro os benfeitores. Esse adiantamento seria de 2 milhões de dólares em troca do cheque.

Todavia tudo se revelou um golpe. A entidade, o banco e a doação eram falsos. 
A única coisa verdadeira nessa história toda foi os 2 milhões de dólares que saíram
 dos cofres da igreja. Porém, os obreiros da igreja perceberam incoerências no processo, e
 investigações policiais comprovaram uma série de falcatruas, e de lances sórdidos 
para se angariar recursos de forma escusa. Com resultado, a igreja teve títulos protestados 
em cartório, e templos penhorados.


Congregações da AD em Campinas empenhorados

Em meio ao vendaval de denuncias, pastor Marinésio foi afastado da direção da igreja. 
Se o pastor José W. Bezerra da Costa buscava ocasião para lhe tomar o campo, a 
oportunidade se cristalizou. Afastado da liderança, Marinésio voltou a sua região de origem,
 vindo a falecer em 2014 na cidade de Natal (RN), aos 84 anos. Pastor José Wellington 
empossou então seu filho Paulo Freire da Costa no comando da igreja, onde permanece 
até os dias de hoje.


A triste história somente confirmou para muitos o que já se suspeitava: que as imbricadas
 relações entre a política partidária e famílias pastorais estavam (e estão) recheadas
 de interesses mesquinhos, desejos e negócios inconfessos, e de atitudes de fazer 
corar muitos "pecadores". Os fatos desse lamentável episódio ocorrido há 20 anos,
 ao que parece não serviu de alerta para que a denominação fizesse uma reflexão 
sobre suas práticas políticas. Na prática o que a liderança resolveu fazer de eficaz foi uma
 "operação borracha" no caso.

Ironicamente, Paulo Freire da Costa, o atual líder da AD em Campinas e sucessor 
de Marinésio, hoje acumula o cargo de pastor da AD em Campinas e de deputado 
federal. É de se perguntar como a igreja campineira viu mais essa empreitada política 
de um líder local? Ou interesses "maiores" se sobrepuseram a vontade dos membros?

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba:
 Encontrão Editora, 1994

Para maiores informações basta acessar os arquivos digitais da revista Veja e 
do jornal Folha de São Paulo. Muitos outros detalhes lá se encontram preservados para 
curiosos e pesquisadores da história assembleiana e evangélica em geral.


Este é o terceiro artigo, quem quiser saber mais leia o primeiro e 

segubndo artigo desta série.

Aqui.


1 parte http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2015/04/pastor-marinesio-o-comeco-do-fim.html

2 parte http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2015/06/o-desmoronar-de-um-ministerio.html


1 comentários:

ArquivoTV Monitoramento Digital disse...

Não dá pra ler todo o lado direito do texto, está cortado.

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