Subscribe:

28 de agosto de 2016

“Ela teria sido uma mãe perfeita para alguém que estivesse realmente doente”

Nos sete anos antes do assassinato, Dee Dee e Gypsy Rose Blancharde moraram num pequeno bangalô cor-de-rosa na rua West Volunteer Way, em Springfield, Missouri, Meio-Oeste dos Estados Unidos. Elas eram queridas pelos vizinhos. “‘Doce’ é a palavra que eu usaria”, me disse uma amiga de Dee Dee não faz muito tempo. Depois de conhecer a dupla, era impossível esquecê-las.
Dee Dee tinha 48 anos e era originalmente do estado da Louisiana, no sul do país. Ela era uma mulher grande e afável, traços realçados pelas roupas coloridas que gostava de usar. Dee Dee tinha cabelo castanho encaracolado e gostava de prendê-lo com fitas. Quem a conheceu lembra de uma amiga generosa com seu tempo e, quando possível, com dinheiro. Ela fazia amigos com facilidade e inspirava devoção profunda. Dee Dee não trabalhava: cuidava da filha adolescente, Gypsy Rose, em tempo integral.
Gypsy era pequenininha, talvez 1,5m de altura, ou pelo menos esse é o palpite dos vizinhos. Ela estava presa a uma cadeira de rodas. Seu rosto redondo era dominado por um par de óculos grandes, que lhe davam a aparência de uma coruja. Gypsy era magra, e seus dentes estavam mal cuidados. Ela se alimentava por um tubo. Às vezes Dee Dee tinha sair de casa carregando um tubo de oxigênio para a filha. Quem perguntasse sobre o diagnóstico de Gypsy ouvia como resposta uma longa lista de problemas de saúde: anomalias cromossômicas, distrofia muscular, epilepsia, asma severa, apneia do sono, problemas na vista. Sempre fora assim, dizia Dee Dee, desde a época em que Gypsy era bebê. Ela passou um tempo na UTI neonatal. Teve leucemia quando era pequena.

Gypsy (à esq.) e Dee Dee Facebook via WISN
As crises médicas intermináveis cobraram seu preço. Gypsy era amistosa e às vezes falante, mas sua voz era fina, e ela soava como uma criança. Dee Dee lembrava as pessoas que sua filha tinha sofrido danos cerebrais. Ela tinha de estudar em casa, porque jamais seria capaz de acompanhar os colegas da escola. Gypsy tinha a idade mental de uma criança de sete anos, dizia Dee Dee. Era importante lembrar-se disso ao falar com a menina. Ela adorava se arrumar e vestir roupas de princesa. Usava perucas e chapéus para esconder a cabeça pequena. A peruca de Cinderela, sua favorita, aparece em várias fotos dela com a mãe. As duas estavam sempre juntas.
“Somos um par de sapatos”, disse Gypsy certa vez. “Um pé sozinho não serve para nada.”
A casa das duas, como todas do bairro, foi erguida pela Habitat for Humanity, uma ONG que constrói casas para pessoas carentes. Ela tinha adaptações especiais para Gypsy: uma rampa na entrada, uma banheira de hidromassagem para ajudar com “meus músculos”, disse Gypsy a um programa da TV local em 2008. Às vezes, em noites de verão, Dee Dee projetava filmes na parede de fora da sua casa. Era o cinema para muitas crianças da região, pois seus pais não tinham dinheiro para pagar os ingressos. Dee Dee cobrava pela pipoca e pelo refrigerante, mas ainda assim era mais barato que o multiplex local. O dinheiro arrecadado era investido no tratamento de Gypsy.
Dee Dee ficou especialmente próxima dos vizinhos da frente, uma mãe solteira chamada Amy Pinegar e seus quatro filhos. Ao longo de anos de cafés e chás, Dee Dee contou para Pinegar a história da sua vida. Ela era originalmente de uma pequena cidade na Louisiana, mas fugiu com Gypsy porque era vítima de abusos. A gota d’água foi quando o pai dela, avô de Gypsy, queimou a neta com um cigarro. Ela abandonou sua cidade
natal para sempre.
Ela disse para Pinegar que o pai de Gypsy era caloteiro, alcoólatra e viciado em drogas. Ele fazia piada com os problemas da própria filha e chamava a Paralimpíada de “freak show”. Pinegar foi levada a acreditar que o pai de Gypsy nunca tinha mandado um centavo para a ex-mulher e a filha, nem sequer quando as duas perderam tudo por causa do furacão Katrina. Foi graças à ajuda de uma médica de um abrigo de refugiados que Dee Dee e Gypsy conseguiram se mudar para Springfield, uma cidade na região montanhosa dos Ozarks.
Às vezes Amy Pinegar se sentia sufocada ouvindo as história de Dee Dee. “Me perguntava: manter essa criança viva… Será que ela é feliz?”, me disse Pinegar pelo telefone no ano passado. Ela não podia fazer nada além de ser uma boa vizinha, ajudando sempre que possível. Pinegar levava Dee Dee e Gypsy ao aeroporto, para as consultas médicas em Kansas City, e trazia coisas do supermercado. No fim das contas, elas de fato pareciam felizes. Ganhavam viagens para a Disney World, conheceram a cantora de country Miranda Lambert por intermédio da fundação Make-a-Wish, uma entidade que realiza os sonhos de crianças que sofrem de doenças graves. De vez em quando Pinegar sentia até mesmo uma pontinha de inveja das vizinhas.
Era uma pauta perfeita para uma matéria melodramática do telejornal: a família que passou por tragédias e desastres e reconstruiu a vida, apesar de todos os obstáculos. Mas a história não tinha acabado. Em junho passado, uma mensagem foi postada da conta de Dee Dee no Facebook:
“A vaca morreu”, dizia o post.

Corey Brickley para o BuzzFeed News


Era 14 de junho, um domingo de calor que levou muita gente a ficar dentro de casa, no ar-condicionado. Os primeiros comentários no post são de amigos chocados. Talvez a conta dela tenha sido hackeada. Talvez seja melhor alguém ligar. Alguém sabe onde elas moram? Será que é o caso de chamar a polícia, passar o endereço para eles?

