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31 de janeiro de 2015

Entrevista da Rô com Augustus Nicodemus Lopes - Refletindo sobre a Igreja Contemporânea, com o Dr. Augustus Nicodemus Lopes.

É com imensa satisfação e alegria que eu, Rô Moreira, tenho  ao entrevistar o Dr Augustus Nicodemus Lopes, com uma serie de perguntas e questionamentos feitos por diversos irmãos internautas, do  meu Facebook e do meu Blog. 

As questões permeiam sobre os rumos da Igreja Brasileira, seus atuais problemas e seus caminhos, e também sobre questões da teologia reformada. O entrevistado Dr Augustus Nicodemus Lopes, é um dos mais renomados expoentes da teologia reformada e Calvinista no Brasil, sendo ele um dos grandes incentivadores do estudo teológico, e da erudição teológica reformada no Brasil. 

Sobre o Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes, ele é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Fez seu curso de bacharel em teologia no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife. Depois, obteve o mestrado em Novo Testamento na África do Sul, na Universidade Cristã de Potchefstroom, ligada à Igreja Reformada. Posteriormente, depois de servir como professor, e diretor do Seminário Presbiteriano do Norte, bem como pastor da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife, obteve o grau de doutor em Hermenêutica e Estudos Bíblicos pelo Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, Estados Unidos, com estudos adicionais na Universidade Reformada de Kampen, na Holanda. Seu doutorado no Brasil é validado pela PUC do Rio de Janeiro. Recentemente terminou o pós-doutorado no Seminário Teológico de Westminster. Foi pastor da Igreja Evangélica Suíça de São Paulo, professor e diretor do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da Igreja Presbiteriana do Brasil e Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É autor de diversos livros, entre eles “O Que Você Precisa Saber Sobre Batalha Espiritual”, “A Bíblia e Sua Família”, “O Culto Espiritual”, “A Bíblia e Seus Intérpretes”, “O que Estão Fazendo com a Igreja,” “O Ateísmo Cristão e Outras Ameaças à Igreja,” e comentários sobre diversos livros da Bíblia. Atualmente é pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo e professor de Novo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.
 
1 – Vou fazer uma analogia: a igreja em Corinto parece muito com as igrejas neo-pentecostais contemporâneas. Meio caóticas e cheias de "dons". E o sistema judaico fariseu lembra muito as igrejas tradicionais e até reformadas, pelo sistema litúrgico e certa racionalidade. A pergunta é: as igrejas neo- pentecostais estão cheias devido ao misticismo, e as tradicionais se esvaziam, devido a racionalidade de sua mensagem e as vezes filosóficas etc. Como encontrar o equilíbrio? Se é que existe. O problema esta no pragmatismo das igrejas pentecostais ou na forma de comunicação das igrejas reformadas? Por - Rô Moreira 


  Rev. Augustus Nicodemus: - O equilíbrio sempre será um retorno ao ensino das Escrituras sobre o Evangelho e a igreja de Cristo. É no Evangelho que encontramos a conjunção de piedade e conhecimento, de experiência com Deus e profundidade teológica. Se as igrejas neopentecostais resolvessem mudar e seguir o que a Bíblia de fato ensina sobre a pessoa e a obra de Cristo, sobre a sua igreja, sobre a necessidade de arrependimento e mudança de vida, de santificação e mortificação do pecado, e se abandonassem a pregação da prosperidade financeira, teriam um número bem menor de membros, mas a possibilidade de que estes sejam realmente convertidos seria bem maior. Da mesma forma, se as igrejas reformadas se voltassem para este mesmo Evangelho, experimentaria de maneira mais profunda o relacionamento com Deus na prática e teriam mais liberdade para falar à nossa geração de maneira mais contextualizada. Não é garantido que fidelidade à Bíblia sempre produza crescimento numérico – as vezes é até o contrário. Mas certamente produz uma igreja mais forte e mais santa.

2 - Segundo pesquisas as igrejas históricas atuam mais tempo no Brasil. E são referencias em missões, educação e teologia tendo maior penetração na classe média e alta, já o pentecostalismo cresce nas camadas mais pobres. P: a condição sócia econômica do brasileiro seria uma das causas do baixo crescimento das igrejas  históricas? Se há outra causa, qual seria? - Pergunta de Ro Moreira. 

 Rev. Augustus Nicodemus: - Essa associação das igrejas históricas com as classes mais altas da sociedade nem sempre é verdadeira. Uma das maiores igrejas presbiterianas do mundo é a do México, com mais de 2 milhões de membros. Contudo, não é uma igreja da classe alta, mas sim das camadas mais pobres da população. E também é importante notar que o pentecostalismo vem avançando, no Brasil e no mundo, entre pessoas das classes mais altas da sociedade (lembrando que no exterior o pentecostalismo é diferente quanto aos usos e costumes do pentecostalismo brasileiro). Até a década de 50 no Brasil, as maiores igrejas evangélicas eram as presbiterianas e batistas. Perderam espaço para os pentecostais e depois os neopentecostais porque foram infiltradas pelo liberalismo teológico, através dos seminários, e tiveram que enfrentar o inimigo dentro de casa. Durante as décadas de 60 e 70 os presbiterianos no Brasil estavam empenhados em sobreviver ao vírus mortal do liberalismo, que fechou muitas igrejas na Europa. O foco deixou de ser o crescimento e passou a ser a sobrevivência. Não podemos dizer que as igrejas históricas ficaram totalmente livres deste mal, mas o fato é que elas perderam muito do fervor inicial de ganhar os perdidos para Cristo.


