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23 de junho de 2017

Entrevista com Rev. Ageu Magalhães - Refletindo sobre a Igreja Contemporânea



É com imensa satisfação e alegria que eu, Rô Moreira, entrevisto o Rev. Ageu Magalhães. Estas questões abaixo tem permeado o rumo da Igreja Brasileira e da Teologia Reformada. Quais seriam seus atuais problemas e possíveis caminhos?

O entrevistado Rev Ageu Magalhães é um dos mais renomados expoentes da Teologia Reformada e Calvinista no Brasil, Pastor da Igreja Presbiteriana de Vila Guarani, em São Paulo, há 19 anos. Diretor e professor do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição - JMC. Presidente do Sínodo de Piratininga - SP. Casado e pai de três filhos. Rev Ageu é Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição; Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie; Mestrando em Teologia Sistemática pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.

Perguntas:

A Reforma protestante completará 500 anos e durante todos esses anos nunca se viu na história da igreja evangélica no Brasil, em seguimentos fora do meio Reformado, tanto interesse pela fé Reformada e isso tem levado a um envolvimento maior da parte de alguns lideres Reformados com os evangélicos Pentecostais. A pergunta é: Como o senhor vê esse envolvimento com a fé reformada para a igreja Presbiteriana? Isso traz algum beneficio aos Presbiterianos, pois é melhor construir pontes e sendo assim o evangelho ganha? Ou pode causar danos, visto que algumas igrejas Reformadas já se encontram “meio pentecostalizadas”? Se é que podemos chamar assim as tais igrejas.

Nos anos 90 houve, no meio presbiteriano, um movimento de pentecostalização. Naquela época muitas igrejas aderiram ao culto pentecostal e congressos nacionais foram realizados com forte tendência carismática. As igrejas presbiterianas que ingressaram naquela onda hoje estão com dificuldades em receber gente mais séria, que foge do emocionalismo e do antropocentrismo neopentecostal. As igrejas que não se pentecostalizaram e preservaram a sua doutrina são as que têm recebido mais membros egressos do pentecostalismo. Estas igrejas têm sido bênção na vida de crentes que andavam frustrados em igrejas sem ênfase na Palavra.

Nos 500 anos de comemoração da Reforma Protestante, como manter a chama dos reformadores acesa nos cristãos atuais?

 Valorizando o que os reformadores valorizaram – o estudo da Palavra de Deus. Aqueles homens gastaram anos traduzindo, comentando e escrevendo livros sobre a Palavra. Se queremos comemorar a Reforma, não devemos fazê-lo com shows e estrelas do mundo gospel, mas com eventos que valorizem a Palavra.

As igrejas pentecostais tem dominado todo cenário religioso evangélico no Brasil devido ao seu pragmatismo e a fácil comunicação. Eles também dominam os veículos de comunicação. Em sua opinião as igrejas históricas estão falhando mais na comunicação por pregar dando mais ênfase na teologia e não como os pentecostais mais pragmáticos, ou isso tem mudado?

As igrejas históricas estão falhando, mas não neste ponto. Os neopentecostais têm canais de televisão porque enganar dá lucro. Milhões e milhões são arrecadados com base no engano, na promessa do “é dando que se recebe”. Igrejas históricas são honestas. Nunca arrecadariam os milhões que o neopentecostalismo arrecada. Nosso erro não está aí. Nosso erro está na omissão e na apatia. Na minha adolescência era comum vermos igrejas evangelizando nas ruas e nas praças. Hoje isso é raro. O fato de termos um programa na televisão parece que anestesiou crentes e igrejas quanto à evangelização. O fato é que o programa de TV que temos não tem formato evangelístico e, mesmo que tivesse, a ordem de evangelização de nosso Senhor não pode ser terceirizada. Paulo disse “ai de mim se não pregar o Evangelho” (1Co 9.16) e nós deveríamos estar dizendo o mesmo!

As igrejas neopentecostais estão superlotadas devido ao misticismo, mas as reformadas estão recebendo uma grande quantidade de membros devido ao crescimento da fé reformada. Há irmãos de outras denominações buscando por literaturas e por pregações de grandes teólogos calvinistas. Como o senhor vê essa busca? Será interesse por estarem sendo iluminados ou só querem o que os agradam se tornando apenas simpatizantes (visto que, não aderem toda cosmovisão reformada) Ou é apenas interesse comercial do grande setor literário como editoras Pentecostais e Reformadas e sendo assim, o interesse é apenas comercial e isso movimenta as vendas e o público em geral?