Enquanto a conversa se desenrolava, apareceu outro comentário, também da conta de Dee Dee: “Eu RASGUEI AQUELA PORCA GORDA NO MEIO E ESTUPREI A FILHA INOCENTE DELA… ELA GRITOU ALTO PRA CARALHO RS.”

Kim Blanchard, que mora perto, foi uma das primeiras a reagir. Apesar do sobrenome parecido, as duas não têm parentesco. Kim Blanchard conheceu Dee Dee e Gypsy em 2009, numa convenção de fãs de histórias fantásticas e ficção científica, onde Gypsy podia se fantasiar sem parecer um peixe fora d’água. “Elas eram perfeitas”, disse Kim. “Uma criança pobre e doente sob os cuidados de uma mãe incrível e paciente, que só quer saber de ajudar os outros.”

Kim ligou para Dee Dee, mas ninguém atendeu. O marido dela, David, sugeriu que eles fossem de carro até a casa, só para se certificar de que estava tudo bem. Quando chegaram, já havia uma pequena multidão de vizinhos na calçada. Dee Dee e Gypsy já tinham ficado incomunicáveis no passado — às vezes faziam viagens médicas sem avisar
ninguém. As janelas tinham filme protetor; era difícil enxergar o interior da
casa. Ninguém atendia a porta. Mas o carro de Dee Dee estava estacionado na
rua.


Kim chamou a polícia. Os policiais não podiam entrar na casa sem um mandado de busca, mas também não impediram que David entrasse por uma janela. Lá dentro, tudo parecia normal. As luzes estavam apagadas e o ar-condicionado estava no máximo. Não havia sinal de roubo ou briga. As cadeiras de roda de Gypsy estavam na casa.

Enquanto esperavam o mandado de busca, os policiais começaram a colher depoimentos dos vizinhos. Kim postava as notícias no Facebook. Sim, eles entraram na casa; sim, a polícia foi chamada. Os amigos de Dee Dee na internet começaram a bombardear Kim com perguntas. Ela tentava responder da melhor maneira possível, mas o post começou a ser compartilhado. “É o seguinte, pessoal… Sei que todo mundo está muito preocupado”, escreveu Kim no Facebook. “Mas quem postou isso consegue ler tudo.”

O mandado só chegou às 22h45. A polícia encontrou o corpo de Dee Dee no quarto. Ela fora esfaqueada e estava morta havia vários dias. Não havia sinal de Gypsy.

No dia seguinte, Kim organizou uma vigília e uma campanha de arrecadação de fundos na internet para cobrir as despesas do enterro de Dee Dee – e possivelmente de Gypsy. Todos temiam pelo pior. Gypsy despertava instintos protetores em todo mundo. Ela era tão pequena e parecia tão indefesa. Muita gente não entendia como uma coisas dessas poderia ter acontecido com ela. Quem atacaria uma pessoa que não pode se defender?

Enquanto isso, começaram a surgir as primeiras pistas. Uma jovem chamada Aleah Woodmansee procurou a polícia dizendo ter informações que poderiam ser úteis. Por exemplo: Gypsy tinha um namorado secreto na internet.
Kim e David Blanchard em Springfield, Missouri, 10 de junho de 2016. Guillermo Hernandez Martinez for BuzzFeed News


Aleah, 23, é filha de Amy Pinegar e trabalha como investigadora de um plano de saúde. Ela se considerava uma irmã mais velha de Gypsy, e Gypsy achava o mesmo. Mas ela raramente ficavam juntas sem a presença de Dee Dee. Gypsy contava seus segredos para Aleah usando uma conta secreta de Facebook, sob o nome Emma Rose.

“Essa é minha conta pessoal minha mãe ainda é superprotetora então ela não, sabe dessa conta”, escreveu Gypsy em outubro de 2014. Ela confessou para a amiga que conheceu um homem num site de relacionamento cristão. Estava apaixonada. Gypsy ainda não tinha contado para a mãe. Ela escreveu que sabia que Dee Dee não aprovaria o relacionamento e que ela não podia sair com homens, embora morresse de vontade de crescer e ter um namorado, como qualquer outra menina da sua idade.

“No passado disse coisas ruins para minha mãe eu disse queria que sua mãe fosse a minha mãe em vez da minha mãe pq a sra Amy deixa a Aleah sair com quem ela quiser disse isso para magoar minha mãe”, escreveu Gypsy.

O nome do namorado, disse Gypsy, era Nicholas Godejohn. Eles estavam se comunicando havia dois anos. Ele não se importava que Gypsy estivesse numa cadeira de rodas. Gypsy queria se casar com ele. Ambos eram católicos. Eles tinham até discutido os nomes que dariam aos filhos. Ela estava bolando um plano para que Dee Dee conhecesse Nick casualmente no cinema. Depois disso, Gypsy tinha esperanças de tornar público o relacionamento.

Não era a primeira vez que Gypsy falava de meninos com Aleah usando mensagens clandestinas. Ela sabia que Gypsy já tinha tentado conhecer homens pela internet. Sabia que, apesar da cabeça de sete anos, Gypsy pensava em amor e sexo. Mas Aleah estava preocupada. Gypsy sempre lhe parecera muito inocente. Em outubro de 2014, ela escreveu “Tenho 18 anos. Nick… tem 24”, ou seja, Godejohn era seis anos mais velho.

Além disso, ela descrevia o relacionamento de um jeito esquisito. “Era como se uma espécie de conto de fadas maravilhoso estivesse se desenrolando”, me disse Aleah no ano passado.

Ela também estava preocupada com Dee Dee, que a tinha confrontado em 2011 sobre as conversas com Gypsy. Para Dee Dee, as conversas estariam “corrompendo” a criança. “Não vou contar para sua mãe as coisas que você disse”, teria dito Dee Dee para Aleah. “Mas não quero que você converse assim com Gypsy.” Dee Dee tirou o telefone e o computador da filha por um tempo. Gypsy sempre dava um jeito de driblar a mãe e fazer contato com Aleah, mas as duas se viam cada vez menos. Depois das mensagens sobre Nick Godejohn, no segundo semestre de 2014, elas não se falaram mais.

