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O 20º aniversário do Massacre de Srebrenica- 8.000 homens e meninos mais velhos


Recentemente diversos veículos de mídia publicaram artigos sobre o 20º aniversário do Massacre de Srebrenica. Eu tratei de aspectos relevantes em políticas de gênero desse assassinato em massa no meu livro Um Apelo por uma Política de Esquerda de Homens (Hoffmann, A. (2014). Plädoyer für eine linke Männerpolitik. CreateSpace).
Em junho de 1995, o exército sérvio atacou a cidade de Srebrenica (/srebrenítsa/), no leste da Bósnia-Herzegovina, e massacrou sistematicamente 8.000 homens e meninos mais velhos. O exército sérvio foi responsável, portanto, pelo pior massacre desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Dois anos antes do massacre, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) tinha retirado milhares de civis da cidade sitiada.
Mulheres, crianças e idosos puderam ir embora nos comboios das Nações Unidas (ONU). Os homens adultos da população civil foram deixados, apesar de os responsáveis pela operação estarem plenamente cientes de que, em conjunturas como esta, a população masculina é quase sempre assassinada em massa. Homens de 15 a 60 anos que tentaram se esconder entre os grupos de refugiados foram removidos pelos responsáveis do ACNUR, que se recusaram a assumir a responsabilidade por sua proteção.
No ano de 1999, quatro anos após o massacre em Srebrenica, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para discutir a proteção de populações civis em zonas de guerra. Ainda que a maioria dos civis mortos em Kosovo fosse de homens, os delegados concordaram que mulheres e crianças têm direito especial ao apoio humanitário nesse contexto. Um estudo feito pela Human Rights Watch analisou 3.453 execuções no conflito de Kosovo e concluiu que homens compunham 92% das vítimas cujo sexo era conhecido. Dentre outras violações dos direitos humanos que afetaram vasta e predominantemente os homens estavam o sequestro e a tortura hedionda. Estas constatações foram confirmadas por relatórios sobre a situação dos Direitos Humanos em Kosovo feitos por outras organizações. Um auxiliar, que permaneceu num vilarejo, falou de um “planeta sem homens”, um mundo em que havia só mulheres e crianças. Os homens haviam sido expulsos ou mortos.
Quando Adam Jones, especialista em genocídio de gênero, entrou em contato com o presidente do Centro de Direitos Humanos da ONU para falar de suas preocupações com os homens que enfrentavam a morte no conflito de Kosovo, a resposta que recebeu consistia de três frases escritas por um assistente que agradecia a Jones, mas explicava que essas questões não eram incumbência da ONU. As mulheres foram levadas para locais seguros e, no entanto, sofriam por ter que abandonar seus homens numa situação em que a morte era certa. “Não era fácil assistir às mulheres e crianças sendo levadas para longe de seus homens”, diz Jones ao citar a reação de um membro holandês das forças de paz da ONU em Kosovo, adicionando: “esta declaração resume a atitude predominava ali”. A solidariedade era direcionada às mulheres que sofriam, não aos homens que aguardaram seu assassinato em massa iminente. Oito meses depois ocorreu o massacre em Srebrenica. Um ano depois, o Centro da ONU contatado por Jones criou uma coalizão internacional para a proteção dos direitos humanos das mulheres em situações de conflito.
A especialista em Relações Internacionais Paula Drummond, para seu artigo, Homens Invisíveis, examinou a integração das perspectivas de gênero nas políticas da ONU no contexto do genocídio na República Democrática do Congo. Neste caso, o massacre custou a vida de tantos homens que, em algumas regiões, 80% dos sobreviventes era de mulheres e crianças. O resultado da análise de Drummond: o fundamento das políticas da ONU é a adoção do chamado princípio da integração das perspectivas de gênero que, de acordo com a definição oficial, deveria atender às necessidades de ambos os sexos. No entanto, ela de facto se aplica somente em benefício das mulheres. Apesar de a ONU testemunhar, repetidamente, a violência direcionada contra homens e meninos – por exemplo, em Ruanda e na antiga Iugoslávia –, sua política de gênero se traduz em proteger mulheres e meninas.