Em todo ajuntamento há pessoas boas e más intencionadas. Possivelmente no meio evangélico haja gente má intencionada lucrando com a busca pela fé reformada. Todavia, acredito que a maior parte das pessoas está buscando a fé reformada porque se cansou de superficialismo, do emocionalismo e do engodo da chamada “teologia da prosperidade”.

Algumas igrejas históricas parecem seduzidas pelo pentecostalismo. Em sua opinião isso é um movimento sustentável sem volta, ou já dá sinais de que estão retornando ao modelo histórico?

Tenho a impressão de que é um caminho sem volta. É fácil entender irmãos pentecostais buscando aprofundamento bíblico. Mas quando igrejas ditas reformadas começam a se parecer com igrejas neopentecostais é sinal de que o primeiro amor foi abandonado (Ap 2.4).

Nossa geração (e aqui incluímos a igreja) enfrenta uma crise que tem afetado todas as áreas, seja da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou teologia e questões que no passado eram definidas retornam nesta era como grandes desafios para sociedade. As questões que envolvem a homossexualidade, aborto, eutanásia, racismo, pobreza, religiosidade entre outras, voltaram para um estado de indefinição. Neste aspecto a igreja parece tão desorientada quanto a sociedade. É culpa do politicamente correto ou é mais uma das, digamos, portas do inferno que a igreja enfrenta nas eras de sua edificação?

 Sim, é o politicamente correto entrando na igreja. No passado, a igreja não temia ser a antítese. Hoje, boa parte da igreja evangélica quer ficar bem com o mundo. Se esquece que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus (Tg 4.4). Há um pequeno universo de crentes sérios que tem encontrado respostas para todas estas questões atuais, todavia, não é o grupo que está na mídia. É o grupo que, se aparecer na mídia, será para confrontar pecados, e isso é tudo o que a mídia não quer.

Observamos a igreja quanto ao seu estado de imperfeição e corrupção em que se encontra no presente. Ao mesmo tempo as Escrituras nos ensinam que não podemos ser cristãos sem ela. Como entender o fenômeno dos desigrejados?

A minha posição é a de que desigrejado convicto não é crente. Posso até entender um crente que está sem igreja porque onde mora está difícil encontrar uma igreja fiel. Porém, aquela pessoa que não vai à igreja porque crê ser possível seguir a Cristo sem ela, está desconsiderando todo o Novo Testamento.

Igrejas em busca de relevância se tornaram uma preocupação na mente de tanta gente que dá vontade de perguntar: como elas sobreviveram até hoje, num mundo tão competitivo, sendo irrelevantes? Numa sociedade secularizada e massificada por valores contrários aos das igrejas, como elas ainda existem, crescem e ainda preocupam tanta gente que se sentem incomodadas com elas? Por isso levanto a questão: o que é relevância e por que a igreja deve ter o que chamam de relevância?

Respondo com as palavras de Michael Horton: “Muito do que se chama relevância na igreja, Paulo trata como ateísmo”. A igreja primitiva nunca se preocupou em ser relevante, mas em ser fiel. E, sendo fiéis, eles colocaram o mundo de cabeça para baixo (At 17.6). Se a igreja de hoje quer fazer alguma diferença no mundo, deve viver de uma forma que reflita Jesus Cristo. Não há nada mais ‘relevante’ que isso!

Em sua opinião o que fazer para conter o pragmatismo na igreja?

 A única forma de nos livrarmos de todos os “ismos” deste século é retornando à Palavra de Deus. Um culto que segue à Palavra não será pragmático porque estará preocupado não em encher bancos, mas em glorificar a Deus. Quando temos comunhão com Deus nosso impulso primeiro é a agradar a Ele, não agradar pessoas.

Como combater falsas doutrinas em meio ao ensino do não julgueis?

Desconsiderando os “tolerantes”. Se Deus não tivesse levantado apologistas nos primeiros séculos da igreja e na época da Reforma Protestante, certamente não teríamos uma igreja hoje. Erros na Igreja de Cristo devem ser combatidos com todas as forças, para que nossos filhos e netos tenham uma igreja amanhã.

Como tratar um líder que está em desacordo com a palavra de Deus ou a confissão de fé da sua igreja?

Se for um oficial de igreja local, deve-se conversar com ele, seguindo os passos de Mateus 18. Se for um pastor, deve-se escrever uma carta a ele, exortando-o quanto à infidelidade. Se ele não mudar de comportamento, o caminho é entrar com um documento no conselho da sua igreja, solicitando que se suba ao Presbitério para as devidas providências.

Como manter a base da Reforma?