Um ano e meio depois, no meio da multidão que estava na frente da casa da amiga, Aleah achou que deveria conversar com a polícia. Ela mostrou as mensagens de Facebook para os policiais, que começaram a rastrear os posts da conta de Dee Dee. O endereço IP estava registrado em nome de Nicholas Godejohn, da cidade de Big Bend, Wisconsin.

Em 15 de junho, a polícia foi à casa de Godejohn. Ele se rendeu rapidamente. Gypsy estava com ele e passava bem. Todos ficaram aliviados, pelo menos naquele momento.

“As coisas nem sempre são o que parecem”, disse o xerife de Springfield numa entrevista coletiva no dia seguinte.

Na verdade, Gypsy não estava usando cadeira de rodas fazia alguns dias — porque não precisava. Ela conseguia andar normalmente, não havia nada errado com seus músculos. Também não tinha consigo seus remédios nem o tanque de oxigênio. O cabelo dela estava curto e espetado, mas ela não era careca – sua cabeça tinha sido raspada a vida toda para que ela parecesse doente. Ela falava com clareza, apesar do choque dos eventos recentes. A criança frágil que os outros conheceram estava transformada. Era uma grande mentira, disse ela à polícia. Tudo. Até os últimos detalhes. Foi tudo ideia da sua mãe.

“Chorei muito”, disse Aleah, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo.

Kim Blanchard também chorou. “Naquele momento, pensei: ‘Não sei nada sobre essa pessoa. No que eu acreditei esse tempo todo? Como pude ser tão burra?’”

“Ninguém pediu provas. Ninguém duvidou”, disse Amy Pinegar. “Será que elas estavam rindo da gente pelas nossas costas” – ela pausa por um segundo – pensando “otários?”


























Rod Blanchard Guillermo Hernandez Martinez para o BuzzFeed News


O nome de Dee Dee era Clauddine Blanchard. Ela tinha adotado vários apelidos e formas diferentes de escrever o nome ao longo dos anos: DeDe, Claudine, Deno. Quando chegou ao Missouri, passou a escrever o primeiro nome como Clauddinnea e acrescentou um “e” ao seu sobrenome. Nem tudo o que ela dizia era mentira. Ela era realmente de Lafourche Parish, na Louisiana. Cresceu em uma cidade chamada Golden Meadow com cinco irmãos, a maioria ainda vivos. Sua mãe morreu em 1997, mas seu pai ainda está vivo.

Idem para Rod Blanchard, o pai de Gypsy. Ele ainda mora na Louisiana, não muito longe de Golden Meadow. Gypsy tem o nariz do pai. Ele é lacônico e às vezes estóico, às vezes engraçado. Ele conheceu Dee Dee quando estava no ensino médio. Namoraram entre quatro e seis meses – quando ela engravidou, ele tinha 17 e ela, 24. Para Rod, a única solução lógica era casar. “Acordei no dia em que fiz 18 anos e me dei conta de que estava no lugar errado”, me disse ele recentemente. “Não estava apaixonado por ela, na verdade. Sei que casei pelos motivos errados.” Ele abandonou Dee Dee. Embora ela tenha tentado voltar algumas vezes, o casamento estava terminado.

Gypsy Rose nasceu em 27 de julho de 1997, logo depois da separação. Rod diz que Dee Dee gostava do nome Gypsy, e ele era fã dos Guns N’ Roses. Eles não conheciam a história de Gypsy Rose Lee, a estrela infantil de vaudeville dos anos 1920 que virou stripper e inspirou o musical da Broadway “Gypsy”. Também não sabiam que Gypsy tinha uma mãe controladora, que mentia a idade da filha e a forçava a se apresentar contra sua vontade.

Gypsy nasceu saudável, diz Rod. Mas, aos três meses, Dee Dee se convenceu de que a filha tinha apneia do sono e que pararia de respirar no meio da noite. Foi aí que ela começou a levar Gypsy para o hospital. Segundo as lembranças de Rod, os médicos não encontraram nenhum problema, apesar de três baterias de testes e do monitoramento do sono da bebê. Mas Dee Dee tinha certeza que Gypsy estava doente. Ela começou a descrever para Rod um número cada vez maior de problemas de saúde da filha, dizendo que ela tinha anomalia cromossômica.

As coisas logo saíram do controle. Dee Dee sempre achava algo errado com a filha, com os médicos, com os remédios. Ela já tinha trabalhado como assistente de enfermagem e gostava de recitar termos médicos. A torrente de informações funcionava como uma espécie de barreira em torno das duas. Dee Dee sempre parecia ter tudo sob controle. Ela tinha resposta para tudo.
Gypsy com a mãe, o pai e os meio-irmãos, em foto sem data. Cortesia de Kristy Blanchard.


Rod casou de novo e teve outros dois filhos. Ele e a nova mulher, Kristy, viram Gypsy com frequência nos primeiros dez anos da vida da menina e têm várias fotos da família até 2004. Ele se lembra de ir à Paralimpíada e tem boas lembranças da viagem. “Só sorrisos”, diz Kristy. Naquele tempo, Gypsy nunca disse nada ruim a respeito da mãe.

Enquanto isso, a relação de Dee Dee com sua família, que já não era boa, começou a piorar. O motivo não está claro. (Apesar de várias tentativas de entrar em contato com o pai dela, Claude Pitre, nunca consegui conversar diretamente com a família.) Ela começou a ter problemas com a polícia, em geral por infrações menores, como cheques sem fundo. Depois, ela simplesmente se mudou. Foi com a filha para Slidell, uma cidade duas horas ao norte, perto de New Orleans.

