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Ministério da Cultura não estava a serviço da cultura, mas de um partido político-Desaparelhando o governo - EDITORIAL O ESTADÃO

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O Estado de S. Paulo - 19/05

Aos poucos, o governo do presidente em exercício Michel Temer está tentando reverter o
 gigantesco aparelhamento da máquina do Estado realizado pelo PT ao longo de mais de
uma década. As demissões já ultrapassam a casa das centenas, o que dá uma pálida ideia 
da abrangência do assalto petista ao poder.

Nem é preciso dizer que essas medidas saneadoras foram recebidas pelos simpatizantes 
do PT como uma afronta – e a máquina de propaganda petista, ainda muito afiada, está 
empenhada em transformar a faxina promovida por Temer em um atentado à “cultura” e
 aos “direitos sociais”, justamente as áreas cuja administração foi a mais aparelhada pelo

 partido – e assim, não à toa, se prestam à marquetagem fraudulenta que faz do PT o 
proprietário das classes pobres do País. O escândalo que alguns artistas estão fazendo 
para desqualificar Temer inclusive no exterior, para ficar somente neste exemplo 
embaraçoso, mostra bem a dificuldade que o presidente em exercício terá para retirar
 a administração pública de vez da órbita do PT e de seus simpatizantes e devolvê-la 
ao conjunto dos brasileiros.

A classe petista fez muito barulho com a decisão de Temer de fundir o Ministério da
 Cultura com o Ministério da Educação, rebaixando aquela pasta à categoria de Secretaria. 
Do ponto de vista da imagem política, foi um desastre que poderia ter sido evitado, pois 
alimenta a acusação de que Temer estaria interessado em retaliar a chamada “classe artística” 
porque esta se alinhou à presidente Dilma Rousseff e fez campanha contra o impeachment.

No entanto, noves fora o fato de que não existe essa tal “classe artística”, a não ser na cabeça de
 quem não consegue enxergar a sociedade como um conjunto de indivíduos, e sim como uma 
reunião de corporações com vocação estatal, a decisão de Temer foi essencialmente correta, 
porque a pasta da Cultura foi transformada pelo PT em um de seus principais feudos, espécie 
de ponta de lança da construção da imagem do partido como o único capaz de interpretar as 
aspirações nacionais.

A grande prova de que o Ministério da Cultura era apenas uma espécie de departamento de
 agitação e propaganda do PT foi dada quando funcionários da pasta receberam o novo 
ministro da Educação, Mendonça Filho, aos gritos de “golpista” e de “golpe não, cultura 
sim”. A limpeza promovida por Temer é portanto uma consequência natural da constatação 
de que a Cultura não estava a serviço do Brasil, mas de um partido político.

O mesmo se deu no caso da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Criada no governo 
de Luiz Inácio Lula da Silva, a EBC deveria servir como uma “instituição da democracia 
brasileira: pública, inclusiva, plural e cidadã”, como se lê em sua carta de intenções.
 Mas acabou se transformando em braço do lulopetismo. A necessidade do governo 
Temer de desaparelhar a EBC ficou evidente quando Dilma, às vésperas de ser afastada
 da Presidência, nomeou para presidir a empresa o jornalista Ricardo Melo, na certeza de 
que este seria aliado firme do PT na guerrilha comunicacional contra o governo interino. 
Temer exonerou Melo, que entrará na Justiça sob a alegação de que seu mandato não podia 
ser interrompido.

A luta contra a contaminação petista envolve muitas outras áreas do governo. Temer achou 
por bem, por exemplo, exonerar da presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
 (Ipea) o sociólogo Jessé de Souza. Na chefia de um órgão responsável por pesquisas que
ajudam a balizar importantes decisões de governo, Jessé havia dito que o impeachment era
 uma “mentira das elites” e que a crise econômica “foi produzida politicamente” por 
empresários.

Isso é só o começo. É muito provável que Temer tenha de ir ainda mais fundo se quiser extirpar
 o lulopetismo entranhado na administração federal. E ele tem de estar preparado para encarar o
 esperneio daqueles que, depois de apoiar de corpo e alma um projeto de poder que julgavam
 eterno, estão muito perto de perder a preciosa boquinha.
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