3- “Nossa geração (e aqui incluímos a igreja) enfrenta uma crise que tem afetado todas as áreas, seja da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou teologia, questões que no passado eram definidas, retornam nesta era como grandes desafios para sociedade. As questões que envolvem a homossexualidade, aborto, eutanásia, racismo, pobreza, religiosidade entre outras, voltaram para um estado de indefinição.” P: Neste aspecto a igreja parece tão desorientada quanto a sociedade. É culpa do politicamente correto ou é mais uma das , digamos, portas do inferno que a igreja enfrenta nas eras de sua edificação? - Pergunta de Ro Moreira.


 Rev. Augustus Nicodemus:: Na verdade, estas questões nunca foram totalmente definidas. Já na época dos pais da igreja (sécs. II em diante) encontramos alguns destes temas sendo discutidos ou sendo objeto de orientações por parte dos líderes cristãos. É verdade, todavia, que antigamente as respostas para estas questões eram mais claras e definidas. O que mudou é que a sociedade ocidental que se ergueu sobre valores cristãos se secularizou e o cristianismo cada vez mais deixa de ter sua voz ouvida na arena pública. Estas questões passaram a ser questões de estado, que na sociedade secularizada é, por definição, laico. A igreja no Brasil, além de não ter tradição de influenciar a sociedade nestas questões (como tem nos Estados Unidos e antigamente na Europa), está fragilidade em seu testemunho, pulverizada em sua unidade e é teologicamente fraca, embora seja numericamente grande. A falta de exposição bíblica, formação bíblica séria, a falta do cultivo de mentes e corações enraizados na Palavra de Deus produziu um cristianismo no Brasil que é tão extenso quanto o Amazonas ao RS mas de uma rasura de poucos centímetros…


4 - Li em um artigo do Renato Vargens que o senhor afirmou certa vez que  " as Escrituras não deixam dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente; ao mesmo tempo, porém, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. " P: Como entender o fenômeno dos desigrejados? - - Pergunta de Ro Moreira 

 Rev. Augustus Nicodemus:O termo “desigrejado” pode ser usado para pessoas que se identificam como cristãos mas que rejeitam as igreja cristãs organizadas ou institucionalizadas, particularmente as denominações, e que se reúnem em grupos informais nas casas ou em outros lugares, para leitura e estudo da Bíblia, oração e louvor e comunhão. Eu entendo a razão por que estas pessoas têm esta atitude, embora eu a considere radical e extremada – há crentes verdadeiros nas denominações e elas foram responsáveis pela tradução da Bíblia, formação de agências missionárias mundiais, criação de hospitais, escolas e orfanatos, etc. Mas “desigrejado” significa também aqueles que se dizem cristãos mas que não procuram comunhão alguma com outros cristãos, mesmo em grupos informais. É a estes que me referi. Não se pode ser cristão sem igreja. E por “igreja” eu não quero dizer igreja institucional ou denominacional, mas um ajuntamento de irmãos em Cristo para adorar a Deus, estudar sua Palavra, cantar seus louvores, celebrar o batismo e a Ceia, exercer a disciplina mútua e evangelizar. Não precisa ser uma denominação para isto. E nem precisa de templo ou CNPJ para isto.

5- As condições para o serviço cristão eficaz "Tem sido frequentemente demonstrado que é apenas na medida em que as pessoas forem completamente instruídas na Palavra de Deus que elas se tornarão cristãos firmes e trabalhadores eficazes por Cristo. Há, assim, uma relação definitiva entre a pregação doutrinária e o serviço cristão eficaz”, no entanto, cada vez mais o que temos presenciado são cristãos superficiais, desinteressados da mensagem da bíblia, e quase sempre e facilmente levados por ventos de doutrinas falsas, portanto, o que pode-se fazer para resgatar valores cristãos, ou incuti-los na atual geração? – pergunta de - Ivete Paixão


Rev. Augustus Nicodemus: Boa parte deste problema é resultado de líderes fracos. Mas, tem muita gente procurando orientação e referencial nas mídias sociais, que é uma importante ferramenta para a divulgação da verdade da Palavra de Deus. Há várias maneiras de incutir valores cristãos na atual geração, como bom conteúdo nas mídias sociais, boas indicações de livros - o bom mesmo seria o surgimento de muitas novas igrejas comprometidas com a verdade bíblica e o discipulado de seus membros. Mas, acima de tudo, fazer estas coisas com atitude de amor e paciência.

 
6– A Igreja presbiteriana está tomando um rumo contrario de uma forma geral. Enquanto vemos uma crescente onda de pessoas se reformando, vemos um monte de igreja presbiteriana se afastando da reforma, e se “pentecostalisando”? - Pergunta de Eduardo Medeiros
  
Rev. Augustus Nicodemus: A pentecostalização das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas, tem origem no movimento carismático da década de 60. Acontece porque estas igrejas históricas - ou pelo menos, uma boa parte delas - não conseguiram se adaptar e acompanhar as mudanças rápidas na sociedade em geral, na maneira como as pessoas se comunicam e nos temas que ocupam a mente do público, e continuaram dando respostas para perguntas que ninguém estava fazendo. Os movimentos pentecostais e neopentecostais são modernos, voltados para as necessidades das pessoas, como cura, trabalho, solução de problemas pessoais e por este motivo atraem seguidores de dentro das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas. O que estamos vendo é o que tem sido chamado de pós-denominacionalismo, período em que as denominações tradicionais vão perdendo mais e mais o poder de segurar seus membros, os quais se organizam em tribos com caciques virtuais que se comunicam pelas mídias sociais. Por exemplo, a tribo dos reformados que seguem Piper, Washer, Sproul, etc. é muito grande dentro da denominação Assembléia de Deus. Da mesma forma, a tribo pentecostal dentro dos batistas, presbiterianos, etc., que seguem Malafaia e outros, também é grande.