Dee Dee e Gypsy moravam em casas do governo e usavam os serviços do hospital da Universidade Tulane e do Hospital da Criança. Dee Dee disse aos médicos que Gypsy tinha convulsões a cada dois meses, e eles receitaram remédios. Insistia que a filha tinha distrofia muscular, mas biópsias dos músculos provavam que o problema era inexistente. Ela também tinha problemas de visão e audição, afirmava Dee Dee. Os médicos operaram a menina. Se Gypsy ficasse resfriada, Dee Dee a levava para o pronto-socorro.

Em 2005, Slidell foi atingida pelo furacão Katrina. A cidade passou semanas sem energia elétrica. As duas procuraram um abrigo para pessoas com necessidades especiais na cidade de Covington, mostrando fotos de uma casa destruída. Ela disse à equipe do abrigo que não tinha o histórico médico da filha porque tudo tinha sido perdido com a enchente.

Uma das médicas era da região dos Ozarks. (Ela não quis conceder entrevista para esta reportagem.) Ela ficou encantada com Gypsy: “Quando a conheci, chorei um pouco, e ela disse: ‘Tudo bem, você é só humana’”. Aparentemente foi a médica quem sugeriu que as duas se mudassem para o Missouri.

A história da mãe com uma filha doente e que perdeu tudo era irresistível para a imprensa local. Também pegava bem com as organizações de caridade. Dee Dee e Gypsy foram levadas de avião para o Missouri em setembro de 2005. Elas alugaram uma casa na cidade de Aurora, onde moraram até se mudar em março de 2008 para a casa construída pela Habitat for Humanity, em Springfield.

Gypsy tinha recebido ajuda de instituições de caridade desde muito pequena, mas este era certamente o maior benefício obtido por Dee Dee. Aparentemente, isso despertou seu apetite. Em Springfield, elas aproveitaram voos gratuitos fornecidos por pilotos voluntários, ficaram em alojamentos para pacientes de câncer e ganharam viagens gratuitas para a Disney World de várias instituições de caridade. (Nenhuma das instituições que tiveram contato com a família atendeu a pedidos de entrevistas.)

Dee Dee manteve Rod informado sobre a localização e o estado de saúde da filha. Ao mesmo tempo, ela dizia para os médicos e novos amigos que o ex-marido era viciado em drogas e tinha abandonado Gypsy. Rod e Kristy conversavam com Gypsy com frequência.
Apesar dos vários planos de visitá-la, “acabou nunca dando certo”, disse Rod.


Como sempre, Rod continuou mandando US$ 1.200 de pensão alimentícia para uma conta bancária em New Orleans. Ele também mandava presentes que Dee Dee pedia, como TVs e um Nintendo Wii. Rod continuou enviando essas coisas mesmo depois de Gypsy completar 18 anos, porque Dee Dee disse que a filha precisava de cuidados em tempo integral. “Nunca discutimos se eu pararia de pagar”, disse ele.

Às vezes pequenos sinais da mentira ficavam aparentes. Quando ligou para Gypsy no dia em que ela fez 18 anos, Rod estava animado para fazer piadas com a filha sobre a vida adulta. Mas, segundo ele, Dee Dee interceptou a ligação para lembrá-lo de que Gypsy não sabia sua idade verdadeira. “Ela acha que tem 14”, disse Dee Dee. Ela pediu que Rod não contasse a verdade para que Gypsy não ficasse chateada. Ele aceitou o conselho.

“Dee Dee começou a construir um castelo de mentiras e depois não tinha como fugir”, disse Rod. “Ela se enrolou demais. Uma mentira tinha de encobrir outra mentira, que tinha de encobrir outra mentira, era assim que ela vivia.” Ele e a mulher não tinham visto as reportagens nas TVs e nos jornais locais do Missouri. Não sabiam nada sobre as campanhas de arrecadação de fundos e sobre as viagens das duas, com exceção do pouco que Dee Dee contava.

Tudo mudou em junho passado, quando Rod ligou para Kristy, chorando. A irmã de Dee Dee tinha telefonado; Dee Dee estava morta, e Gypsy, desaparecida. “Fiquei histérica achando que ela tinha sido abandonada à própria sorte em algum lugar”, disse Kristy. E, se Gypsy fosse encontrada, “como poderia cuidar dela se Dee Dee era a pessoa que sabia de tudo o que ela precisava?”

A primeira vez que Rod viu sua filha andar foi numa matéria sobre o indiciamento de Gypsy no caso, em Wisconsin. Ninguém o preparou; Kristy achou o vídeo no Facebook. Rod ficou tão confuso que sua primeira reação foi “ficar feliz por vê-la caminhando”.

Quando o advogado de Gypsy mostrou o resultado da autópsia de Dee Dee, Kristy diz que parou na parte sobre o cérebro. O advogado perguntou por quê.

“Quero saber que diabos ela estava pensando”, diz Kristy. “Que parte desse cérebro começou essa porra toda?”
Corey Brickley para o BuzzFeed News


Dee Dee jamais será capaz de responder. O que resta é a história de Gypsy. E Gypsy não sabe de tudo. Desde sua prisão até nossas recentes conversas numa cadeia no Missouri, ela demonstra confusão em relação a vários detalhes. Por exemplo: quando foi presa, Gypsy disse à polícia que tinha 19 anos. Rod e Kristy apresentaram a certidão de nascimento dela. Na verdade, ela tinha 23 anos.

Os pais são seu mundo. E, no mundo que Dee Dee criou para Gypsy, ela tinha câncer. Gypsy me disse que tomava remédios para a doença. Mesmo depois de mais velha, ela não sabia como questionar a mãe. Ninguém sabe exatamente que remédios ela tomou ao longo dos anos. Muitos podem nem sequer ter sido receitados para ela; o advogado de Gypsy suspeita que ela tenha tomado algum tipo de tranquilizante.

