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17 de fevereiro de 2017

“Levei mala de dinheiro para Lula”

Ex-sócio de Fernando de Arruda Botelho, acionista da Camargo Corrêa morto em acidente aéreo há cinco anos, Davincci Lourenço diz à ISTOÉ que ele foi assassinado e que o crime encobriu um esquema de corrupção na empresa. O ex-presidente petista, segundo ele, recebeu propina para facilitar contrato com a Petrobras

“Levei mala de dinheiro para Lula”
A TESTEMUNHA-BOMBA Davincci Lourenço de Almeida diz que ordem partiu de Fernando Botelho, da Camargo Corrêa
O personagem que estampa a capa desta edição de ISTOÉ chama-se
 Davincci Lourenço de Almeida. Entre 2011 e 2012, ele privou da 
intimidade da cúpula de uma das maiores empreiteiras do País, a

 Camargo Corrêa. Participou de reuniões com a presença do então
 presidente da construtora, Dalton Avancini, acompanhou de perto 
o cotidiano da família no resort da empresa em Itirapina (SP) 
e chegou até fixar residência na fazenda da empreiteira situada
 no interior paulista. A estreitíssima relação fez com que Davincci, 
um químico sem formação superior, fosse destacado por diretores 
da Camargo para missões especiais. Em entrevista à ISTOÉ, 
concedida na última semana, Davincci Lourenço de Almeida narrou 
a mais delicada das tarefas as quais ficou encarregado de assumir 
em nome de acionistas da Camargo Corrêa: o transporte de uma
 mala de dinheiro destinada ao ex-presidente Lula. “Levei uma mala
 de dólares para Lula”, afirmou à ISTOÉ. É a primeira vez que uma 
testemunha ligada à empreiteira reconhece ter servido de ponte para
 pagamento de propina ao ex-presidente.
Ele não soube precisar valores, mas contou que o dinheiro foi 
conduzido por ele no início de fevereiro de 2012 do hangar da
 Camargo Corrêa em São Carlos (SP) até a sede da Morro 
Vermelho Táxi Aéreo em Congonhas, também de propriedade
 da empreiteira. Segundo o relato, a mala foi entregue por 
Davincci nas mãos de um funcionário da Morro Vermelho,
 William Steinmeyer, o “Wilinha”, a quem coube efetuar o 
repasse ao petista. “O dinheiro estava dentro de um saco, 
na mala. Deixei o saco com o dinheiro, mas a mala está comigo
 até hoje”, disse. Dias depois, acrescentou ele à ISTOÉ, Lula foi 
ao local buscar a encomenda, acompanhado por um segurança. 
“Lula ficou de ajudar fechar um contrato com a Petrobras. 
Um negócio de R$ 100 milhões”, disse Davincci de Almeida. 
A atmosfera lúdica do desembarque de Lula na Morro Vermelho
 encorajou funcionários e até diretores da empresa a posarem 
para selfies com o ex-presidente. De acordo com Davincci, depois 
que o petista saiu com o pacote de dinheiro, os retratos foram 
pendurados nas paredes do hangar. As imagens, porém, foram 
retiradas do local preventivamente em setembro de 2015, quando 
a Operação Lava Jato já fechava o cerco sobre a empreiteira. 
Na entrevista à ISTOÉ, Davincci diz que o transporte dos dólares
 ao ex-presidente não foi filho único. Ele também foi escalado para 
entregar malas forradas de dinheiro a funcionários da Petrobras.
 Os pagamentos, segundo ele, tiveram a chancela de Rosana 
Camargo de Arruda Botelho, herdeira do grupo Camargo Corrêa. 
“O Fernando me dizia que a “baixinha”, como ele chamava 
Rosana
 Camargo, sabia de tudo”, disse Davincci.
A imersão de Davincci no submundo dos negócios, não raro, 
nada republicanos tocados pela Camargo Corrêa foi obra de 
Fernando de Arruda Botelho, acionista da empreiteira morto há
 cinco anos num desastre aéreo. Em 2011, Davincci havia virado
 sócio e uma espécie de faz-tudo de Botelho. A sintonia era
 tamanha que os dois tocavam de ouvido. Foi Botelho quem
 lhe disse que a mala que carregava teria como destino final o 
ex-presidente Lula: “A ordem do Fernando Botelho era entregar
 para o presidente. Ele chamava de presidente, embora fosse ex”. 
Numa espécie de empatia à primeira vista, os dois se aproximaram
 quando Arruda Botelho se encantou com uma invenção de Davincci 
Lourenço de Almeida: um produto revolucionário para limpeza de
 aviões, o UV30. O componente proporciona economias fantásticas
 para o setor aéreo. “Com apenas cinco litros é possível limpar tão
 bem um Boeing a ponto de a aeronave parecer nova em folha. 
Convencionalmente, para fazer o mesmo serviço, é necessário
 mais de 30 mil litros de água”, afirmou Davincci.