Eu entendo que a base da Reforma foi a Palavra de Deus. Assim, quanto mais os crentes forem motivados a ler e praticar a Palavra, mais a chama da Reforma estará acesa.

O que é permitido é proibido dentro da liturgia do culto? Como lidar com as crianças nesse contexto? O senhor aprova os moldes do "culto infantil" a parte do Culto Solene?

Contra a Norma Reguladora (católica e luterana) que ensinava que “o que não é proibido, é permitido”, os reformadores criaram ao Princípio Regulador do Culto que ensina que “apenas o que é ordenado nas Escrituras é permitido no culto”. Assim, nós cremos que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática também no culto. Cada elemento do culto deve ter correspondente bíblico. Sobre o chamado “culto infantil”, este não tem base bíblica. É uma invenção dos anos 70, influência da psicologia do desenvolvimento. Desta data para trás não havia culto infantil. As crianças sempre estiveram juntas com os pais no culto, como família da aliança. Se pensarmos bem, veremos que culto não é só ensino, mas é, sobretudo, adoração. Se nós tiramos as crianças da adoração, a questão é: quando elas aprenderão a adorar? Além disso, como bem disse John Piper “é difícil superestimar a boa influência de famílias fazendo coisas valiosas como família semana após semana, ano após ano. Cultuar é a coisa mais valiosa que o ser humano pode fazer. O efeito de 650 cultos que uma criança vai com o pai e mãe entre as idades de 4 e 17 é incalculável.” Na igreja em que pastoreio, as crianças e adolescentes tem um caderno próprio em que anotam o tema e as principais divisões do sermão. É uma bela visão para qualquer pastor ver crianças e adolescentes atentos ao sermão, fazendo anotações.

Dentro da liturgia muitos citam logo a África como exemplo de expressão cultural. Até que ponto o senhor acha que as expressões culturais atrapalham os Princípios do Culto?

É bastante claro para nós que teologia e liturgia andam de mãos dadas. A liturgia de um culto é a consequência lógica da teologia da igreja. No Seminário JMC temos enviado alunos e professores para alguns países da África. Assim, cremos que, na medida em que a teologia dos países africanos amadurecer, teremos também um amadurecimento daquela liturgia.

Como conter o avanço do liberalismo teológico?

Controlando os seminários. A história da igreja nos mostra que o primeiro ataque dos liberais a uma denominação começa nos seminários. Quando se incute teologia liberal nos futuros pastores, as próximas gerações sofreram as consequências. Denominações fortes cuidam bem de suas Casas de Profetas. Controle nesta área nunca será demais.

É possível que haja avivamento em nossos dias?

Possível e desejável. Todavia, o verdadeiro avivamento seguirá os padrões da Palavra, como na história de Josias em 2 Crônicas 34. Virá por meio de arrependimento de pecados, oração, santificação e obediência a Deus. No final do século 16 a Inglaterra presenciou um avivamento nestes moldes. Homens e mulheres começaram a ler e a viver a Palavra. Buscaram vida e culto puros. O resultado foi uma transformação da sociedade como um todo, com reflexos nos países vizinhos.

Vivemos dias difíceis no nosso país em especial moralmente na nossa política, o senhor acha que o Brasil pode estar sofrendo por consequência de sua rejeição a Deus e sua Palavra?

 Eu não tenho dúvidas disso. A omissão dos crentes no envolvimento político (décadas atrás) aliada ao materialismo que ilude as pessoas fazendo-as acreditar que a felicidade está nos bens geraram o que estamos vendo agora.

Qual o papel da família na igreja contemporânea?

Em um mundo que compartimentaliza tudo, a igreja ainda é a instituição que mantém a família unida. E deveria ser assim tanto nas programações quanto nos cultos.

A igreja contemporânea esta preparada para tribulação ou para o arrebatamento?

Deus escreveu todas as linhas da história. Assim, no momento em que Cristo voltar, a igreja irá com ele. E ela estará exatamente como deve estar.

A igreja atual investe no evangelismo local?

Bem pouco. Como disse acima, a nossa geração de crentes não tem se preocupado muito com evangelização. Todavia, os campos estão brancos. Em algumas viagens missionárias que fiz com alunos de seminários de todo o Brasil pudemos perceber o quanto as pessoas estão carentes do Evangelho. Nós fazíamos evangelismo nas ruas, nas praças, de casa em casa, e a quantidade de pessoas interessadas na mensagem era impressionante.

Muitos dos nossos irmãos não conhecem a doutrina reformada, muitos desconhecem até os atributos de Deus, por exemplo. É possível hoje na igreja ensinar teologia em classe de discipulado?