A montanha de diagnósticos, a lista de remédios: tudo indica uma doença conhecida como síndrome de Münchausen por procuração. A síndrome de Münchausen foi identificada pela primeira vez pelo psiquiatra britânico Richard Asher, em 1951. Em 1977, Roy Meadow identificou a síndrome de Münchausen por procuração. Desde 1980 a doença é listada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido pela sigla DSM. Em resumo, uma pessoa que sofre dessa síndrome finge ou induz sintomas físicos e psicológicos para obter atenção e simpatia. Se a pessoa tem esse comportamento consigo mesma, trata-se da síndrome de Münchausen; se os sintomas pertencem a outra pessoa, trata-se da síndrome de Münchausen por procuração. O DSM recomenda a distinção entre a síndrome de Münchausen e o que é chamado de “fingimento”, ou seja, fingir ou induzir sintomas com a intenção de obter benefícios materiais. Esse “fingimento” não é doença – é fraude pura e simples.

Embora a maioria dos casos envolvam mães, também há registros de pais que fazem isso com filhos, maridos que fazem isso com as mulheres, sobrinhas que fazem isso com as tias. E os médicos só conseguem detectar o problema meses, às vezes anos depois. É difícil saber com precisão o número de casos da síndrome de Münchausen na população em geral.

Parece contra-intuitivo que os médicos não percebam os casos de Münchausen, mas a relação de confiança entre médico e paciente tem duas mãos. “Dependemos do que os pacientes nos dizem”, diz Caroline Burton, uma médica da Flórida que tratou de casos de Münchausen por procuração envolvendo adultos. Mesmo que o médico tenha suspeitas, não há incentivo para recusar tratamento. E se o paciente realmente estiver doente? “Você tem de tomar cuidado para não deixar passar doenças orgânicas”, diz Burton. “Tem de considerar vários tipos de diagnósticos possíveis.”

O diagnóstico de Münchausen por procuração é dado a quem conta as mentiras, não à vítima. Como Dee Dee morreu, é impossível fazer o diagnóstico. Ela não deixou um diário ou qualquer outro tipo de documento que prove suas intenções. Dee Dee tinha uma pasta com dados médicos na qual estão registradas várias informações que ela repassou aos médicos. E ela se encaixa em certos parâmetros que os médicos citam como alertas para possíveis casos de Münchausen: Dee Dee tinha algum treinamento médico, por exemplo. O número de médicos que ela procurou ao longo dos anos e a propensão a mudar de cidade (para que não houvesse um único histórico completo) também são pistas. O mesmo vale para os relatos sobre a suposta apneia do sono, que parece ser um dos primeiros sinais de Münchausen em vários casos documentados.

Também não é incomum, diz Burton, que parentes mais distantes – e às vezes até mesmo próximos – não tenham a menor ideia das mentiras. “São pessoas muito inteligentes”, diz ela. “Elas sabem manipular.”

As vítimas também são manipuladas e, quanto mais tempo dura a mentira, maiores as chances de que o paciente também seja parte da conspiração. O simples desejo de agradar aos pais pode ser suficiente para envolver a criança na fraude. Mas, mesmo no caso de adultos, algum tipo de ligação emocional pode ser a explicação para o envolvimento na mentira. “A relação que se forma entre os dois é muito doentia”, diz Burton sobre os casos adultos que tratou. E nenhuma das fontes que consultei conhecia uma história de abuso que tenha durado tanto tempo, até a vida adulta. Uma coisa parece certa: para o paciente num caso de Münchausen por procuração, a verdade acaba sendo corroída.
Gypsy e Dee Dee concedendo entrevista para reportagem de 2008 sobre a casa que receberam da Habitat for Humanity. KYTV / Via youtube.com


O histórico médico de Gypsy impressiona. Em 2001, médicos do hospital da Universidade Tulane fizeram testes para identificar distrofia muscular. O resultado foi negativo. Na realidade, todos os exames de seu cérebro e de sua medula não apresentavam problemas. Os registros desses testes sobreviveram ao furacão Katrina. Mesmo assim, Dee Dee continuou insistindo com vários médicos da Louisiana e do Missouri que sua filha tinha distrofia muscular. A maioria dos médicos parece ter aceitado essa versão, sem mais investigações. Ele trataram vários problemas de visão, audição, sono e salivação que seriam causados pela distrofia muscular. (Os registros a que tive acesso parecem cobrir apenas parte dos cuidados recebidos por Gypsy. É impossível saber quantos outros registros relevantes existem.)

Algumas intervenções foram cirúrgicas. Os músculos oculares de Gypsy foram operados repetidas vezes por causa de supostas fragilidades. Tubos foram inseridos em seus ouvidos por causa de supostas infecções. Ela passou a se alimentar por um tubo e a comer muito pouco pela boca, sobrevivendo até depois dos 20 anos à base de Pediasure, um composto que substitui refeições. Suas glândulas salivares inicialmente receberam injeções de Botox e depois foram removidas completamente, pois sua mãe dizia que ela babava demais. Os dentes de Gypsy apodreceram e tiveram de ser extraídos, mas é difícil precisar se foi por má higiene bucal ou pelo excesso de remédios e pela desnutrição severa.

Os procedimentos invasivos no corpo de Gypsy em nome dessas doenças inexistentes foram sérios e prolongados. É difícil dizer hoje se eles foram desnecessários. O que não é difícil dizer é que tudo começou quando Gypsy era muito pequena, uma idade em que ela não poderia desafiar a autoridade dos adultos – sua mãe ou seus médicos.

Os médicos, por sua vez, não perceberam as inúmeras pistas de que as histórias de Dee Dee tinham buracos – nem sequer o médico que tratava dos problemas de sono dela. Pelo contrário: Robert Beckerman, que cuidou de Gypsy em New Orleans e Kansas City, destacou o tratamento da menina na newsletter do hospital e mencionava frequentemente que ela e Dee Dee eram suas pacientes favoritas. (Beckerman não respondeu a pedidos de entrevista.)


Houve uma exceção. Em 2007, um neurologista infantil chamado Bernardo Flasterstein suspeitou que algo estava errado. Em uma conversa recente pelo telefone, ele me disse que ficou com dúvidas na primeira vez que atendeu Gypsy e Dee Dee. As histórias das incontáveis doenças não colaram. Nas suas notas para o médico principal de Gypsy, ele escreveu em negrito e sublinhou: “A mãe não é boa com histórias.”