PARCERIA Botelho (esq) e Davincci (dir) eram sócios na fabricação de produtos para limpeza de aviões
PARCERIA Botelho (esq) e Davincci (dir) eram sócios na fabricação de produtos para limpeza de aviões

Interessado no produto químico 
inventado por Davincci, o UV30,
 Botelho abriu com ele uma 
empresa de capital aberto, 
a Demoiselle Indústria e 
Comércio de Produtos 
Sustentáveis Ltda. 
Na sociedade, as cotas 
ficaram distribuídas da 
seguinte forma: 
25% para Fernando de 
Arruda Botelho, 25% para
 Rosana Camargo de
 Arruda Botelho, herdeira do grupo Camargo Corrêa, 25% para 
Davincci de Almeida e 25% para Alberto Brunetti, parceiro do químico
 desde os primórdios do UV30. Pelo combinado no fio do bigode, o 
casal Fernando e Rosana entraria com o dinheiro. Davincci e Alberto,
 com o produto. Em janeiro de 2012, a Camargo Corrêa lhe propôs o
 encerramento da empresa. Simultaneamente, a construtora, segundo
 a testemunha, fez um depósito de US$ 200 milhões nos Estados 
Unidos, no Bank of América, em nome da Demoiselle. O dinheiro tinha
 por objetivo promover o produto no exterior e fechar parcerias com a 
Vale Fertilizantes, Alcoa, CCR, e outras empresas interessadas na 
expansão do negócio. A operação intrigou Davincci. Mas o pior ainda 
estaria por vir.

