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22 de abril de 2018

Nove em cada 10 deputados vão tentar a reeleição

O deputado Simão Sessim planeja o 11º mandato consecutivo
Imagem: Sérgio Almeida/Agência Câmara






















A classe política vive um momento de forte desgaste, mas a busca por um novo
 mandato mobiliza quase 90% da Câmara dos Deputados. Contrariando uma
 expectativa por renovação, os partidos representados na Casa projetam um índice
 recorde de candidatos à reeleição neste ano. Levantamento feito pelo Estado revela
que ao menos 447 deputados – nove entre dez – estão dispostos a estender a
 permanência no Congresso por mais quatro anos. Outros 18 ainda não se
decidiram e 48 afirmam que deixarão a Casa.

Se confirmadas as projeções dos partidos, a eleição de outubro terá o maior
 número de mandatários nas urnas desde a redemocratização, superando as
 disputas de 1998 e 2006, quando 443 e 442 deputados, respectivamente, tentaram
a reeleição. A diferença é que, desta vez, as campanhas serão custeadas basicamente
com recursos públicos.
Um dos decanos da Casa, o deputado Simão Sessim (PP-RJ) planeja
seu 11.º mandato consecutivo. Alvo de um inquérito da Operação Lava Jato,
arquivado em 2016, o parlamentar diz não se preocupar com a manutenção
 do foro privilegiado, mas com a continuidade do trabalho para a comunidade
de Nilópolis, seu reduto eleitoral. “Sou ficha limpa”, disse Sessim, de 82 anos.
“Já passei por muitas tempestades em Brasília, dos anões do orçamento ao
mensalão e agora a Lava Jato. Resisto, passo de geração em geração.”


Se agora não poderá contar com doações empresariais, o carioca terá prioridade
 na divisão dos recursos, assim como os demais deputados que vão para a reeleição,
seja qual for o partido. Pelas regras atuais, tanto o fundo eleitoral de R$ 1,7 bilhão,
 criado ano passado, como o Fundo Partidário de R$ 888 milhões são divididos de
acordo com o número de parlamentares eleitos por legenda.


A necessidade de se manter as bancadas e, de preferência, aumentá-las, explica a
opção dos partidos em investir mais em quem já é conhecido ou possui mandato.
 Mas a necessidade de continuar com o foro privilegiado, segundo o professor de
 ciência política da USP, Glauco Peres, é o que define se o parlamentar vai ou não
arriscar outro cargo – em quatro anos de Lava Jato nenhum deputado foi condenado
 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


“Isso virou bem importante. Vários deputados vão tentar se reeleger como forma de
 garantir que seus processos não avancem”, afirma Peres. Ele ressalta que, apesar de
 o Supremo indicar que vai restringir o alcance do foro a crimes cometidos no
 exercício do mandato (já há maioria na Corte), a “ameaça” não é suficiente para
desencorajar os parlamentares da estratégia.


“Os deputados investigados não vão abrir mão disso (do foro) facilmente. Existe o
 risco de o STF voltar atrás? Existe. Mas é um tanto arriscado eles já abrirem mão
disso. Que outra chance eles têm?”.


Réu na Lava Jato por corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e formação de
 quadrilha, Aníbal Gomes (DEM-CE) é acusado de receber R$ 3 milhões oriundos
 do esquema. Ele nega e diz que sua intenção em continuar na Câmara em nada tem
 a ver com o foro. “É indiferente. Aliás, ter foro é até pior. Quem não tem foro tem
 três instâncias (para se defender), enquanto nós só temos uma oportunidade
 (no STF)”, afirmou o deputado.


Alguns parlamentares vão deixar para a última hora a decisão sobre qual cargo
concorrer. É o caso, por exemplo, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), pré-candidato à Presidência da República. Com apenas 1% nas pesquisas
 de intenção de voto, sua candidatura é colocada em dúvida até por aliados.


A lista de indecisos para renovar o mandato na Câmara inclui ainda outros 17
parlamentares, que tentam se cacifar para cargos majoritários – Senado, governo
 de Estado ou vice. A deputada Christiane Yared (PR) está em seu primeiro
mandato na Casa, mas já é pré-candidata ao Senado do Paraná. Se não conseguir
 entrar na disputa, tentará a reeleição.


No PSDB, a vaga para a corrida ao Senado por São Paulo também está aberta e
 mobiliza os deputados Mara Gabrilli e Ricardo Tripoli, que concorrem com o
deputado estadual Cauê Macris. Até mesmo Tiririca (PR-SP), que chegou a anunciar
que não tentaria a reeleição, está na lista dos indecisos. Seu partido, no entanto,
 afirma contar com os votos dele.


Além de Maia, há ainda dois deputados que pretendem disputar a Presidência.
Vice-líder nas pesquisas de intenção de voto (no cenário com o ex-presidente Luiz Inácio
 Lula da Silva), Jair Bolsonaro (PSL-RJ) deixará a Casa após sete mandatos consecutivos.
 O novato Cabo Daciolo (PEN-RJ) também sonha com o Planalto e tem a promessa do
 partido que receberia Bolsonaro de ver seu nome na urna.


‘Equivalentes’. Cientista político e professor da FGV-SP, Cláudio Couto ressalta que
 um alto índice de troca de mandatários não significa necessariamente renovação.
 “Primeiro porque muitos são parlamentares que retornam à Casa após um interregno;
segundo, porque outros são políticos equivalentes ao que não se reelegeram, numa
troca de seis por meia dúzia”, diz.


Para Couto, não serão, portanto, as recandidaturas em grande número a causa de
 uma eventual baixa renovação. “Ela tende a não ocorrer de uma forma ou de outra
em decorrência dos critérios de seleção dos partidos. Se oferecerem mais do mesmo,
 o eleitor poderá até mudar os nomes, mas não modificará a essência de sua
representação”, afirma.


Se vencer nas urnas, Sessim será o recordista em mandatos consecutivos a partir de
 2019. Para atrair votos, entrou nas redes sociais. No próximo pleito, porém,
já projeta fazer seu sucessor: “Estou apostando em um neto meu.
Acho que ele tem futuro.” 


Folha Política

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