 Não só possível, como necessário. O advento da internet tem nos ajudado muito nisso. O conhecimento teológico se popularizou. Além da quantidade de livros bons em português, hoje você pode usar os recursos da informação (redes sociais, aplicativos e plataformas de ensino à distância) para investir nos alunos da Escola Dominical.

A cada dia os hinos do Hinário Novo Cântico estão sendo substituídos por hinos mais conhecidos, porém que não exaltam a Deus. Como conter esse avanço?

O HNC não é inspirado. Tem muito hino bom, mas também tem hino que não se pode cantar. Creio que o melhor caminho é utilizar os bons hinos do HNC, bons cânticos que tem surgido, com letras e melodias boas, e os salmos que têm sido metrificados ultimamente.

A igreja contemporânea deve se posicionar em assuntos de cunho político?

A igreja como instituição não. Os crentes sim. A Confissão de Fé de Westminster sabiamente estabelece que a igreja não deve imiscuir-se em assuntos do Estado (cap. 31). Os crentes devem ocupar posições na política a fim de que esta área seja redimida por Deus. Enquanto isso não acontece (e levará tempo) devemos nos lembrar do que disse o Dr. Martyn Lloyd Jones: “Cristãos devem desempenhar seus papéis na sociedade. E, de fato, historicamente isso é o que é mais interessante. A igreja teve grande influência na sociedade em condições sociais quando ela foi mais evangélica.” Intromissões eclesiásticas na política de um país tem quase nenhum efeito. Mas milhões de crentes obedecendo a Cristo nas diferentes esferas da sociedade podem mudar os rumos de uma nação.

Como estimular o chamado ao ministério dentro da igreja contemporânea?

Eu creio que isso depende mais de Deus do que da Igreja. Explico: O pastor pode mostrar à Igreja que os campos estão brancos, que o ministério é belo aos olhos de Deus, porém, o chamado não pode ser criado, ele tem de vir de Deus. Aquele que é chamado para o ministério sagrado não consegue fugir da vocação. Como escreveu Spurgeon no livro Lições aos Meus Alunos, aquele que é chamado ao ministério poderia estar em qualquer outra profissão, mas há um chamado interno que é intenso.

É possível uma igreja pentecostal se denominar reformada?

Há uns anos atrás D. A. Carson esteve no nosso Seminário. No final da palestra, na hora das perguntas, um aluno perguntou a ele se Mark Driscoll poderia ser considerado um reformado. Carson respondeu: “Driscoll pegou uma estrada no rumo da Reforma. Ele está a caminho.” Pois eu digo o mesmo sobre os irmãos pentecostais. Eles pegaram uma estrada no rumo da reforma, e creio que chegarão lá.

Há diferença entre pentecostais e neopentecostais?

 Sim. Costumamos chamar de pentecostais os irmãos das igrejas históricas como a Assembleia de Deus, Deus é Amor, Brasil para Cristo e outras antigas. Neopentecostais são as igrejas mais recentes como Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Mundial do Poder de Deus... Teologicamente, as igrejas pentecostais são mais sérias. Algumas das neopentecostais não podem ser chamadas de igrejas. Adoram o deus dinheiro.

A ordem dos Pastores Batistas aprovou a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. O que o Senhor acha/pensa desta decisão?

É uma decisão lamentável. Não há qualquer base bíblica para a ordenação feminina. No Antigo Testamento Deus não instituiu profetisas, sacerdotisas e rainhas. Jesus, mesmo tendo mulheres que o seguiam, não escolheu nenhuma para formar o grupo dos 12. E certamente ninguém ousaria acusar Jesus de machismo... O fato é que a argumentação que está fazendo algumas igrejas ordenarem mulheres é cultural, não bíblica. O problema é que é a mesma argumentação que, daqui a alguns anos, será usada para a ordenação homossexual. Que Deus tenha misericórdia destas denominações.

Suas considerações finais. Agradeço a gentileza das perguntasConheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa. Que Deus abençoe a todos.


Agradeço imensamente pela solicitude dispensada a nós, nesta nobre intenção de propormos uma reflexão sobre a Igreja moderna e seus rumos. Sendo assim, de forma muito cristã e carinhosa, o Reverendo Ageu Magalhães nos atendeu da melhor e mais solícita maneira possível respondendo nossas questões. Agradeço também os irmãos Junior Anderson e Rev. Ricardo Rodrigues, colunistas desse site, que contribuíram para que esse debate nos edificasse e que juntos pudéssemos refletir nestes apontamentos teológicos da igreja atual. Boa leitura a todos! Graça e paz da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo, O Cabeça da Igreja!

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