Para quem sofria de distrofia muscular, as fraquezas de Gypsy tinham uma “distribuição incomum”, escreveu Flasterstein em suas notas. Ainda assim, ele concedeu o “benefício da dúvida” a Dee Dee e realizou os testes de rotina. Todos os resultados foram normais. “Lembro de pedir que ela ficasse de pé”, disse ele, “e ela conseguia suportar o próprio peso!”. Ele afirma ter dito a Dee Dee: “Não entendo por que ela não anda”.

Flasterstein encontrou um médico que havia atendido Gypsy em New Orleans. O médico disse que a biópsia no músculo da menina tinha dado negativo para distrofia muscular e que um neurologista havia explicado tudo para Dee Dee – mas ela simplesmente parou de procurar aqueles médicos.

“Analisando todos os fatos, e depois de conversar com o antigo pediatra dela”, escreveu Flasterstein na ficha de Gypsy, “há uma grande possibilidade de Münchausen por procuração, talvez com alguma etiologia subjacente que explique os sintomas”. Dee Dee também deixou de procurar Flasterstein depois dessa consulta. “Imagino que ela tenha tido acesso às minhas observações”, diz Flasterstein. Segundo ele, enfermeiras teriam ouvido Dee Dee reclamar que o médico não sabia do que estava falando.

Flasterstein não procurou mais as duas. Ele me disse que todos os médicos de Springfield que atenderam Dee Dee “compraram a história dela”. Ele lembra de ser alertado para tratar a dupla com “luvas de ouro” e diz que, se relatasse o caso para os assistentes sociais, ninguém acreditaria em sua versão.

Pensando no caso agora, Flasterstein se arrepende de não ter se esforçado mais. Ele diz que Dee Dee foi apenas o segundo caso de Münchausen com o qual ele se deparou em décadas de experiência. Flasterstein soube do assassinato de Dee Dee por meio de uma antiga enfermeira. “Pobre Gypsy”, disse ele. “Sofreu esses anos todos, e sem motivo”. Ele diz que deveria ter sido “mais agressivo”.

Esta não foi a única oportunidade perdida para uma intervenção. Em 2009, a polícia de Springfield recebeu uma denúncia anônima a respeito de possíveis maus-tratos. A pessoa afirmou duvidar que Gypsy tivesse todos os problemas de saúde descritos pela mãe. (Flasterstein diz que a denúncia não partiu dele.) A polícia foi até a casa, mas Dee Dee tinha uma explicação. Ela disse que fornecia datas de nascimento e sobrenomes ligeiramente diferentes para se esconder do ex-marido. Ninguém ligou para Rod Blanchard para conferir. A polícia aceitou a explicação. Gypsy “de fato tem algum tipo de deficiência mental”, escreveram os policiais. O caso foi arquivado.

Certo dia, Gypsy tentou fugir da mãe. Ela conheceu um homem na convenção de ficção científica de que também participaram Kim Blanchard e seu marido. Gypsy começou a se comunicar pela internet com o homem. Na época, fevereiro de 2011, Gypsy e Dee Dee afirmavam que ela tinha 15 anos (na verdade ela tinha 19). Segundo Kim, o homem tinha 35 anos. Ele levou Gypsy para seu quarto de hotel. Com base em informações de outros participantes do evento, Dee Dee encontrou os dois. Aparentemente ela bateu na porta do quarto com papeis que provariam que Gypsy era menor de idade. (O homem não foi encontrado para comentar.)

Depois desse incidente, Dee Dee ficou furiosa, a ponto de fazer uma cena em público. Ela destruiu o computador da família com um martelo e passou a falar mal da internet para os amigos. Quando ganhou um computador novo, Gypsy só podia entrar na internet sob a supervisão da mãe. Durante meses, diz Kim Blanchard, Gypsy ficou amuada, apesar de “não parecer nada diferente de uma criança normal que se meteu em confusão”.

A situação deixou os vizinhos cheios de culpa. “Queria que ela tivesse me procurado”, disse Aleah Woodmansee. Muita gente sente o mesmo. Se Gypsy tivesse levantado da cadeira de rodas e andado, o encanto teria sido quebrado. Mas claramente não era fácil
para ela. De certa forma, faz sentido. Ela conseguiu passar batida pelo radar
de todos. Ninguém tinha motivos para acreditar que a vida dela fosse mudar. Até
ela conhecer Nick Godejohn.
Kristy Blanchard Guillermo Hernandez Martinez para o BuzzFeed News


Em outras circunstâncias, uma história de abuso tão longa e tão complicada como a de Gypsy poderia inspirar simpatia pública. Mas o lado da fraude ofendeu profundamente as pessoas, especialmente quem não conhecia as duas. É claro que muita gente acha que pessoas doentes ou portadoras de deficiência não merecem generosidade. Começaram a aparecer grupos no Facebook. Eles se dividiam sobre uma eventual culpa de Gypsy e sobre a possível cumplicidade de Rod e Kristy. Alguns grupos passaram de 10. 000 membros, com algumas pessoas postando diariamente e levantando teorias infundadas sobre o que aconteceu.

Se a especulação ficasse restrita a fóruns privados, seria uma coisa. Mas muitos desses detetives amadores não ficaram satisfeitos com as discussões online. Eles queriam ter impacto real no caso. Uma escritora chamada Meagan Pack recolhia “pistas” que encontrava no Facebook e as postava num site. Pack me disse que ligou para a polícia para contar tudo o que descobriu. Vários outros usuários da rede social ligaram para a polícia para especular. Quando começaram as audiências do caso, eles também foram ao tribunal. Uma mulher foi à casa de Dee quando o primeiro post (“A vaca morreu”) viralizou. Ela não conhecia Gypsy nem Dee Dee e foi convidada pelos vizinhos e pela polícia a se retirar.