7- Uma outra dúvida que eu tenho é: O assunto sobre batismo é essencial ou periférico ? Por exemplo, as diferenças entre batistas e presbiterianos em relação ao batismo, é algo fundamental ou periférico? Até onde isso pode atrapalhar a comunhão de irmãos dessas denominações? - Pergunta de - Eduardo Medeiros


Rev. Augustus Nicodemus: o batismo, como selo e símbolo da nossa aliança com Deus, como rito iniciatório no Cristianismo, é essencial. Ele foi ordenado pelo próprio Senhor Jesus Cristo na Grande Comissão (Mat 28:18-20). As diferenças relacionadas com a forma de batismo (aspersão, imersão, afusão) são periféricas e não deveriam nos separar.


8 - Rev.Nicodemus, é muito evidente a lepra da “Praticidade religiosa” em nossos dias na maioria ou generalizadamente em todas as igrejas, o imediatismo, a busca de um evangelho resolvedor de Problemas, o Evangelho “miojo”, e a impaciência pela lei da semeadura que nos é ensinado na Palavra de Deus, tem gerado crentes extremamente superficiais e inaptos a refletirem a vida cristã, como mudar isso Reverendo? - pergunta de Ivete Paixão


Rev. Augustus Nicodemus: O caminho bíblico para a educação, edificação, instrução dos crentes é o ministério dos pastores e mestres, conforme Paulo nos ensina em Efésios 4. Mestres que sejam fiéis à Palavra de Deus ensinarão e corrigirão os erros e desvios do rebanho, como a praticidade religiosa mencionada na pergunta. Mas o que temos hoje são muitos mestres segundo os seus próprios interesses, que promovem o erro motivados pela ganância. Se Deus não levantar pastores segundo o Seu coração, esta situação vai continuar e piorar.



9- Quanto às expressões, ou, manifestações pentecostais e neo-pentecostais em algumas IPBs? São ensinadas/aceitas nos seminários (no sentido de: há como filtrar isso nos seminários)? Como corrigir, uma vez que alguns conselhos (presbíteros e pastores) são adeptos de tal movimento? E tendo em vista que os Ministros Presbiterianos são sempre entrevistados anteriormente (pelo Conselho da Igreja) ao serem convidados para tal igreja, serem Pastores, isso para que suas convicções sejam conhecidas anteriormente! - Pergunta feita por Nando.

 Rev. Augustus Nicodemus: A IPB tem tomado posição sobre temas relacionados com o neopentecostalismo. Estas posições podem ser encontradas, por exemplo, na "Carta Pastoral sobre o Espírito Santo” de 1998, onde a IPB se posiciona sobre o batismo com o Espírito Santo, sobre línguas e profecia e a contemporaneidade destes dons (veja aqui: http://ipbcambeba.wordpress.com/category/posicionamentos-da-ipb/page/4/). Há ainda outro posicionamento sobre a IURD de 2007, onde analisa suas práticas e as considera como de uma seita (veja aqui: http://www.ipbmetropolitana.com.br/sites/bancoimg/130406044857CartaPastoralsobreaIURD_LudgeroBonilhaMoraes.pdf). O que acontece é que pastores, conselhos de igrejas, presbitérios e sínodos simplesmente ignoram estes posicionamentos quando analisam candidatos ou julgam denúncias de práticas estranhas à IPB. Pessoalmente, não acredito que haja solução para isto. As denominações estão gradualmente perdendo a capacidade de manter a coerência doutrinária de seus pastores, instituições teológicas e igrejas.

10- É possível uma igreja pentecostal se denominar reformada? - Pergunta de Heuring Felix Motta

 Rev. Augustus Nicodemus: Vai depender da definição de “pentecostal” e “reformada”. Uma situação possível é de igrejas que acreditam na contemporaneidade de dons como línguas, profecia e curas (sem que estas manifestações se configurem em novas revelações) e ao mesmo tempo são reformadas na soteriologia, isto é, aceitam os cinco pontos do calvinismo e os cinco “solas” da Reforma. Todavia, um ponto central da Reforma protestante é “Sola Scriptura”. Uma igreja que se considera reformada mas que está aberta para novas revelações ou experiências, as quais acabam se tornando referencial de doutrina e prática, não pode ser considerada reformada.

11– A ordem dos Pastores Batistas, acaba de aprovar a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. O que o Senhor acha/pensa desta decisão? – pergunta de Raymundo Ribeiro

 Rev. Augustus Nicodemus: Considero uma decisão biblicamente equivocada, que é muito mais fruto do espírito da época do que de exegese e interpretação bíblicas saudáveis. É mais uma organização eclesiástica tradicional e histórica que cede às pressões da nossa cultura.

12 - Eu queria saber a opinião do senhor sobre a junção (ou aceitação) que muitos fazem entre cristianismo e maçonaria. À luz das Escrituras é permitido ser cristão e maçom ao mesmo tempo? Tô fazendo essa pergunta por que há vários pastores e presbíteros maçons comandando igrejas por aí, inclusive e principalmente igrejas Presbiterianas? Pergunta feita por Cleison Lima

 Rev. Augustus Nicodemus: A IPB, depois de muitos anos de discussão, posicionou-se contra a maçonaria, declarando a incompatibilidade entre a maçonaria e a fé cristã. O histórico destes posicionamentos pode ser visto aqui: http://www.mackenzie.com.br/10245.html. Eu pessoalmente concordo com esta posição da IPB.


13 - Quanto ao chamado “mal do século”, a depressão. Pastores afirmam que as Escrituras são suficientes, de fato são, para resolver o problema. Há pastores preparados para lidar com esses casos? A psicologia é relevante ou não como auxilio para o pastor, ou seja, o pastor deveria fazer um curso de psicologia? - Pergunta do Fernando Junior.


