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Pastor lulista quer emplacar 'bancada evangélica do bem' Ariovaldo Ramos se contrapõe a ala de direita que defende interesses de sua religião no Congresso




17 de Maio de 2018 às 07:06 Por: Folhapress Por: Folhapress

Se você jogar o nome de Ariovaldo Ramos no Google, a ferramenta logo sugere que você adicione uma palavra à busca: “Comunista”. Isso de tantos usuários que o fuçam na internet procurarem saber se ele é “vermelho”.

É o que seus desafetos vivem dizendo sobre o pastor evangélico que estava lá quando Lula pernoitava no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de onde saiu direto para a prisão, em abril. E depois num prédio na Barra Funda (região central de São Paulo) onde um movimento de moradia instalou a Ocupação Marisa Letícia, batizada com o nome da mulher do ex-presidente, morta em 2017.

Se tem um rótulo que Ariovaldo, 62, aceita de bom grado é o de progressista. Membro da igreja Comunidade Cristã Reformada, ele é hoje uma das grandes vozes à esquerda dentro de sua religião e líder da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito —que, segundo ele, está em 20 estados e agrega mais de 10 mil membros.

Não é gratuito o uso da preposição “de” no nome do movimento. “É para diferenciar da frente evangélica”, diz. Refere-se à bancada de congressistas que ele define como “lamentável, para ser bondoso, porque fez todas as escolhas possíveis contra pobre, minorias, mulher, trabalhador”.

Dela vêm pastores como o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP) e o senador Magno Malta (PR-ES), potencial vice de Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Gente que “diz que fala em nome dos evangélicos” mas, para Ariovaldo, passa longe da unanimidade entre os 70 milhões de brasileiros que confessam essa fé, 32% da população.

A representação evangélica em Brasília, em sua opinião, está mais interessada em “impor o moralismo fundamentalista sobre a nação, fazer uma ruptura com o Estado laico”, do que pregar os ensinamentos de Jesus.

Seu bloco tem integrantes acampados em Curitiba por Lula. Por chamar de golpe o impeachment de Dilma Rousseff e o encarceramento de Lula, o pastor amealhou inimizades em seu meio.

Síntese desse malquerer está no portal Gospel Mais: “Apesar de a Bíblia declarar que ‘o fazer justiça é alegria para o justo’, Ariovaldo publicou vídeo criticando a ordem de prisão do juiz Sergio Moro”.

Um dos canais que usa para se manifestar é a Mídia Ninja. Para o projeto alinhado à esquerda escreveu a coluna “Pobre Elite Branca”, crítica a um artigo de 2013 de Ives Gandra da Silva Martins.

Nele o jurista diz: “Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o ‘cidadão comum e branco’ é agressivamente discriminado [...] pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos”.

Rebateu o pastor: “O que este advogado não entende, ou melhor, não quer entender, é que, graças à injustiça que há no Brasil, ele e a classe que ele representa é que vivem com a dignidade e qualidade que todo cidadão deveria viver”.

Se a direita emplacou seus evangélicos em Brasília, e tem planos de ampliar ainda mais seu feudo parlamentar, está na hora do seu lado fazer o mesmo, diz Ariovaldo.

“O papel da igreja é ser a consciência do Estado, não almejar poder”. Ao mesmo tempo... “Queremos uma bancada do bem, porque a do mal, já estamos cansados dela.” Ele afirma que o voto será uma sugestão, e não uma imposição. “Não acreditamos no voto de cajado, ‘irmão vota em irmão’.”

Segundo pesquisa Datafolha de 2017, 8 em cada 10 brasileiros não costumam levar em conta a opinião de seus líderes religiosos quando eles fazem campanha por algum candidato. O quinhão evangélico que dá ouvidos a seus pastores é maior do que a média e chega a 31% entre neopentecostais (representados por igrejas como Universal).

Ariovaldo se tornou cristão em 1968, quando a ditadura instaurou o AI-5. Ele era então um guri de 12 anos e, na adolescência, o máximo de guerrilha que fez foi “passar folhetinhos que chegavam escondidos, notícias de ações revolucionárias”, entre coleguinhas da escola.

Já feito pastor, virou expoente da Teologia da Missão Integral, que pareava com a católica Teologia da Libertação em termos de posicionamento ideológico à esquerda (mas a evangélica, diz Ariovaldo, não enveredou “pela via revolucionária de viés marxista”).

O senso comum pode até jogar todos os evangélicos num mesmo saco conservador, mas protestantes já estiveram na proa do pensamento de esquerda no país. Ariovaldo lembra da Conferência do Nordeste, organizada por lideranças evangélicas em Recife, dois anos antes do golpe de 1964.

Mote: “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. Entre os convidados, intelectuais como Gilberto Freyre, Celso Furtado e Paul Singer.

Mas o alinhamento a causas da esquerda não é incondicional. Ariovaldo acha que a comunidade LGBTQ “deve ser respeitada em suas escolhas, mas não tem direito de influenciar a teologia” —que é “muito clara ao dizer que há dois gêneros”, masculino e feminino.

Folha de São Paulo

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