O resultado foi um completo caos de informações. A campanha de arrecadação de recursos de Kim Blanchard virou um dos tópicos preferidos dos detetives online. Quando a fraude financeira de Dee Dee foi revelada pelo xerife, Kim encerrou o crowdfunding, mas não antes que ela mesma fosse alvo de investigações. Muita gente pensava que ela e seu marido, David, estavam mentindo sobre seu envolvimento com Gypsy e Dee Dee. Também foram levantadas suspeitas sobre um eventual parentesco, por causa da semelhança dos sobrenomes.

Enquanto isso, Kristy Blanchard estava descobrindo no Facebook mais coisas sobre sua enteada. Foi lá que ela soube que havia gente suspeitando dela e de Rod. Outros acreditavam que Rod era um pai omisso, que não dava apoio financeiro à filha. “Eles não entendem que eu sempre a apoiei”, diz Rod. “De todas as maneiras”, acrescenta Kristy. Na realidade, Dee Dee talvez tivesse algum dinheiro – Gypsy e Nick fugiram com cerca de US$ 4.000 roubados do cofre de Dee Dee – porque ainda recebia a pensão do ex-marido. (Dee Dee não deixou testamento e aparentemente não tinha bens além do desse dinheiro.)

No começo, Kristy tentou se defender e ao marido, mas percebeu que seria uma batalha inglória. “Foi infernal”, disse ela. Ela saiu de todos os grupos e pediu que os parentes parassem de aceitar os inúmeros pedidos de amizade no Facebook.

Os vizinhos de Springfield tinham um problema parecido. Amy Pinegar fez algumas tentativas de corrigir erros factuais postados na internet. As teorias mirabolantes só pioraram a confusão criada por Dee Dee. E os detetives amadores eram insistentes. Dois integrantes do maior grupo de Facebook estavam presentes em uma audiência realizada em setembro de 2015. No final, eles foram direto dar entrevista para uma rede de TV local. O advogado de Gypsy, Michael Stanfield, correu para tentar confrontá-los.

“Quem são essas pessoas?”, perguntou ele para a equipe de reportagem. “O que eles disseram?”


Waukesha County Sheriff's Department photo via AP





Waukesha County Sh

Durante algum tempo, parecia que o caso de Gypsy iria a julgamento. O procurador não quis pedir a pena de morte, mas Gypsy e Nick foram indiciados por homicídio. No desenrolar das investigações, surgiram mensagens trocadas pelos dois nas quais eles discutiam e planejavam o crime. “Querida, você está esquecendo que sou implacável, e meu ódio por ela vai forçá-la a morrer”, escreveu Godejohn para Gypsy. “Meu lado mau vai entrar em ação. Ele não vai errar, porque ele gosta de matar.” Os promotores dizem também ter encontrado provas nas redes sociais de que Gypsy pediu que Godejohn matasse sua mãe, embora as mensagens nunca tenham vindo a público. Documentos da investigação policial indicam que Godejohn comentou com um amigo que Gypsy queria matar a mãe pelo menos desde maio de 2014.

Godejohn falou em um “lado mau” porque ele e Gypsy criaram uma fantasia elaborada na internet, usando várias contas de Facebook. Eles gostavam de imagens de BDSM. Tinham nomes e papeis específicos. Trocavam fotos fantasiados, Gypsy vestida como Harley Quinn, do Esquadrão Suicida, segurando uma faca. Ambos misturavam fantasia e realidade. Mesmo hoje, não está claro por que Godejohn se envolveu no plano. Ele não tem histórico de violência. (Procurado por telefone, seu advogado, Andrew Mead, não quis comentar sobre o caso.) Ele foi preso uma vez em 2013, por conduta indecente num McDonald’s – estava assistindo filme pornô num tablet. Mas ambos disseram para a polícia que ele cometeu o crime. Enquanto sua mãe era esfaqueada, Gypsy disse que estava em outro quarto, ouvindo. Um motorista de táxi que pegou o casal depois do assassinato disse achar que Gypsy era a mentora do crime.

O advogado de Gypsy, Michael Stanfield, é defensor público. A cada ano ele pega em média 270 casos. Gypsy lhe foi encaminhada por sorteio, e ele não tinha ideia do que o aguardava. “Acho que este é o caso mais complicado que eu vou pegar na vida”, disse ele. A defensoria pública do Condado Greene teve sorte, porque um defensor público de destaque, Clate Baker, aceitou voltar ao trabalho para trabalhar no caso. Stanfield também conta com um investigador e um assistente. Kristy e Rod não tinham condições de pagar um advogado particular, mas afirmaram repetidas vezes que não pediriam para Gypsy trocar sua equipe de defesa porque consideram Stanfield capaz e seguro.

O processo de descobrir o que realmente aconteceu era, em uma única palavra, complexo. Stanfield foi à Louisiana e desenterrou alguns elementos da vida passada de Dee Dee. Ele demorou meses para obter os históricos médico de Gypsy, pois Dee Dee tinha uma procuração em seu nome depois que a filha atingiu a maioridade. Os hospitais se recusaram a ajudar, apesar de a procuração não suplantar os direitos de Gypsy de ter acesso a suas informações médicas.

Quando os históricos médicos foram finalmente liberados, Stanfield ligou imediatamente para o procurador para fazer um acordo. Em 5 de julho, Gypsy confessou ter cometido assassinato não-premeditado. O juiz a sentenciou a dez anos de prisão, a pena mínima. Com o ano que ela já tinha passado presa, ela poderá pedir liberdade condicional daqui sete anos e meio, em 2023 – Gypsy terá 32 anos.

Godejohn ainda aguarda seu julgamento, previsto para novembro. Gypsy não terá de testemunhar contra ele como parte do acordo. Em uma audiência recente, em julho, ele parecia confuso e perdido. Aparentemente, sua família não comparece ao tribunal.
Gypsy no tribunal, 5 de julho de 2016. Andrew Jansen / The Springfield News-Leader


Gypsy cumpre a pena uma cadeia na cidade de Vandalia, Missouri. Seu cabelo está comprido, sua pele está bonita e saudável e agora ela usa óculos de adulto. Ela parou de tomar todos os remédios e não teve nenhum problema de saúde no último ano. “A maioria dos meus clientes perde peso na prisão”, observou Stanfield, porque a comida é muito ruim. Gypsy engordou 6,5 quilos nos 12 meses que passou na prisão do Condado Greene, antes de fazer o acordo.