Rev. Augustus Nicodemus: Pastores não precisam de um curso de psicologia para orientar e ajudar a grande maioria das pessoas que chegam em busca de ajuda para seus sofrimentos. Os casos que estão além de suas possibilidades e conhecimentos podem ser encaminhados a cristãos psicólogos, pois há situações em que a depressão tem origem em distúrbios e doenças que requerem tratamento médico.
A psicologia funciona como uma ferramenta útil de diagnóstico dos males da alma humana, mas ela está bastante limitada pelos pressupostos racionalistas e materialistas que hoje orientam as suas diversas linhas. Por não reconhecer o homem como um ser que foi criado à imagem de Deus e que se encontra afastado dele, num estado de rebelião e desobediência e inclinado para o mal, a psicologia não pode detectar a origem espiritual de muitos males, desvios, comportamentos e estados que afligem as pessoas. E consequentemente, se ela não pode dar um diagnóstico completo, que integre o elemento espiritual, também não poderá oferecer soluções adequadas e eficazes na cura destes males. Quanto à depressão, ela tem diversas causas, uma delas de natureza espiritual, que é a falta de confiança em Deus ou desobediência aos seus caminhos. Este tipo de depressão pode ser tratada mediante orientação bíblica. Mas existem casos em que outros tratamentos podem e devem ser empregados. É preciso discernimento em cada caso, para não darmos remédio para quem precisa de Bíblia e não darmos só Bíblia para quem também precisa de remédio.


14 - Sobre a banalização da fé; As igrejas históricas deveriam intervir de forma mais ostensiva, mais participativa e presente? Por exemplo: confrontar diretamente lideres e/ou denominações que têm contribuído largamente para o abandono da sã doutrina? E implantação de heresias? - Pergunta do Fernando Junior.


Rev. Augustus Nicodemus: Paulo orientou Tito sobre o confronto de falsos mestres desta forma: "Evita o homem faccioso, depois de admoestá- lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tt 3:10). A estratégia então é esta: advertir e exortar uma e duas vezes, e depois disto, entregar a Deus e passar a evitar a pessoa, pois não há mais nada a fazer.

15 - Sobre o lema: “ecclesia reformata et semper reformanda”? Acha que é preciso uma nova reforma na igreja contemporânea? Se sim, por onde começaria (visto que se ouve falar muito em revitalização da igreja)? - Pergunta do Fernando Junior.


 Rev. Augustus Nicodemus: Sim, precisa. Por onde começar, não sei. Antes de Lutero afixar as 95 teses e dar início à Reforma protestante, sem ter planejado nada daquilo que veio a acontecer, vários concílios da Igreja Católica já haviam se reunido anos antes para discutir e analisar o estado espiritual e moral do cristianismo medieval. Imagino que eles deram muitas opiniões sobre o que precisava ser mudado. O que ninguém esperava era que Deus iria fazer esta reforma necessária mediante um monge agostiniano chamado Lutero que havia se convertido através da leitura e estudo da carta aos Romanos. Duvido que aqueles concílios tenham imaginado que a reforma deveria começar pela soteriologia, a doutrina da salvação. Da mesma forma, eu espero que Deus levante no tempo dele os meios eficazes para reformar a Sua Igreja no mundo.
16 - O Rev. reconhece que a IPB, hoje, apresenta uma expressiva falta de identidade confessional, devido a pluralidade de seguimentos doutrinários que tem brotado em seu seio, os quais, a tem afastado dos ideais dos apóstolos, pais da igreja, pré reformadores, reformadores, covenanters e puritanos, mostrando assim, uma infidelidade confessional, bem como, a rejeição da história da igreja? Pergunta do Fabio Martins

 Rev. Augustus Nicodemus: A pergunta tem um pressuposto equivocado. A identidade da IPB é definida por sua fidelidade às Escrituras e os símbolos de fé de Westminster (Confissão e catecismos Maior e Breve), e não pelos escritos dos pais da igreja, dos pré-reformadores, covenanters e puritanos. Os pastores presbiterianos fazem voto de fidelidade aos símbolos de Westminster e não aos escritos destes outros grupos. Devemos lembrar que dentro da Reforma protestante haviam diferentes linhas, mesmo entre os puritanos. Ainda assim, encontraremos dentro da IPB pastores que se afastaram de seus votos e seguem teologias estranhas àquela de Westminster. Eu não sei dizer se este desvio é expressivo. A julgar pelas decisões do Supremo Concílio da IPB, eu diria que ela continua, na sua maioria, fiel aos seus votos.

17 - Podemos dizer que um dos frutos da falta de identidade confessional, se deve a desonestidade confessional, apresentada pelos oficiais da IBP e também, porque não é exigida dos demais membros, uma subscrição aos documentos confessionais e históricos que foram dados por Deus, para nortear o conhecimento de Deus, que a igreja deve ter? – Pergunta do Fabio Martins.

 Rev. Augustus Nicodemus: Há oficiais da IPB que conscientemente seguem teologias estranhas ao presbiterianismo que um dia votaram seguir fielmente. Estes podem ser acusados de desonestidade. Mas, em outros casos, há oficiais que foram colocados em seus postos sem ter conhecimento algum da teologia presbiteriana, como resultado de igrejas sem teologia e concílios que não se preocupam com isto. Não me sinto à vontade para acusá-los de desonestidade confessional. Acho também que os pastores neopuritanos dentro da IPB são desonestos, pois a IPB não adota os Princípios de Liturgia de Westminster e eles, mesmo assim, querem forçar a IPB a adotar o sistema de culto expresso ali e práticas como salmodia exclusiva. Sobre exigir dos membros subscrição a documentos históricos, considero um exagero. Eles vão aprender estes documentos e a teologia reformada depois de serem membros da igreja, nas classes de Escola Dominical e mediante dissimulado e as pregações. Querer que eles já sejam reformados na teologia como condição para serem membros das igreja é legalismo puro.


18. Como você vê essa aproximação entre pentecostais e reformados? Pastor Geremias do Couto da Igreja Assembleia de Deus.

