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Manter memória do Holocausto é desafio 73 anos após fim da guerra


À medida que testemunhas oculares do genocídio promovido por Hitler desaparecem, é preciso pensar como não deixar a história ser apagada




Novas gerações precisam de acesso aos relatos e memórias do Holocausto

Novas gerações precisam de acesso aos relatos e memórias do Holocausto

Getty Images / Lior Mizrah / 27.1.2017
A rendição dos alemães na Segunda Guerra Mundial, em 1945, completou 73 anos neste mês de maio. Quase três quartos de século depois de um dos piores capítulos da história da humanidade se encerrar, restam cada vez menos pessoas no mundo que testemunharam o Holocausto. E ao mesmo tempo que estas testemunhas desaparecem, cada vez mais pessoas vivas questionam os números, a atrocidade e o horror do genocídio promovido pelo governo de Adolf Hitler, que custou a vida de cerca de seis milhões de judeus.
A exemplo do que aconteceu com a Primeira Guerra, também um conflito com milhões de mortos e que raramente tem seu tamanho lembrado, o Holocausto corre o risco de cair no esquecimento e na relativização. Por isso, ouvir as pessoas que testemunharam a tragédia e manter vivas as suas memórias é cada vez mais importante e necessário.
Tragédias individuais
“A história do Holocausto é de despersonalização, de pessoas que perderam nomes, nacionalidades, rostos. Por isso é importante valorizar a parcela individual dessa história, é o genocídio de um povo, mas também é a tragédia individual de cada uma dessas pessoas que merecem serem reconhecidas separadamente”, afirma Isadora Sinay, doutoranda em literatura judaica na USP.
Segundo ela, trazer à tona o relato dos sobreviventes do Holocausto é a única maneira de ter a versão das vítimas como forma de contrapor os registros dos campos de concentração feitos pelos nazistas.
“É nosso único acesso ao ‘outro lado da história’, uma vez que a maior parte dos exércitos aliados só entrou nos campos quando eles já tinham sido desmontados e em alguns casos postos abaixo pelos nazistas”, relembra.
Lições do Holocausto
Para Michel Dymetman, 94, que foi prisioneiro em dois campos de concentração diferentes durante a guerra e até hoje faz palestras contando o que viveu, a experiência pessoal de sobreviver a uma das maiores tragédias da história humana deveria servir para evitar que novas tragédias venham a acontecer.
Michel, sobrevivente do Holocausto, e o bisneto

Michel, sobrevivente do Holocausto, e o bisneto

Edu Garcia / R7
“Meu ponto de vista não é só falar do Holocausto, mas tirar as lições do Holocausto. Ele passou, ninguém muda isso, mas qual é a lição? Primeiro, um governo autoritário não tem limites. Por que isso foi possível na Alemanha, que 50 anos antes de Hitler era o país mais avançado da cultura humana? Porque o poder dele era tão grande que ninguém podia nem imaginar discordar das ideias dele”, analisa.
Como exemplo, ele cita uma conversa que teve com um dos guardas da SS que tomavam conta do campo de Mauthausen, na Áustria, onde ficou de 1942 a 1945. Eram os últimos dias da guerra e a derrota alemã, a cada dia, parecia mais inevitável.
“Ele me disse ‘como Deus permite que um homem como Hitler, que fez tanto pela humanidade, perder a guerra? Onde está Deus?’ Para mim, um prisioneiro! Como ele podia estar tão fora da realidade? Minha lição é que a ditadura faz com que o ditador consiga levar o povo para o caminho que ele quer, o povo fica anulado, essa é uma das grandes lições”, afirma Dymetman.
Revisionismo e história
Nos últimos anos, correntes que visam reduzir o tamanho ou o alcance do Holocausto vêm se multiplicando, em parte se aproveitando do vazio deixado pelo número cada vez mais reduzido de sobreviventes. Para a pesquisadora Isadora Sinay, combater o revisionismo é uma tarefa complicada e necessária.
“Muitas pessoas têm apenas uma noção muito vaga do Holocausto como ‘câmaras de gás’ ou como ‘todas as pessoas mortas pelos alemães’. E não é isso, é um genocídio específico de um povo, fruto de um processo longo e intenso de desumanização e humilhação. Compartilhar essas histórias ajuda a dar uma cara específica a um evento que muita gente só reconhece como genérico e distante. Infelizmente, revisionismo e negacionismos são um desafio muito atual”, avalia.
Para Michel Dymetman, negar ou mudar versões sobre o Holocausto equivale a uma violência. Segundo ele, é por esse motivo que ele passou as últimas sete décadas contando suas experiências em palestras, eventos e até mesmo em um livro, que publicou em 2011.
“Eu falo porque os mortos não podem falar, me sinto um pouco como um porta-voz deles. As pessoas no Brasil e no mundo precisam conhecer a história. A história humana é cheia de barbaridades e aquilo foi feito e organizado legalmente, pelo governo e pelo povo”, diz.
"Eu falo porque os mortos não podem falar, me sinto um pouco como um porta-voz deles"
Michel Dymetman, sobrevivente do Holocausto
Mantendo a memória
Uma das maneiras de combater o fim da memória é passa-la aos mais jovens. Criada em 1988, a Marcha da Vida reúne milhares de estudantes de todo o mundo em uma viagem que passa pelos principais campos de concentração da Europa, como Auschwitz e Birkenau. Na marcha deste ano, o bisneto de Michel Dymetman, o estudante Yoav Sanz Serol, 15, foi um dos participantes.
“Quero que todo mundo saiba o que aconteceu. Quando alguém diz que o Holocausto não aconteceu, eu sinto como se eu mesmo passasse por aquela violência, percebo a maldade ainda viva”, ressalta Yoav. O adolescente participou da Marcha por meio de um programa do Colégio Renascença, onde estuda.
A diretora da área judaica da escola, Marli Ben Moshe, falou sobre o papel do programa para os jovens: "O mais importante é a gente perpetuar a memória, transmitir e cuidar para que isso não aconteça de novo. Precisamos desses jovens como testemunhas do que aconteceu com os judeus na época e o que acontece até hoje com várias minorias que ainda sofrem violência."
Durante a viagem, o adolescente conseguiu chegar mais perto da resposta para uma pergunta que perseguiu o bisavô durante toda a vida: ao olhar os registros, ele descobriu que a mãe de Michel, que havia desaparecido, na verdade tinha sido levada para outro campo de concentração após ser capturada, provavelmente na Polônia e morreu logo nos primeiros dias. “Meu conforto é que ela sofreu pouco”, diz Dymetman.
Em viagem a campo de concentração, bisneto descobriu destino da mãe de Michel

Em viagem a campo de concentração, bisneto descobriu destino da mãe de Michel

Edu Garcia / R7
Sobrevivente de dois campos de concentração fala do Holocausto. Assista!

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