76Acidente ou assassinato?
As negociatas também foram reveladas em depoimento ao promotor
José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, que ouviu
 Davincci em quatro oportunidades. Blat encaminhou os depoimentos
 à força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba. À ISTOÉ, o 
promotor disse acreditar que a Camargo Corrêa possa ter usado
 Davincci como “laranja”. Outro trecho bombástico da denúncia de 
Davincci à ISTOÉ, reiterado ao Ministério Público, remonta ao 
acidente fatal sofrido pelo empresário Fernando Botelho no dia 
13 de abril de 2012, durante um voo de demonstração, a bordo de 
um T-28 da Segunda Guerra Mundial, a empresários africanos, com 
os quais o acionista da Camargo havia negociado o UV30 em 
viagem à África dias antes. Segundo Davincci, Botelho foi 
assassinado. O avião, de acordo com ele, foi sabotado numa
 trama arquitetada pelo brigadeiro Edgar de Oliveira Júnior, assessor
 da Camargo e um dos gestores das propriedades da empreiteira.
 Conforme o depoimento, convencido de que o brigadeiro havia lhe
 dado um aplique, depois de promover uma auditoria interna, Botelho 
o demitiu na manhã do acidente durante uma tensa reunião, regada
 a gritos, socos na mesa e bate-bocas ferozes, testemunhada por
 diretores da Camargo. “O Fernando foi assassinado e o crime 
tramado pelo brigadeiro Edgar. O avião foi sabotado”, assegura 
o químico.
Uma sucessão de estranhos acontecimentos que cercaram a
 tragédia chamou a atenção do Ministério Público. Por exemplo: 
o caminhão de bombeiros comprado por Botelho exatamente para
 atender a eventuais emergências no aeródromo de sua propriedade
 estava trancado no hangar. “Tive que jogar meu carro contra a porta
 para estourar os cadeados. Peguei o caminhão e fui para o local. 
Ao chegar lá, as chamas estavam tão altas que não pude chegar
 muito perto”, afirmou Davincci. Mas o então sócio de Arruda Botelho 
]se aproximou o suficiente para conseguir resgatar o GPS, que havia
 se descolado da parte externa da aeronave. Porém, o aparelho, 
essencial para municiar as investigações com informações sobre o 
voo, não pôde ser conhecido pelas autoridades, segundo Davincci,
 a pedido do brigadeiro Edgar. “Ele tomou o aparelho das minhas 
mãos, dizendo que poderia ficar ruim para a família se 
entregássemos à investigação, e ainda me obrigou a mentir
 num primeiro depoimento à delegacia”. Com a morte de Fernando
 de Arruda Botelho, o brigadeiro acabou não tendo seu desligamento
 da empreiteira oficializado. Já o ex-sócio, desde então, enfrenta um
 calvário. “Sofri 11 ameaças de morte”, contou.
Motivado pelos depoimentos de Davincci, o caso que havia sido
 arquivado pela promotora Fernanda Amada Segato em março de
 2013 foi reaberto em setembro do ano passado por ordem da 
promotora Fábia Caroline do Nascimento. As novas investigações 
estão a cargo do delegado José Francisco Minelli. “Estou na fase 
da oitiva das testemunhas”, disse à ISTOÉ o delegado. Dois dos 
quatro irmãos de Fernando de Arruda Botelho, Eduardo e José 
Augusto, suspeitam de que pode ter havido mais do que um 
acidente. “Vou ajudar a descobrir a verdade sobre o que aconteceu. 
Mas um conhecido ligado ao Exército procurou meu irmão 
(José Augusto) para dizer que estavam convencidos que não foi 
acidente”, disse Eduardo Botelho em mensagem, ao qual ISTOÉ 
teve acesso, enviada em janeiro para Davincci.78
Irmão de Botelho atesta relato
Por telefone, de sua fazenda em Itirapina, Eduardo Botelho revelou 
à reportagem de ISTOÉ comungar dos indícios apontados pelo
 ex-sócio do irmão morto em 2012. “O nível de nojeira da equipe
 que comandava os negócios do meu irmão era muito grande. 
Tudo o que aconteceu naquele dia do acidente aéreo foi 
estranhíssimo. Meu irmão estava sendo roubado. Como ele 
não tinha controle do que acontecia com o avião, ele pode ter
 sido sabotado sim. Era fácil sabotar o avião. Ele era da Segunda
 Guerra. Podem ter mexido no avião no dia da queda”, disse 
Eduardo Botelho. “Se ele não tivesse morrido naquele dia, iria
 fazer uma limpeza gigantesca nas fazendas da Camargo”, 
asseverou o irmão, que rompeu relações com Rosana Camargo, 
a viúva, há algum tempo. “Uma máfia cercava meu irmão. 
Como pode um gerente de fazenda que ganha R$ 4 mil 
comprar quatro casas num condomínio fechado em São Carlos?”,
 perguntou Eduardo. Sobre Davincci, confirmou que ele e seu irmão
 eram realmente muito próximos e que, desde a morte de Fernando
 de Arruda Botelho, os antigos sócios dedicam-se a tentar tomar a 
empresa dele. “Ele (Davinci) morou na minha casa aqui na fazenda. 
Meu irmão dizia que eles iriam fazer chover dinheiro com o produto.
 Depois que meu irmão morreu, tentaram quebrar a patente,
 criaram outras empresas similares à Demoiselle.
 Tudo para tirá-lo da jogada”, confirmou.
73
Uma das empresas às quais
 o irmão do ex-acionista da 
Camargo se refere está
 sediada em São Paulo. 
No endereço mora Rosana,
 a bilionária herdeira da 
segunda maior construtora 
do País, que, por meio de 
seus advogados, se disse
 alvo de “crimes de calúnia, difamação e injúria por parte de Davincci”. 
“Ele responde a diversas ações judiciais, já tendo sido obrigado pela
 Justiça a cessar a divulgação de ameaças”, afirmou o advogado 
Celso Vilardi. A Muniz e Advogados Associados, que também 
representa a Camargo Corrêa, diz que Edgard de Oliveira Júnior,
 em razão dos desentendimentos entre os sócios, deixou 
espontaneamente a sociedade que mantinha com Davincci. 
“A empresa foi dissolvida, liquidada e a patente colocada à 
disposição”, afirma. Procurada para confirmar a negociação
 intermediada por Lula, conforme depoimento de Davincci, no 
valor de R$ 100 milhões, a Petrobras não respondeu até o
 fechamento desta edição. William Steinmeyer, da Morro 
Vermelho, confirma que conhece Davincci (“um cara excêntrico”),
 mas jura que não recebeu qualquer encomenda dele.

acrobacias interrompidas Fernando Botelho pilotava seu aviâo da Segunda Guerra quando bateu num barranco e explodiu
ACROBACIAS INTERROMPIDAS Fernando Botelho pilotava seu avião da Segunda Guerra quando bateu num barranco e explodiu

Desde o último mês, a 
empreiteira se prepara 
para incrementar sua 
delação premiada ao
 Ministério Público
 Federal. As novas – e 
graves – revelações, 
trazidas à baila por ISTOÉ, 
deverão integrar o glossário
 de questionamentos aos 
executivos da empreiteira
 pelos procuradores da Lava Jato.
ISTOÉ

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