 Rev. Augustus Nicodemus: Na década de 60, o movimento carismático, que era pentecostal em sua essência, entrou nas denominações reformadas e históricas, dando frutos bons e ruins. Entre os bons menciono o despertamento entre reformados e históricos para a obra do Espírito em nossos dias. Entre os ruins, o divisionismo, a amargura e a cisão. Agora, vemos o movimento contrário, a teologia reformada entrando no campo pentecostal. Aguardo bons frutos, como um maior interesse dos pentecostais pelo estudo sério da Palavra, pelas doutrinas da graça, pela pregação expositiva. Espero que os frutos ruins não brotem, como novos reformados fanáticos e zelotes ou pentecostais que abraçam da Reforma apenas aquilo que lhes agrada, esquecendo que a teologia reformada é muito mais ampla do que os cinco pontos do calvinismo ou os cinco solas (slogans) da Reforma.

19- Obrigado minha amiga pela gentileza do convite. Pergunte ao Reverendo, se ele faz diferença entre pentecostais e neo pentecostais.  Pastor Robson Aguiar – Igreja Assembleia de Deus.

 Rev. Augustus Nicodemus: Faço, sim. O pentecostalismo histórico clássico nasceu da convicção de que Deus estava restaurando todos os ministérios, dons e prodígios encontrados no Novo Testamento, à exceção do oficio de apóstolo. Enfatizava o batismo com o Espírito Santo evidenciado pelas línguas e aceitava revelações e profecias. O neopentecostalismo surge de dentro do pentecostalismo com estas mesmas convicções, mas acrescentando a restauração do oficio de apóstolo, adotando a estratégia do G-12 e do Modelo de Discipulado Apostólico, modelos de igrejas independentes e lideradas por uma pessoa apenas e pregando a teologia da prosperidade. A Igreja Presbiteriana do Brasil reconhece denominações como a Assembléia de Deus como irmã, mas considera como seitas igrejas neopentecostais que pregam a teologia da prosperidade.

 20 . Rô ,gostaria de no mínimo, três perguntas sobre a relevância da igreja nos dias atuais. Igrejas em busca de relevância se tornou uma preocupação na mente de tanta gente que dá vontade de perguntar: como elas sobreviveram até hoje, num mundo tão competitivo, sendo irrelevantes?

Numa sociedade secularizada e massificada por valores contrários aos das igrejas, como elas ainda existem, crescem e ainda preocupam tanta gente que se sente incomodada com elas? Parece que igreja é o negócio mais irrelevante do mundo e que alguns descobriram agora como torná-la relevantes, funcionais e interessantes. Não creio que a questão por trás de tudo seja relevância ou sua ausência. Há outras mais. Pretendo mostrar isto neste trabalho. E também mostrar que esta preocupação não tem sentido. A questão se torna mais aguda quando tentamos entender o que se quer dizer com isso. Porque relevância não é contemporaneidade. É importância. Neste sentido, dizer que a mensagem da igreja não é contemporânea, é verdade. Mas é importante. Porque importância não é contemporaneidade, mas ter valor ainda hoje. Quem queira dizer que sua mensagem não tem importância hoje não aborda mais a questão de forma ou de modelo, mas nega a essência de sua pregação. Que relevância querem impor à igreja? Relevância não é quantificável. Nos termos em que está sendo disposta é questão de opinião. Por isso levanto a questão: o que é relevância e por que a igreja deve ter o que chamam de relevância? - Reverendo Ricardo Rodrigues

 Rev. Augustus Nicodemus: Quando eu digo que a igreja tem que ser relevante, me refiro à sua forma e método de pregar a verdade do Evangelho, a qual é sempre atual e inegociável, bem como a maneira pela qual ela, a igreja, aplica estas verdades eternas à sua situação ou ambiente vivencial. Acho que Paulo estava querendo ser relevante quando ele disse que se fazia como judeu entre os judeus e se fazia de gentio entre os gentios (1Coríntios 9). Quando estava entre os judeus, Paulo falava como judeu e se comportava como judeu (o que era fácil, pois ele era um judeu) para ser ouvido. De que adianta você ter a verdade mas não ter quem queira ouvi-la? De que adianta você ter a verdade mas não saiba como mostrar de que maneira ela impacta as questões sobre as quais todo mundo está falando? Relevância é anunciar o Evangelho eterno e imutável de maneira que as pessoas ouçam e percebam como de fato este Evangelho é o poder de Deus para salvar pecadores no século XXI. Todavia, a busca pela relevância nunca deve nos levar a diminuir as exigências radicais do Evangelho.


21.  Rev. Nicodemus o senhor foi a favor da saída da IPB da associação mundial de igrejas reformadas. Luciano Betim (lucianobetim@hotmail.com)

 Rev. Augustus Nicodemus: Creio que se refere a World Association of Reformed Churches (WARC). Sim, fui a favor. Na ocasião da decisão, ficou claro pelo exame dos documentos apresentados no Supremo Concílio da IPB que a WARC estava no caminho do liberalismo teológico e apoiando a agenda associada com este liberalismo. “Como andarão dois juntos se não estiverem de acordo”? A IPB preferiu associar-se à World Reformed Fellowship (WRF), que é bem reformada e teologicamente firme, e que reúne igrejas, denominações e instituições reformadas do mundo inteiro.

22. boa noite Rô, a minha pergunta é se existe esperança, ou possibilidade de acontecer uma nova reforma entre as igrejas? Sandra Regine Rodrigues

 Rev. Augustus Nicodemus: Creio que Deus é soberano e todo poderoso. Ele pode abençoar seu povo mais uma vez. Historicamente, contudo, não há mais aquela convergência de fatores históricos que permitiram a Reforma do sec. XVI, quando havia apenas uma igreja a ser reformada, que era a Católica. Hoje há centenas de denominações protestantes, além da igreja católica. Portanto, se vai haver uma reforma, ma parece que terá de ser diferente, quanto ao modo, daquela do séc. XVI. Mas, é melhor deixar Deus cuidar disto. Cabe-nos orar e ensinar a Palavra, o quanto pudermos.