Kim Blanchard visitou Gypsy uma vez e me disse: “Ela parecia muito mais com a pessoa que ela realmente é, o completo oposto da pessoa que conheci. É como se ela tivesse tirado a fantasia depois desse tempo todo”.
A casa em que Gypsy morava com a mãe, em Springfield. Guillermo Hernandez Martinez para o BuzzFeed News


Durante a maior parte do ano que passei apurando esta reportagem, o caso estava aberto e eu não podia falar com Gypsy. Ela me ligou da prisão, e tivemos várias conversas curtas, ao longo de vários dias.

A voz dela ainda é aguda, mas, agora que sabemos o que sabemos, não parece nada fora do normal. As pessoas ouviam o que queriam. Gypsy fala em frases longas e belas. Às vezes ela é tão eloquente que é difícil imaginar que alguém tenha conversado com ela e a considerado “devagar”. Lembrei dos médicos que observaram que ela tinha um “vocabulário rico”, apesar dos supostos problemas cognitivos.

Ela tinha muita vontade de falar e mal conseguia se segurar. Quer que as pessoas saibam que não se trata de uma história em que uma menina mata a mãe para ficar com o namorado. É uma situação, diz ela, em que uma menina está tentando fugir de uma relação abusiva. Ela pretende participar de vários programas na prisão, para ajudar as pessoas. Quer escrever um livro para ajudar pessoas que vivem em situação parecida com a dela.

Perguntei o que tinha vontade de saber havia muito tempo: quando foi que ela percebeu que a vida dela era diferente, que alguma coisa estava errada? “Quando tinha 19 anos”, respondeu ela. Ela se refere à época em que sumiu com um homem na convenção, em 2011. Quando sua mãe foi buscá-la, ela começou a se perguntar por que não poderia estar sozinha, ter amigos.

Em relação à mãe, sua opinião não é hesitante. “Os médicos achavam que ela era muito dedicada”, disse Gypsy. “Acho que ela teria sido a mãe perfeita para alguém doente de verdade. Mas eu não sou doente. É uma diferença bem grande.”

Gypsy ainda acha que não enganou ninguém. “Me sinto usada como todas as outras pessoas”, disse ela. “Era uma peça no tabuleiro. Estava no escuro. A única coisa que sabia é que eu conseguia andar e conseguia comer. Com relação a todo o resto… Bom, ela raspava meu cabelo. E dizia: ‘Vai cair de qualquer jeito, então vamos deixar arrumadinho!’”. Sua mãe dizia que ela tinha câncer e que tinha de tomar remédios para a doença. Gypsy simplesmente aceitava.

Quando perguntei sobre o comportamento infantilizado, Gypsy ficou defensiva. “Não é culpa minha. Não tenho o que fazer. Minha voz é assim.”


Não ocorria a ela questionar o comportamento da mãe. Quando ela o fazia, tinha medo de magoar Dee Dee. Gypsy acha ainda hoje que sua mãe realmente achava que ela estava doente. “Tinha medo de nos envolver em alguma confusão”, disse Gypsy. “A linha entre o certo e o errado… era meio borrada, porque foi assim que aprendi. Cresci assim.”

“Quando penso nisso hoje”, disse ela “queria ter procurado alguém, contado para alguém, antes de contar para o Nick.”

Ela usava a internet à noite, quando a mãe estava dormindo. Nick foi a primeira pessoa que lhe ofereceu proteção. Ela acreditava nele. No fim das contas, depois de tudo o que aconteceu, Gypsy acha que ele tem “problemas de temperamento”. Ela assume a responsabilidade pelo assassinato repetidas vezes. “O que fiz está errado. Tenho de conviver com isso.” Mas ela disse que Nick foi quem pegou “o plano” e “o transformou em ação”. Foi dela a ideia de postar sobre o assassinato no Facebook, para que a polícia fosse checar a casa. Ela lembra de pedir a Nick: “Será que a gente pode postar alguma coisa no Facebook, por favor? Alguma coisa alarmante, que faria as pessoas chamar a polícia?” Mas foi ela que escolheu as palavras.

Perguntei várias vezes: você sente raiva? Da sua mãe? Dos médicos? Ela só admite frustração. “Fico frustrada que nenhum dos outros médicos enxergava que eu era perfeitamente saudável. Que minhas pernas não eram magras, como as de uma pessoa [realmente] paralisada. Que eu não consigo… Que não precisava me alimentar por um tubo. Coisas desse tipo.” Na cadeira, Gypsy tem acesso a tablets. Ela procurou a definição de Münchausen, depois de ouvir a palavra sendo usada tantas vezes para descrever sua situação. A mãe dela se encaixa em todos os sintomas.

De vez em quando, pedia para Gypsy explicar certos elementos da sua história com tantos detalhes que alguma coisa quebrava dentro de mim. Uma vez, sem palavras mas sabendo que logo ela teria de desligar, disse: “Sinto muito que isso tenha acontecido com você”. Gypsy imediatamente se transformou na menina frágil das reportagens de TV. “Tudo bem. Para falar a verdade, virei uma pessoa mais forte, porque realmente acredito que tudo acontece por alguma razão.”

Gypsy é um exemplo de aceitação até mesmo quando o assunto é a sua sentença. Ela disse para as pessoas que se sente mais livre na prisão que quando morava com a mãe. “É uma época boa para mim. Fui criada para fazer o que minha mãe me ensinou. E aquelas coisas não são muito boas.”

“Ela me ensinou a mentir, e não quero mentir. Quero ser uma pessoa boa e sincera.” ●




Fonte Buzfeed

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...