Drummond aponta que quando, por exemplo, meninos e homens são forçados, mediante ameaça de morte, a estuprar membros de suas próprias famílias, a ONU oferece apoio só às mulheres. Se um massacre de homens chega a ser incluído em algum relatório da ONU, é porque o “a escassez de homens leva a mais insegurança na vida doméstica, constituída apenas por mulheres adultas”. Isto é dizer que a morte dos homens prejudica a vida das mulheres. Ao contrário de todas as informações existentes, é persistentemente enfatizado que mulheres e crianças estavam em risco peculiar nos conflitos mencionados. Em geral, o engajamento no contexto do Congo é dominado por uma perspectiva feminista. Drummond entende que essa perspectiva é limitada, uma vez que a marginalização das vítimas do sexo masculino reforça o clichê de as mulheres como vulneráveis e continuamente necessitam de assistência.
Fossem os Estudos de Gênero uma disciplina acadêmica legítima, esses aspectos estariam entre os eixos centrais de pesquisa e ensino. Entretanto, os Estudos de Gênero são dominados pela preocupação apenas com um gênero. Por exemplo, o professor Adam Jones é visto por pesquisadores em outras disciplinas como um dos principais especialistas mundiais em genocídios. Não obstante, do ponto de vista dos Estudos de Gênero, ele é obviamente “um homem velho branco” que não merece ser citado.
Essa facção chega a assumir atitudes ainda mais agressivas contra ativistas de direitos humanos que gostariam de ter o sofrimento dos homens incluído na agenda política. Pelos Ausputzern der Genderszene(ativistas de gênero), esses ativistas são demonizados como “Rechte” (extrema direita), pois estariam buscando uma ideologia vitimização como fizeram os nacional-socialistas (nazistas). A atual ideologia de vitimismo unilateral feminista não é questionada pelos partidários de gênero. Não se deveria sequer falar com estes ativistas por direitos humanos, apela Thomas Gesterkamp. Em vez disso, estabelece um “cordão de isolamento sanitário”. Jornalistas de emissoras públicas como Ralf Homann e Nina Marie Bust-Bartels gostam de espalhar este tipo de ódio e não parecem interessados em assassinato em massa quando são especificamente cometidos contra homens.
Por conseguinte, o próximo massacre desse tipo ocorrerá sem empecilhos. Suas fundações se encontram não só em outras culturas, como profundamente enraizadas na sociedade ocidental: É a convicção de que apenas as mulheres que sofrem importam e qualquer pessoa que fale sobre o sofrimento dos homens deve se tornar intocável e socialmente eliminado.
A mentalidade de que até um número grande de mortes de seres humanos nada conta e o ganho do reconhecimento para seu próprio partido político significa tudo nos é familiar em diversas ideologias com as quais intelectuais, tanto de extrema esquerda e quanto de extrema direita, condescenderam: o Nazismo, o Stalinismo, o Maoísmo e agora o Feminismo e Gênero. Essa mentalidade sempre retorna, mas isso não deveria nos impedir de fazer o possível para superar isso, mesmo que isso signifique ser alvos de ainda mais ódio.
É grotesco quando, diante de tamanha hediondez, nos é exigido ficar emocionalmente distantes e indiferentes, caso contrário se é vilificado como um “homem branco raivoso” e declarado indigno de ter uma opinião. Como sempre, este mecanismo funciona apenas nas mentes de ideólogos. Pessoalmente, eu prefiro a raiva, neste contexto. Ela é melhor que a depressão.
Versão em português por Vítor Guimarães, da tradução em inglês por Karen McFly.Artigo originalmente publicado em alemão no “Genderama”, depois no “Cuncti” e no A Voice for Men.

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