23.  Como o Reverendo vê a tentativa de reavivar o anglicanismo reformado no Brasil,e como ele vê o movimento neo-puritano? Marcelo Lemos

 Rev. Augustus Nicodemus: Não estou a par deste movimento entre os anglicanos no Brasil, mas saber disto me alegra. Anglicanos reformados como John Stott, J. I. Packer, J. C. Riley e outros publicaram muito material bom. Seria bom ver outros como eles em nossos dias. Sobre o movimento neopuritano, a IPB já tomou uma posição em que considera as práticas neopuritanas como estranhas em seu meio.


Considerações finais:

Agradeço imensamente pela solicitude dispensada a nós, desta nobre intenção de propormos uma reflexão sobre a Igreja moderna e seus rumos, e sendo assim, de forma, muito Cristã e carinhosa o Reverendo Augustus Nicodemus Lopes, nos atendeu da melhor e mais solicita possível, agradeço a amada irmã Ivete Paixão, que de forma empenhada me auxiliou na busca pelas questões e participantes, e também, não posso deixar de agradecer imensamente a cada participante com suas duvidas, questões e diálogos propostos em forma de pergunta! desejo muito que todos possam ser

edificados e que juntos possamos refletir estes apontamentos teológicos para a igreja atual moderna! Boa leitura a todos! Graça e paz da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Cabeça da Igreja!
 Este artigo só poderá ser copiado com os devidos créditos do Blog da Rô


Assembleiano e calvinista convicto: uma entrevista com Geremias do Couto

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Ontem publicamos uma entrevista com o teólogo Silas Daniel, 
como um arminiano convicto, sobre a ascensão do Calvinismo 
nas Assembleias de Deus e outros assuntos correlatos [leia aqui
e hoje leremos outro ponto de vista sobre a mesma questão.

O objetivo dessas entrevistas é fomentar um debate sério, com nível 
elevado e sem o calor irracional característico em muitas redes pela internet
É certamente um momento novo nas Assembleias de Deus, um tempo
de discussão entre posições antagônicas, mas sempre com uma postura 
de cortesia.  O Blog Teologia Pentecostal espera que o mesmo tom 
de civilidade  dos entrevistados se mantenham entre os leitores dessas matérias, 
independente da posição assumida. O meu desejo, como membro desta 
denominação, é que os debates dentro dela não sejam sobre mesquinhez 
disputas de poder, mas sim sobre assuntos importantes da teologia, 
tradição e ética. Há inúmeros debates que necessitam entrar em nossa pauta,
inclusive  a “mecânica da soteriologia”. 
Não é uma conversa trivial, desnecessária, como muitos numa 
pseudoespiritualidade tentam passar, mas é essencial para o
amadurecimento teológico da denominação.

Hoje o teólogo Geremias do Couto nos concede uma entrevista sobre o impacto 
do crescente calvinismo nas Assembleias de Deus e entre pentecostais de
maneira geral, normalmente identificados com o Arminianismo. 
Ele conta a própria experiência como um pentecostal, pastor assembleiano e 
calvinista convicto. Como será essa relação?

Geremias do Couto em palestra.
 Um dos poucos pastores assembleianos de expressão nacional assumidamente calvinista.
Geremias do Couto é pastor na Assembleia de Deus em Teresópolis (RJ),
mestre em teologia pelo conceituado Gordon–Conwell Theological Seminary 
(GCTS) onde foi aluno do conhecido exegeta assembleiano Gordon Donald Fee,
autor do livro “A Transparência da Vida Cristã” e coautor do obra “Teologia
Sistemática Pentecostal”, ambos publicados pela CPAD 
(Casa Publicadora das Assembleias de Deus).
Foi um dos editores da famosa Bíblia de Estudo Pentecostal (BEP) 
do norte-americano  Donald Stamps. Couto também presidiu o
Projeto Minha Esperança Brasil da Associação Evangelística Billy Graham.

Blog Teologia Pentecostal: Como pastor das Assembleias de Deus,
conhecido escritor entre os assembleianos e de uma família de
tradição pentecostal, como foi aderir ao Calvinismo? 
Qual a causa e a circunstância dessa guinada teológica?

Geremias do Couto: Creio que a expressão “aderir” é muito simplificadora, 
sobretudo para quem constrói a sua história de vida à luz da coerência.
Isso foi mais resultado de um processo iniciado ainda na minha adolescência 
do que uma mudança propriamente dita. Sempre fui questionador e ledor
voraz desde quando ainda era criança.
Fui da época em que se marcavam os versículos a lápis de cor durante a leitura. 
Mantenho ainda o mesmo hábito.

Embora se diga que a AD seja tradicionalmente arminiana, pelos muitos 
de seus escritos em nossos órgãos oficiais, na prática, na rotina dos nossos
púlpitos, regra geral, a verdade é que sobrepujava uma tendência para o 
semipelagianismo, sem que os pastores soubessem até o que isso
significa. É só nos lembrarmos dos antigos “cultos de doutrina”, onde o
que menos tínhamos era doutrina, mas a insistência na pregação dos usos
e costumes, de forma opressora, com o risco de “perder” a salvação, 
se incorrêssemos na quebra de uma daquelas regras, mesmo que fosse 
jogar bola de gude ou soltar pipa. Cresci nesse ambiente emque 
durante o dia me via “perdendo” a salvação várias vezes, com drama de 
consciência, pois não conseguia cumprir à risca o que era necessário para
manter-me salvo. A noite, tentando dormir, sofria com medo de ir para 
o inferno, 
se morresse, por causa das falhas cometidas.

