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Aécio e o luto da esquerda - RICARDO RANGEL





Q uando despontou na política, secretário particular de seu avô, Aécio Neves era o
 retrato perfeito do político jovem e moderno. Claramente destinado a uma carreira
brilhante, não foi surpresa quando, sucessivamente, se fez deputado federal, presidente
 da Câmara, governador de Estado, senador da República - e, quase, presidente
da República.

Mas era tudo aparência. Não era jovem, era moleque. Parecia moderno, era
modernoso. Não encarnava o novo, mas o novidadeiro. Não era inteligente, era
calculista. Não tinha ambição, tinha ganância. Não era interessado, e, sim,
interesseiro. Parecia altivo, era vaidoso.

À fortuna da família, preferiu as gorjetas dos arrivistas, e trocou a estirpe de
Tancredo Neves pela laia de Joesley Batista. Herdeiro da melhor tradição,
escolheu ser representante do que há de mais atrasado. Desonrou a si mesmo,
ao sobrenome e ao país.

Como o Dorian Gray de Oscar Wilde, Aécio manteve a aparência jovem e impoluta
 durante anos, enquanto seu caráter, oculto pela hipocrisia, apodrecia em silêncio.
Como Gray, assassinou-se a si mesmo - e expôs sua decrepitude em praça pública.

Muitos políticos, talvez a maioria, têm excelentes motivos para tentar salvar o
expresidente do PSDB, mas, a seis meses da eleição, ninguém o fará.
 Infinitamente mais digno e inteligente do que o neto, Tancredo dizia que
político acompanha o féretro até a beira da sepultura, mas não entra na cova
 com o defunto. Aécio está morto e só. E não deixa saudades. ______ A reação
à aceitação da denúncia é emblemática. Ninguém reclamou de falta de provas,
 nem que eleição sem Aécio é fraude. Ninguém vandalizou casa de ministro do
 Supremo, nem acampou em frente à casa do réu, nem organizou coro de bom
 dia. Ninguém incluiu "Aécio" em seu nome, nem afirmou que ele é guerreiro do
 povo brasileiro. Ninguém acha que Aécio é uma ideia.

Os eleitores de Aécio, cientes de que foram traídos, não lhe dedicam amor, mas
 desprezo, e a esmagadora maioria comemora que mais um criminoso será punido.
 Uma minoria, cujos gritos de "e o Aécio?" cessaram, está atônita, e de luto,
pois a morte de Aécio inviabiliza a narrativa do "golpe".

A cada passo, torna-se mais desconfortável defender Lula. Ignora-se a "direita"
na cadeia. Descarta-se um oceano de provas. Defende-se o fim da Ficha Limpa.
 Não se enxerga que Lula foi dos últimos a ser presos, o único a ficar solto
até a segunda instância. Não se percebe que o Supremo quase o libertou.
Combate-se a prisão na segunda instância. Joga-se fora o ideal de igualdade,
razão de ser da esquerda há 200 anos. Faz-se que não se vê Paulo Preto na
 cadeia, nem aonde isso vai dar. E eis Aécio réu.

A narrativa mais uma vez se adapta: Aécio é um boi de piranha, a denúncia
serve para dar a impressão de que a lei é para todos, mas, na verdade, é só
 para inglês ver: ele jamais será condenado. A cada nova etapa, mais intrincada
 e espaventosa se torna a teoria da conspiração. Para calar a própria consciência,
 que brada "acorda para a realidade, companheiro, Lula é culpado!", é preciso
gritar "Lula livre" e xingar os outros de fascistas a cada minuto.

Mas uma hora a realidade se impõe. Quanto maior for o esforço para ignorá-la,
maior será a ressaca.

Fonte: O GLOBO - RJ

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