A primeira vez em que se ensinou sobre a diferença entre doutrina
e costumes em nossa igreja foi através do pastor Antonio Gilberto.
Eu tinha por volta de 13 anos. Nos dias seguintes foi só confusão. 
O ministério foi até reunido, de forma protocolar, para discutir a
questão. Para mim, no entanto, tratou-se de um divisor de águas 
até porque, em conversa particular com o conhecido mestre, enquanto 
almoçava com ele no restaurante, pude lhe expor um problema que 
então me atormentava: a masturbação. Ali, com a sua sabedoria, 
começou a
descortinar-se para mim, como numa penumbra, o sentido da verdadeira
salvação. Mas se contasse o problema para um dos presbíteros da igreja, 
seria sumariamente excluído da igreja. Pelo menos era o que eu pensava
pela forma como éramos ensinados a viver a vida cristã. 
Ora, isso nunca foi arminianismo, mas  com bastante complacência
identifico como semipelagianismo: a salvação obtida pelo esforço humano.

Com o tempo passei a ter contato com as doutrinas da graça, a ler os
mesmos livros citados pelo pastor Silas Daniel em sua entrevista, além 
de alguns outros, a fazer perguntas e mais perguntas, em diálogos
imaginários com os autores das respectivas obras, com lógica e
método na exposição do raciocínio, sem nunca abandonar a Bíblia,
até que abraçar a fé reformada tornou-se algo natural,
sem que houvesse necessidade da qualquer ruptura “explosiva”.

TP: Na sua opinião, quais são os motivos que levam
inúmeros jovens assembleianos a abraçarem o 
Calvinismo e a cosmovisão presbiteriana aqui no Brasil?

GC: Algumas razões já apresentei de forma implícita na resposta anterior, 
como a predominância do semipelagianismo em nossos púlpitos.
Esse era o “arminianismo”que nos ensinavam. Mas convém sinalizar
que a liderança assembleiana, com as honrosas exceções de praxe, 
sempre teve uma atitude refratária à educação teológica formal. 
Temos de ser realistas e encarar o fato sem maquiagem. 
Não éramos estimulados ao estudo acadêmico.
João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos pagaram elevado 
preço para implantar o IBAD – Instituto Bíblico das Assembleias 
de Deus, a primeira instituição do gênero nas Assembleias de Deus,
localizado em Pindamonhangaba, SP. É só folhear as páginas do
Mensageiro da Paz do período, que serão encontrados
artigos contrários e favoráveis ao ensino formal. Aliás, essa era
uma qualidade que precisa ser exaltada. O Órgão Oficial assembleiano
abrigava esse debate. Hoje, infelizmente, isso não mais acontece.

Outra questão a ser considerada é que a literatura pentecostal 
assembleiana, no Brasil, também era parca. 
Tínhamos poucos livros, a maioria de natureza devocional,
mas praticamente nenhum de caráter acadêmico.
Na verdade, uma de nossas maiores igrejas não adotava sequer a 
revista da Escola Dominical. A primeira obra sistemática de que
me lembro, traduzida do inglês, foi “As Grandes Doutrinas da Bíblia
”, de Myer Pearlman, que se tornou o livro de cabeceira dos pastores 
assembleianos. Já aqueles que conheciam o idioma de Shakespeare 
eram privilegiados e se tornavam a nossa fonte de conhecimento,
visto que não tínhamos acesso a essas fontes primárias.
Mas como os tempos mudam, houve também mudanças positivas, 
com a chegada dos seminários, faculdades teológicas, a publicação
abundante de livros, as redes virtuais etc. Até mesmo a CPAD 
tornou-se a maior editora da América Latina, publicando também 
diversas obras de autores reformados, sem que eu tivesse qualquer 
influência nisso durante a minha gestão como Diretor de Publicações.
Elas começaram a ser publicadas em fase posterior.

No vácuo que acabei de mencionar, de um lado, e a explosão das
fronteiras da educação teológica formal, de outro, além da inexistência 
de obras em português tratando do arminianismo de forma 
consistente, nossos jovens começaram a ter contato com a literatura e a
teologia reformadas, até mesmo através de professores de origem
reformada em cátedras de nossos seminários e faculdades, criando 
assim todas as condições para o surgimento desse interesse. 
Não acredito que tenha sido algo orquestrado e desconheço 
que haja pessoas fazendo proselitismo, querendo “calvinizar” 
as Assembleias de Deus. Isso é forçar a barra. Mas aonde chego, 
encontro jovens e pessoas já maduras na idade, com boa formação, que 
acreditam na doutrina reformada, sem qualquer vestígio de proselitismo, 
e não criam nenhum problema nas igrejas onde professam a fé.
Não acho que isso tenha sido um mal. Ao contrário, isso trouxe o
nosso meio de forma mais efetiva o “espírito”bereano” de cotejar a
Escritura em busca de seu respaldo (ou não) para o que está sendo ensinado.
Vejo também de modo muito positivo a aproximação entre a fé reformada 
e a fé pentecostal, partilhando a mesma trincheira em defesa das 
verdades do Evangelho.

TP: É visível uma reação arminiana entre os pentecostais. 
Ainda pequena, é bem verdade, mas com um potencial fantástico. 
Todavia, seria uma
reação tardia?

GC: A rigor, a reação arminiana entre os pentecostais é tímida,
na defensiva, a não em discussões de grupos no Facebook, onde mais
predomina a carnalidade do que um debate sério e consistente entre 
as duas correntes. O próprio pastor Silas Daniel, na entrevista concedida
ao blog, afirmou que sua manifestação era particular, embora contasse
com a aprovação da direção superior da CPAD por tratar-se de uma
revista institucional destinada aos obreiros da igreja. 
Mas é bom que essa reação aconteça e posso analisá-la sob duas perspectivas:

  1. Se o arminianismo for ensinado tal como Armínio o formulou
  2. ou com as características wesleyanas, isso permitirá que muitos 
  3. pentecostais percebam o quão diferente é do semipelagianismo 
  4. que ainda predomina em muitos púlpitos assembleianos. Quem fez 
  5. essa excelente observação foi o irmão Clóvis Gonçalves, a quem considero 
  6. o melhor expoente da fé reformada no meio pentecostal. 
  7. Ao descobrir isso, verão também que o calvinismo 
  8. não é o tal “monstro” que alguns tentam criar em suas cabeças.
  9. A outra perspectiva é que se o intuito for cercear a liberdade
  10. cristã ou promover uma “caça às bruxas”, a reação já nasce com 
  11. espírito carnal e de forma tardia, pois as Assembleias de Deus, 
  12. atualmente, enfrentam sérios problemas institucionais, de gravíssima 
  13. monta, diga-se de passagem, além de estarem extremamente 
  14. fragmentadas, que lançar um debate com esse propósito acabará 
  15. por dilacerar o pouco de unidade que resta. Goste-se ou não, 
  16. o número de reformados, hoje, é muito grande no meio assembleiano. 
  17. Isto sem qualquer proselitismo.

TP: Alguns pastores assembleianos reagem 
ao Calvinismo tratando-o  como "vento de doutrina",
"novidade perniciosa", "heresia" e  outros adjetivos não
amigáveis. Como você responde aos seus colegas de ministério?

GC: Radicais há de ambos os lados. Sob o guarda-chuva do calvinismo abrigam-se 
diferentes tendências. O mesmo pode-se dizer do arminianismo. Até o Teísmo Aberto
encontra guarida sob o sistema, como deixa explícito Roger Olson em seu livro: 
Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, e teve como um de seus principais expoentes 
Clark Pinnock, um dos autores da obra: “Predestinação e Livre-Arbítrio”, ao lado de
Norman Geisler. Mas neste ponto, prefiro ficar com a posição que o pastor Silas
Daniel expressou em sua entrevista, ao afirmar que o calvinismo honra a Deus tanto
quanto o arminanismo – ele enumera as razões – e que em suas leituras de obras
reformadas sempre apreciou a “paixão por Deus, pela pureza, pela santidade de Deus,
pelo viver para a glória de Deus” de seus autores.

Só me soa contraditório, depois dessa afirmação extremamente conciliadora, propor 
que os calvinistas pentecostais deixem a Assembleia de Deus e busquem outra 
denominação, onde a fé reformada seja o cerne da doutrina. Aí acabou por jogar fora
a água da bacia com o bebê e tudo. De minha parte, sempre cri que reformados e 
arminianos podem dar-se as mãos como cristãos, sem contradição alguma, sem
ataques e agressões mútuas, que nada engrandecem a Deus e edificam o Reino. 
A título de ilustração, ontem mesmo vi no Facebook um arminiano chamando a
fé reformada de demoníaca, enquanto um calvinista usava o mesmo epíteto para o
calvinismo. Há necessidade disso? É cristão agir dessa forma? Se ambas honram 
a Deus – repito – por que se digladiar tanto ao invés de lutarmos em defesa 
do evangelho.
Fico com um pé atrás se essa reação “particular” não estaria sendo movida por 
segundas intenções, uma espécie de cortina de fumaça para encobrir graves 
problemas que a instituição assembleiana enfrenta.

GC: Como calvinista convicto você sempre mantém uma postura 
conciliatória.  Sendo assim, qual ponto positivo você poderia
apontar no Arminianismo?

GC: Se estamos falando de arminianismo clássico ou wesleyano, encontro os mesmos
pontos positivos que o pastor Silas Daniel encontrou na fé reformada. Mas em se 
tratando da “mecânica da salvação, prefiro ficar com a essência do aforismo 
peculiar ao veterano pastor José Isaías Neto, vinculado ao Ministério do
Belenzinho, em Sorocaba, SP, que do alto dos seus 80 anos, grande parte deles
vivido ao lado de Cícero Canuto de Lima, assim afirma: “Não sou calvinista , 
nem preciso de Calvino para ir ao céu, mas em questão da salvação Calvino estava
100 % certo”.

TP: E a Assembleia de Deus é tradicionalmente arminiana, embora 
lhe falte a formalização de uma confessionalidade. É possível ser
calvinista e assembleiano? Não seria uma distorção de identidade?

GC: Já expressei o meu ponto de vista sobre a questão logo na primeira pergunta.
Embora tradicionalmente arminiana, o que sempre predominou nos púlpitos da AD,
regra geral, foi o semipelagianismo. Dito isto, vamos a algumas indagações:
todos os arminianos são pentecostais? São todos cessacionistas? Ora, assim
como há arminianos cessacionistas e arminianos pentecostais, não vejo dificuldade
alguma em que haja calvinistas pentecostais, assim como há calvinistas cessacionistas. 
Em relação à identidade assembleiana, cabe refletir: qual? A do reteté, com suas 
expressões cultuais estranhas ao genuíno pentecostalismo, como descrito
em 1ª Coríntios 12, 13 e 14? A do neopentecostalismo, que grassa em nosso meio
a olhos vistos, com a introdução de ritos judaicos na liturgia? A do liberalismo, 
que já encontra eco em diversas cátedras de alguns dos nossos seminários? 
A do engessamento institucional e político-religioso, que tem devastado a unidade 
da igreja em nosso país? Ora, se o calvinismo honra a Deus, como bem expressou 
o pastor Silas Daniel, não vejo porque a presença de reformados na Assembleia
de Deus, que não vivem por aí a fazer proselitismo, possa ferir a identidade 
da denominação.
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